O desconstrutível paradigma da esquerda iluminista
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O desconstrutível paradigma da esquerda iluminista

Reflexões acerca das filiações ideológicas do campo progressista.

Isaque Castella 28 ago 2019, 19:29

Como o próprio título da reflexão em questão sugere, gostaria de tomar, como ponto de partida, a estratégia geral da desconstrução de Jacques Derrida, no sentido de propor deslocamentos concernentes à matriz político-conceitual que continua a embalar parcela significativa das organizações e dos sujeitos identificados com o campo das esquerdas. Trata-se de uma proposta ousada, uma vez que esta desafia construções supostamente estáveis e “dogmas” estabelecidos na arquitetura histórica do Ocidente.​​

Começando por um exemplo, não é difícil perceber como parece estar na moda entre militantes progressistas a ideia de que a “esquerda precisa chegar até as periferias, as quais foram colonizadas pelo pensamento conservador, sobretudo através da religiosidade”. A dita “esquerda pé no barro”, nesse contexto, se convenceu da necessidade de fazer “trabalho de base” junto às comunidades mais precarizadas, em uma espécie de paradigma da ilustração, caracterizado pela pretensão de se levar esclarecimento e consciência àqueles sujeitos alienados por ideologias outras, inexoravelmente enraizadas no cotidiano popular.

​Assim como o projeto da modernidade colonial se baseou na “catequização” dos povos originários das antigas colônias pelos esclarecidos representantes da metrópole europeia, muitos acreditam, ainda hoje, ser necessário libertar os indivíduos passivos e acríticos manipulados pela cultura massiva ou “baixa cultura”, reprodutora da lógica do capital. Tal esquerda é, em grande medida, herdeira de tradições teóricas como a teoria crítica da sociedade, de origem alemã.​

​Para esse pensamento “neo-colonial”, é preciso construir uma identidade homogeneizadora, apta a englobar a pluralidade da vida social em categorias pouco elásticas. As premissas universalistas caracterizam a referida perspectiva. Logo, se elimina a conflitividadeprópria da diversidade de modos de ser e de se relacionar com o mundo em prol de suposto consenso racional.​

​Tidos antes como elementos de legitimação e interiorização da exploração capitalista, utilizados estrategicamente pela classe dominante –  as crenças, as lendas, os folclores, os saberes práticos, as religiosidades estariam dadas como mediações necessariamente opostas a qualquer possibilidade emancipatória. Para a matriz racional-iluminista-moderna, as resistências populares e locais não são sequer enxergadas.​

​Talvez pela distância de observação em relação a dinâmicas sobre as quais insiste em fazer diagnósticos e prognósticos, certa esquerda não consegue perceber que a tão fetichizadaperiferia já está mais avançada do que a sua “mestra” quando o assunto é luta política e resistência cotidiana. Conforme observaram as antropólogas Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Scalco, em escola secundarista da periferia de Porto Alegre, o feminismo, que alguns diriam ser pauta de determinadas bolhas, já havia furado qualquer bloqueio e se capilarizado naquela realidade, na qual meninas muito jovens eram linha de frente denunciando o machismo de Bolsonaro e comprando verdadeiras disputas com os homens de suas famílias. (https://theintercept.com/2019/01/08/extrema-direita-feministas-antirracistas-lgbts/).

​Contrariando qualquer análise apressada e apriorística dos “iluminados”, já se verifica, na prática, uma nova geração que tem sido educada politicamente no interior dos próprios processos de lutas por reconhecimento, seja jurídico, socioeconômico ou simbólico-cultural. Muitos dos novos sujeitos políticos inclusive recusam as lideranças e os partidos tradicionais, aos quais associam tudo aquilo em que não acreditam em termos de engajamento efetivo com a emancipação política.​

​Mais do que ensinar, parece que a esquerda político-institucional precisa ouvir mais e aprender com ativistas repletos de bagagens e vivências tão ou mais potentes do que alguns acúmulos políticos clássicos, muito presos a experiências pretéritas, que, muitas vezes, em nada de positivo resultaram, além de serem, em grande medida, incapazes de reencantar novamente a cidadania com relação à política, não reduzida aqui à acepção conservadora e tradicional do termo.

​No cenário em que vivemos, não desponta melhor caminho para que a esquerda volte a ser hegemônica do que a aposta na política democrática de alta intensidade, que pressupõe a necessidade de renúncia a projetos atrelados à construção de consensos estáveis, harmônicos, baseados na noção moderna de racionalidade. Ao contrário da matriz iluminista, uma perspectiva de esquerda democrático-radical deve se preocupar em construir maioria social a partir das alianças (por mais improváveis que sejam) entre diferentes bandeiras de luta, resistências, demandas emancipatórias, de modo a ser agente de coligação em meio a um campo marcado pela différance. 


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.