Declaração de Convergência Social sobre explosão social no Chile

Declaração de Convergência Social sobre explosão social no Chile

A sociedade chilena se cansou de que alguns poucos vivam às custas da maioria e que qualquer custo social caia sobre os mais pobres.

Convergência Social 24 out 2019, 15:42

A explosão social que começou no dia 18 de outubro contra o aumento das tarifas do Metrô de Santiago tem causa muito mais profundas, provocando uma mobilização social em todas as regiões do país. A sociedade chilena se cansou de que alguns poucos vivam às custas da maioria e que qualquer custo social caia sobre os mais pobres.

Esta mobilização, que não é dirigida por nenhuma força política, não pode ser aplacada pela repressão e a militarização, como tentou fazer o governo Piñera buscando um retrocesso democrático, nem tampouco mediante acordos desde a elite, repetindo a tônica dos últimos 30 anos e aprofundando a desconexão com a cidadania.

No estado de crise atual, não há diálogo possível se não se levantam os Estados de Emergência e se inicia uma desmilitarização imediata de nossas cidades. Uma garantia mínima para qualquer avanço na solução do conflito, é a restauração da normalidade democrática em nosso país.

Sebastián Piñera renunciou a governar quando anunciou o Estado de Emergência e o toque de recolher em 19 de outubro. Ao entregar o mando das principais cidades de nosso país aos militares e permitir – pela primeira vez ante motivos políticos desde o fim da ditadura – a volta destes às ruas, não somente infringiu um profundo dano a nossa estreita democracia, mas que declarou que ele e todo seu gabinete estavam incapacitados de dar resposta às demandas sentidas do povo do Chile. Esta renúncia à política aprofundou a crise social. Nenhuma autoridade setorial contribuiu para entregar certezas à população sobre o transporte, a saúde, as escolas, a segurança ou inclusive a vida; são responsáveis por levar os fatos a este ponto. Isso se traduziu em ao menos onze mortos, cujos nomes e circunstâncias de morte o Ministério do Interior não entregou.

Piñera deve assumir toda a responsabilidade política dos fatos e exigimos a renúncia imediata de todos seu comitê politico: Ministro do Interior, Andrés Chadwick, Ministra SEGEGOB, Cecilia Pérez, Ministro Segpres, Gonzalo Blumel, Ministro de Desenvolvimento Social, Sebastián Sichel, e Ministro da Fazenda, Felipe Larraín; junto com a ministra de Transportes, Gloria Hutt, além de todos os intendentes das regiões em Estado de Emergência.

A única saída possível à crise social é uma resposta clara às demandas populares, orientadas a superar a precarização da vida. Os problemas estruturais do modelo chileno devem e podem ser respondidos politicamente, orientando-se para o “bem viver”. Ancorados no diálogo e trabalho com as organizações e movimentos sociais, propomos concretizar um pacote de medidas anti-neoliberais urgentes que iniciem uma nova etapa de transformação e permitam superar a crise atual de precarização da vida. Entre estas medidas devem ser consideradas o fim das AFP, a equiparação da aposentadoria mínima ao salário mínimo, o rebaixamento da jornada laboral a 40 horas semanais, a revogação do Código de Águas, um novo Código de Trabalho que supere o Plano Laboral da Ditadura, fortalecimento da Educação Pública em todos os seus níveis, assegurando sua gratuidade e orientação não-sexista, gratuidade do transporte público e o início imediato de um processo constituinte mediante uma Assembleia Constituinte.

Fazemos o chamado à população e em especial a nossa militância a manter-se mobilizados e a evitar que a sensação de caos seja o que impere na população. Para isso é necessário apoiar-se entre os vizinhos e as organizações de base, potencializar os meios de informação comunitários e exigir que a segurança de nossos bairros seja uma prioridade por sobre a repressão da justa mobilização.

A crise política atual marca um ponto de não-retorno na história política do país e se apresenta como uma oportunidade para construir um Chile mais participativo, profundamente democrático, com direitos sociais assegurados e onde a organização popular e territorial supere o estado de atomização atual, dando lugar a um tecido social sólido e garantidor de uma sociedade mais justa e plena.

DIREÇÃO NACIONAL DE CONVERGENCIA SOCIAL

Reprodução da tradução publicada pelo Portal da Esquerda em Movimento.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.