Massacre em “El Paso”: o ódio como combustível e a extrema-direita como cúmplice
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Massacre em “El Paso”: o ódio como combustível e a extrema-direita como cúmplice

O tipo de ataque terrorista baseado na ideologia do supremacismo racial branco tem se multiplicado por várias partes do planeta.

Israel Dutra 13 ago 2019, 16:01

A notícia que estarreceu o mundo nos últimos dias foi a chacina na cidade de El Paso, no Texas. No sábado (3 de agosto), o jovem Patrick Crusius saiu de um carro nas cercanias do hipermercado, com as mãos para cima, confessando “Eu sou o atirador”. Minutos antes, foram mortas 22 pessoas que estavam fazendo compras e trabalhando no Wallmart. Com um WASR10 (uma versão recente da AK47), Crusius abriu fogo contra inocentes, sem qualquer possibilidade de defesa. O atirador teria postado num fórum online um manifesto denunciando o que enxerga como uma “invasão hispânica do Texas”.

No mesmo final de semana, na cidade de Dayton, estado de Ohio, outro atirador matou nove pessoas, sendo abatido pela polícia logo em seguida.

A cidade de El Paso é considerada uma cidade multicultural, por conta de sua composição (83% de origem hispânica) além de fazer fronteira com Ciudad Juarez, no México. Um local emblemático, diante da presente polêmica sobre a política imigratória que divide os Estados Unidos.

O tipo de ataque terrorista baseado na ideologia do supremacismo racial branco tem se multiplicado por várias partes do planeta. Em 15 de março de 2019, na cidade de Crist Churc, Nova Zelândia, 50 pessoas foram mortas numa chacina protagonizada por um assassino que reclamava como parte da extrema-direita e propagava manifestos de supremacia racial.

O ataque contra a juventude socialista na ilha de Utoya, Noruega,em 22 de Julho de 2011 deixou 69 vitimas. O criminoso, Anders Breivik, levantou a bandeira de uma luta sem tréguas contra a imigração. Longe de serem trágicas coincidências, as chacinas colocam um sinal de alerta sobre a prática da extrema-direita, seja no âmbito de sua ação extra-política (ou paramilitar), seja no discurso de ódio de seus representantes “legais”.

O ódio como política

O motor dessas chacinas é a política do ódio. O fascismo e a nova extrema-direita produzem e se alimentam do que definimos como política do ódio. Apagando as divisões de classe que marcam a sociedade contemporânea, a extrema-direita elege inimigos para vociferar como responsáveis pelas crises. Na trágica experiência do nazifascismo, a construção da política do ódio contra o inimigo comum era voltada para outros grupos sociais: os comunistas, os homossexuais, os judeus, os ciganos. Atualmente, em diferentes esferas, são os imigrantes, os latinos e os negros os inimigos que a extrema-direita quer cultivar.

A responsabilidade é da extrema-direita, diretamente. Os crimes de ódio precisam ser parados, no submundo da internet e na vida real. Não compreender que sua fonte é o pensamento e a prática que a extrema-direita propaga pelo planeta torna limitado o combate a suas consequencias. A utilização do ódio como motor fundamental para liquidar, fisicamente, o outro, é um caractere fundante da extrema-direita, seja no seu aspecto histórico, seja nas suas variantes mais contemporâneas.

A combinação entre a ação de grupos ou indivíduos “extremistas” com práticas políticas institucionais são o fermento para esse tipo de ação. Não foi uma coincidência que, no mesmo Texas, um homem negro tenha sido agredido pela polícia e arrastado pela via pública, numa condição humilhante, em cenas que remontam o período da escravidão.

Donald Trump atacou, de forma racista, uma série de deputadas da oposição, a quem chamava de “comunistas”, afirmando que elas deveriam deixar o país. Sua agressividade foi seletiva contra Alexandria Ocasio-Cortez, de origem porto-riquenha, Ihan Omar, somali-americana, Ayanna Pressley, de origem afro-americana, e Rashida Tlaib, de família palestina.

A política imigratória de Trump é uma usina de ódio e racismo institucional. Todas suas leis foram uma declaração de guerra nesse sentido. Enquanto viajava para El Paso- onde foi recebido com protestos – Trump ordenava a maior ação militar contra a imigração, no estado do Missisipi, detendo mais 680 trabalhadores de frigoríficos. O DHS(Segurança Nacional) atuou para separar crianças dos pais, levando o medo para a comunidade migrante. Isso é a continuidade da política de bárbarie dos campos de concentração, que nos últimos dois anos, o governo vem implementando contra os imigrantes, especialmente os centro-americanos.

A cultura das armas de fogo, sua idolatria, é base da ação dos supremacistas e da extrema-direita. A reconstrução da KKK teve na política de armamento para as camadas médias, nos setores mais atrasados dos Estados Unidos, uma bandeira de aglutinação. Não por acaso, o “lobby” das armas de Trump inflama e organiza essas bandas. A ação discursiva de Trump pavimenta caminho para a “ação prática” desses assassinos. Para além das discussões políticas, todo debate do “controle do armamento” orienta para a verdadeira discussão: os supremacistas brancos estão se armando em milícias urbanas e rurais. E estimulando os terroristas de direita, solitários, com sanha assassina contra inocentes.

Os fóruns de internet como o 8Chan são decisivos para a articulação desses grupos. Com chats e grupos voltados para a política do ódio, misoginia, racismo e outras perversidades, ali tem terreno fértil para recrutamento de novos terroristas dispostos a servir como soldados do neofacismo. Para deter a política do ódio precisa se desarmar todas essas operações institucionais, clandestinas, discursivas ou que envolvam força física. Barrar os fascistas é a primeira tarefa de todos os democratas do mundo.

As três guerras de Trump

Trump e seus ideológos como Bannon adotam uma estratégia de guerra permanente contra o povo e as liberdades democráticas. As medidas exasperadas são parte de uma lógica coerente da extrema-direita mundial, parte de uma luta sem tréguas para ganhar posições, ampliar a hegemonia ideológica e liquidar, se possível, fisicamente, seus principais oponentes.

A guerra principal é contra os imigrantes. Por todo lado, existe um cerco ativo contra a imigração que envolve a polícia, o DHS, a imprensa e as próprias bandas paramilitares. E a toada antiimigração orienta a ação de outros governos pelo mundo: contra os curdos na Turquia de Erdogan; contra os africanos na Itália de Salvini, contra os diferentes tipos de imigração em todo lado.

A segunda guerra que Trump impõe como lógica é a guerra comercial contra a China, rompendo marcos de acordos anteriores, elevando numa nova potência o protecionismo. As últimas duas edições da reunião do G-20, em Buenos Aires e Osaka, resultaram em anúncios de trégua, ainda que precária. A nova investida tarifária voltou a gerar crise, com respostas duras de Pequim, desvalorizando a sua moeda. A luta pela implantação do sistema 5G no mundo será o próximo capítulo da luta entre ambos Imperialismos.

A escalada contra países é a terceira ofensiva de Trump. A ação no terreno militar propriamente dito é uma carta sempre na mesa dos operadores do trumpismo. As ameaças contra o Irã e a permanente tensão sobre a crise na Venezuela são características da estratégia de acirramento.

Crescem as respostas populares contra as guerras de Trump. A comoção na cidade de El Paso uniu a comunidade contra Trump, resultando numa maior polarização em escala nacional. O programa de defesa das liberdades e dos direitos dos imigrantes esta ganhando a maioria da população para derrotar o projeto neofascista em escala global.

O trumpismo à brasileira levará a desastres! Paremos a mão da extrema-direita em toda parte!

Mesmo sendo mais submisso, Bolsonaro não duvida em buscar credenciais como díscipulo fiel de Trump. A nomeação de seu filho para a embaixada americana seria mais um passo no jogo de imitação. Tragicamente, as semelhanças não param por aqui.

No quesito “xenofobia e racismo”, as últimas falas do presidente atingem em cheio os nordestinos, vanguarda na oposição popular ao governo. Assim como Trump atacou as deputadas de origem imigrante como método de desqualificação política, o presidente brasileiro parte para cima dos opositores, espalhando ódio e preconceito.

A chacina de Suzano foi o exemplo mais agudo de como os crimes de ódio já são uma realidade no país. Contudo, mortes e agressões contra a comunidade LGTB e as mulheres já são cotidianos. O genocídio da juventude negra na periferia tem caráter histórico e estrutural. Todos esses elementos de violência política da sociedade brasileira são elementos que fertilizam a projeção de novas tragédias do tipo.

A apologia às armas- que vai do simbolismo gestual à nova política de liberação do consumo e venda- de Bolsonaro é outro ponto de encontro entre as afinidades da extrema-direita. O caso do Brasil se agrava com o papel das mílicias, sobretudo em estados como o do Rio de Janeiro. A exaltação repetida de Ustra e os ataques contra Santa Cruz não deixam lugar a dúvidas.

É preciso parar o bolsonarismo e levantar a bandeira da resistência e das liberdades democráticas. A extrema-direita é uma ameaça real ao convívio em comunidade e aos laços mínimos de solidariedade entre a maioria do povo. Precisamos derrotar o neofascismo em todas partes do planeta, abrindo caminho para a defesa dos imigrantes. Lutamos por um mundo sem muros nem fronteiras!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.