A “facada nas costas” de Trump no movimento nacional curdo
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A “facada nas costas” de Trump no movimento nacional curdo

É preciso pôr fim à invasão mortal do nordeste da Síria pelos turcos.

GIlbert Achcar 15 out 2019, 12:07

Em mais uma manifestação flagrante do seu caráter errático, da sua irresponsabilidade política e da sua leviandade diante das consequências humanas, o presidente dos EUA, Donald J. Trump, anunciou abruptamente na noite de domingo, 6 de outubro, depois de um telefonema com o presidente turco Recep T. Erdogan, que tinha ordenado a retirada das tropas americanas estacionadas no nordeste do país (cerca de mil soldados). Essas tropas estavam lá para apoiar as Forças Democráticas da Síria (SDF), uma coligação multiétnica liderada por forças curdas das Unidades de Proteção do Povo (YPG), na sua luta contra o autodenominado Estado Islâmico (EI).

Os curdos sírios e os seus aliados pagaram um preço alto nessa luta, que matou mais de dez mil pessoas. Eles desempenharam um papel fundamental na contenção e desmantelamento do ISIS no território sírio. Eles são, inquestionavelmente, os mais progressistas, se não os únicos, de todas as forças armadas ativas no território sírio, particularmente no que diz respeito ao estatuto e papel das mulheres. No entanto, o governo turco sempre os descreveu como “terroristas” por causa dos seus laços estreitos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a principal força ativa no território turco em que a maioria curda está a afirmar-se.

O governo turco, conhecido por fechar os olhos face ao reforço do EI na Síria (suspeita-se, inclusive, que tenha facilitado esse aumento de poder), considera o movimento nacional curdo a principal ameaça. O executivo decidiu invadir parte do norte da Síria (Afrin) em 2016 para reduzir o controlo dessa região pelo YPG e mantém a ocupação. Desde então, também ameaçou invadir o nordeste da Síria (Curdistão Ocidental, Rojava), tendo apenas sido dissuadido pela presença de tropas americanas ao lado das Forças Democráticas da Síria.

O telefonema de 6 de outubro entre presidentes dos EUA e da Turquia não é o primeiro em que Erdogan insta Trump a retirar as tropas dos EUA e a abrir caminho para a invasão do resto do território curdo da Síria pelas tropas turcas, como também não é a primeira vez que é anunciado que Trump aceitaria fazê-lo. Situação similar, há um ano, levou à demissão turbulenta do ex-secretário de Defesa Jim Mattis, refletindo a relutância dos militares dos EUA em executar o que é obviamente uma “facada nas costas” dos aliados (como o porta-voz do FDS justamente o chamou) e o receio legítimo do Pentágono: que a invasão turca dê nova vida ao EI e crie um caos que o Irão vai querer aproveitar para controlar totalmente o vasto território que se estende desde a fronteira do Iraque até a Síria e o Líbano.

Criticado até pelos seus aliados republicanos, Trump recuou no final do ano passado. Mas, desta vez, manteve a promessa que fez a Erdogan, respondendo aos seus opositores, que o culparam por trair aliados valiosos na luta contra o EI, dizendo que na sua “grande e insuperável sabedoria”, “esmagaria” a economia turca se as forças turcas ultrapassassem alguns limites muito mal definidos durante a invasão do nordeste da Síria[i].

Não entenda mal os motivos de Donald Trump. O presidente americano não é um pacifista que se opõe às aventuras militares do seu país no exterior. Ele é um firme defensor da guerra mortal no Iémen, liderada pelo príncipe herdeiro saudita, seu amigo criminoso. E ele expressou grande admiração pela base militar dos EUA no Iraque, que visitou em dezembro passado, explicando o quão importante é para os Estados Unidos.

Para um homem que disse durante a sua campanha presidencial anterior que os Estados Unidos deveriam assumir o controlo dos campos de petróleo iraquianos e explorá-los em seu benefício, a razão é bastante clara: Trump acredita que os militares dos EUA só devem instalar-se em territórios onde o seu país tem interesses económicos óbvios (e onde Trump tem os seus próprios interesses, poder-se-ia acrescentar, sabendo que esta presidência foi mais longe na história dos Estados Unidos no que respeita a misturar assuntos privados e assuntos públicos). O Iraque, o Reino Saudita e as outras monarquias petrolíferas do Golfo são lugares perfeitos para o destacamento militar dos EUA, ao contrário de países pobres como o Afeganistão e Síria.

De uma perspetiva verdadeiramente anti-imperialista baseada no direito dos povos à autodeterminação, todas as tropas imperialistas e predatórias devem ser retiradas da Síria, sejam as tropas israelitas que ocupam o Golan sírio desde 1967 ou as mais recentemente destacadas pelo Irão e seus aliados regionais, Rússia, Estados Unidos e Turquia, para citar apenas os principais protagonistas. Uma retirada unilateral dos Estados Unidos com um convite à Turquia para intervir, dando-lhe carta-branca para esmagar o movimento nacional curdo, não é progressiva ou pacifista: é o contrário.

Os dois líderes progressistas da eleição presidencial dos EUA no próximo ano comprrenderam bem a questão e reagiram da mesma forma, a 7 de outubro, ao anúncio de Donald Trump.

O senador Bernie Sanders escreveu no Twitter: “Acredito há muito tempo que os Estados Unidos devem terminar as suas intervenções militares no Médio Oriente de forma responsável. Mas o repentino anúncio de Trump de se retirar do norte da Síria e apoiar a incursão da Turquia é extremamente irresponsável. Pode causar mais sofrimento e instabilidade”.

A senadora Elizabeth Warren twittou: “Apoio a repatriação das nossas tropas da Síria. Mas a retirada imprudente e inesperada do presidente Trump mina os nossos parceiros e a nossa segurança. Precisamos de uma estratégia para acabar com esse conflito, não de um presidente que possa ser influenciado por um único telefonema”.

Temos de pôr um fim à invasão mortal do nordeste da Síria pelos turcos. Os aliados do governo turco na NATO compartilham a responsabilidade por este ataque. Eles devem interromper o apoio militar a Ancara, impor sanções económicas ao governo turco até que este retire as suas tropas da Síria e fornecer ao movimento nacional curdo as armas necessárias para combater a invasão do seu território pela Turquia.

Artigo originalmente publicado no site do Partido Trabalhista de Kingston, tradução para o português de Mariana Carneiro a partir de versão publicada pelo l’Encontre para o esquerda.net.

[i] A 10 de outubro, diante de reações negativas, inclusive no seu próprio campo, Donald Trump propôs “uma mediação americana para tentar iniciar um diálogo entre turcos e curdos”. Mas é improvável que o movimento nacional curdo dê muito crédito a essa proposta, enquanto no Conselho de Segurança os Estados Unidos se recusarem a condenar a operação militar turca em andamento. Tanto mais que já mais de 300 combatentes curdos foram mortos, sem mencionar o número de civis mortos e feridos, e os milhares de pessoas que foram obrigadas a fugir nas condições mais precárias. (Ed.)


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