Porto Rico se levanta
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Porto Rico se levanta

Bruno Magalhães analisa a luta do povo de Porto Rico.

Bruno Magalhães 25 jul 2019, 17:11

Na última semana a população de Porto Rico iniciou uma jornada de lutas histórica  na ilha caribenha, com centenas de milhares indo às ruas contra o governador Ricardo Rosselló após o vazamento de uma série de mensagens particulares nas quais o governador sugere a obstrução da justiça, a exoneração de servidores públicos por razões políticas, realiza uma série de comentários machistas e homofóbicos e despreza a situação social da ilha, afetada pela crise econômica e ainda se recuperando da passagem do furacão María em 2017. 

Os protestos se iniciaram no contexto de denúncia e prisão de importantes funcionários do governo como a ex-secretária de educação Julia Keleher, que destinou contratos públicos para contatos próximos, implantou um plano de privatização da educação no país e fechou mais de 400 escolas públicas em sua gestão. Apesar da dura repressão pela violência policial, as manifestações continuam e crescem em um movimento sem precedentes na história porto-riquenha, cercando “La Fortaleza” (a residência oficial do governador) e colocando em cheque todo o establishment político do país. Na tentativa de conter a insatisfação popular, Rosselló anunciou neste final de semana sua desistência de concorrer à reeleição no próximo ano.

É importante ressaltar que Porto Rico não é um país independente, mas uma colônia norte-americana considerada um “território não-incorporado” pelo governo dos Estados Unidos. Seus habitantes não podem nem mesmo votar nas eleições para presidente, tendo seus direitos políticos recusados e vivendo sob controle direto do império. Além do anacronismo da situação política porto-riquenha, a população ainda vive uma situação complexa na qual o status dependente do país perante o governo dos EUA impede uma série atividades políticas, tornando esta recente mobilização um verdadeiro marco histórico na luta social da ilha. 

O lema “Puerto Rico se levanta” utilizado pelos manifestantes remete ao slogan da reconstrução após o furacão mas agora com grande força política exigindo a queda de Rosselló e uma mudança política na ilha.  O conteúdo vulgar das mensagens trocadas pelo governador foi a faísca que acendeu uma chama de revolta contra esta situação de conjunto e demonstrou de forma evidente a relação entre a retirada de direitos promovida pela política neoliberal e os mecanismos de corrupção tão disseminados na relação entre o poder público e setores privados.  

A coalizão Victoria Ciudadana tem sido a organização política mais destacada nas mobilizações. Reunindo desde ex-candidatos derrotados nas últimas eleições a grupos de esquerda da ilha, este agrupamento em fase inicial procura se apresentar como alternativa. E assim como nos levantes do resto do planeta, as manifestações em Porto Rico são levadas adiante por multidões de jovens indignados que vem sua situação devida piorar e lutam contra um governo corrupto que retira direitos.  

A situação de Porto Rico influencia a política norte-americana de distintas maneiras. O crescente questionamento do status colonial da ilha se combina com o acirramento da agenda política racista de Donald Trump, que recentemente declarou que as parlamentares de esquerda de comunidades imigrantes deveriam “voltar aos seus países”. Alexandria Ocasio-Cortez, a principal representante deste grupo, é filha de porto-riquenhos e a declaração de Trump contra ela evidencia o caráter da opressão colonial dos EUA sobre Porto Rico, visto exclusivamente como uma base militar e território extrativista para o governo norte-americano. 

O levante do povo de Porto Rico nos dá mais uma mostra das enormes contradições internas vividas pelo imperialismo norte-americano e ao mesmo tempo evidenciam novamente como as políticas neoliberais necessitam das relações de corrupção para impor sua agenda antidemocrática de cortes e retirada de garantias aos trabalhadores. E, mais uma vez, a juventude se coloca à frente dos processos mais avançados, novamente exigindo democracia real e poder para a maioria enquanto os grupos políticos tradicionais dão às costas para os problemas e anseios da população.

Fonte: Observatório Internacional da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco – https://internacional.laurocampos.org.br/2019/07/porto-rico-se-levanta/


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.