Coringa – herói revolucionário ou vilão fascista?
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Coringa – herói revolucionário ou vilão fascista?

Coringa é um sociopata porque vive num mundo doente de sua falta de empatia.

Gustavo Rego 13 out 2019, 19:22

Em todas as versões do personagem, Coringa é sempre um niilista. Para ele, a vida não faz sentido e estamos todos sozinhos. Daí deriva-se o seu gosto pelo caos e a sua sociopatia. Mas, nesta versão, essa não é uma característica natural ou fruto de um acidente num rio contaminado por ácido. Coringa é um sociopata porque vive num mundo doente de sua falta de empatia (exceto por um indivíduo ou outro): “sou eu ou todos estão ficando loucos esses dias?” Esse mundo é a sociedade neoliberal (o filme se passar em 1981 não é nada trivial) marcada por desigualdades, desmonte dos serviços públicos, violência e, principalmente, individualismo. Alguns consideraram o filme perigoso pois humaniza o vilão e nos faz sentir empatia por ele. Eu diria: e daí? Conhecer o contexto material em que se formam os “vilões” não os isenta de sua responsabilidade mas nos permite tratar a raiz da sua maldade – a sociedade. E sentir empatia por alguém não significa validar tudo que ela faça. Aliás, a importância da empatia é a mensagem central do filme, de acordo com os próprios criadores.

Pelo seu caráter crítico, alguns estão tachando Coringa como um filme “de esquerda”, ou, pior ainda, achando que o personagem central é um exemplo a ser seguido. Calma lá. O niilismo não é nada revolucionário. Como militante socialista, trabalho todos os dias para que as pessoas acreditem na possibilidade de construir uma sociedade mais justa. Nada menos niilista do que isso. O próprio personagem diz naquele programa de auditório que não tinha nenhuma pretensão política. Da mesma forma, o filme constata a existência da luta de classes, mas não a coloca como algo a partir do qual seria possível trazer boas transformações. Ao contrário, as massas são irracionais e violentas.

Mas de novo eu digo: e daí? Não acho que o papel da arte seja sempre dar exemplos pedagógicos e cumprir um papel “edificante”. Essa é uma visão bem moralista que vem desde a pintura dos vitrais nas igrejas católicas até a propaganda do nazismo e estalinismo. A arte serve pra nos fazer refletir, sentir alguma coisa… Na minha opinião, o niilismo é uma filosofia que não deve ser levada às últimas consequências, mas, às vezes, é importante entrar em contato com o vazio que ela desperta. Bacurau me deixou mais animado mas eu detestaria viver num mundo em que não houvesse Coringa.

O riso é um elemento central para desenvolver esse argumento da trama. Arthur Fleck, como boa parte de nós descobrimos quando começamos a fazer terapia, tem dificuldade em viver e expressar sentimentos negativos – o apelido de “Happy” que a mãe coloca nele é genial nesse sentido. Mas o niilismo de Coringa o faz pensar: será que essa minha risada é mesmo um transtorno? o que é loucura e o que é sanidade? o que é engraçado e o que é trágico, afinal? Com isso, o filme também traz a discussão sobre os limites do humor. Repara que, na cena em que Fleck vai fazer seu show, o humorista antes dele faz piadas terrivelmente misóginas que poderiam muito bem ter sido feitas pelo Danilo Gentili. O público também é levado encarar sua própria psicopatia na cena do anão, em que muitos na sala riram quando viram o pobre homem não conseguindo alcançar o trinco da porta.

Coringa é um filme perigoso? Talvez. Mas é sempre perigoso desafiar nossas convenções dessa forma. Acho que vale a pena topar o risco.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.