Peru: ni calco ni copia, ejemplo!

Peru: ni calco ni copia, ejemplo!

Esquerda peruana tem apostado na possibilidade de construção do novo, sem saudosismos da velha esquerda.

Bernardo Corrêa 3 out 2019, 19:11

O Peru é um país com larga tradição revolucionária e tem um povo combativo que sempre construiu sua história com nas ruas e no combate, desde sua resistência ao invasor espanhol, até os dias de hoje.

O Peru é um país que conquistou a reforma agrária. Ela não foi um presente do General Velazco em 1978 como a história oficial tenta contar. Ela começou em 1963 com a luta dos indígenas e camponeses sob a liderança de Hugo Blanco nas terras de Convención y Lares, inclusive em armas, para defender-se dos latifundiários que assassinavam, escravizavam e chegavam a marcar com ferro quente a pele dos indígenas que consideravam sua propriedade.

As mulheres peruanas protagonizam, desde Ni Una Menos, a luta contra o patriarcado e por uma saída na qual o poder de fato que têm naquela sociedade, seja também seja um poder de direito. O Peru resiste em luta de norte a sul à proliferação da grande mineração que destrói o meio ambiente e contamina as águas para o lucro de poucos. O Peru, nas ruas, encarna uma luta importantíssima contra a corrupção que contaminou o sistema político num conluio entre as empreiteiras brasileiras e os governos peruanos, desde Fujimori, passando por Alan García, Humala, PPK e chegando agora Vizcarra. Desde que nasceu o Peru resiste. Agora a história chama novamente aquele país a dar seu exemplo, na crise em que passa América Latina, neste interregno entre a morte do velho e o nascimento do novo.

Passamos na América Latina pelo fechamento de um ciclo e abertura de outro. Um ciclo inaugurado por rebeliões contra o neoliberalismo. Do Caracazo ao Argentinazo, passando pelas insurreições no Equador e na Bolívia que marcaram a primeira década dos anos 2000. Um ciclo fechado por governos (independentes do imperialismo, sob a liderança de Chávez e social-liberais sob a liderança de Lula) que não romperam com a lógica do subdesenvolvimento com abundância de divisas e dos regimes políticos corruptos capturados pelas grandes corporações capitalistas. Neste interregno, elementos mórbidos como Bolsonaros, Piñeras e Macris emergem. Vestem os trapos do passado e seu programa mais aprofunda que resolve a crise, mas também surgem importantes movimentos sociais e políticos que podem dar um novo sentido às lutas e, a partir do balanço honesto das experiências “progressistas”, superar as traições e equívocos apontando uma superação socialista da crise que passamos. Partidos como Convergencia Social (FA) no Chile, PSOL no Brasil e Nuevo Perú são expressões políticas dessa necessidade. Puerto Rico e a insurreição que tirou o presidente mostram qual o método correto, a ação independente das massas.

O Peru foi vítima tardia das determinações gerais da onda “progressista”. Teve o nacionalismo de Humala moderado por Lula e os interesses da Odebrecht. Recebeu no pacote de obras das empreiteiras brasileiras um nível de corrupção insustentável que levou o regime político ao colapso, três ex-presidentes à prisão, um ao suicídio e a população à revolta. Mas a esquerda peruana soube romper e construir a tempo um referente por fora da conciliação de classes “progressista”. O Nuevo Perú e seus líderes como Verónika Mendoza e Tito Prado, apostaram na mobilização como forma de combater a corrupção e têm insistido na necessidade de novas eleições e uma nova constituição para o país. Venceram o primeiro round. Têm apostado na possibilidade de construção do novo, do desenvolvimento dos novos movimentos sociais e políticos, sem saudosismos da velha esquerda. O Peru faz seu caminho ni calco ni copia, como dizia Mariátegui, mais uma vez nos dá um exemplo e precisamos aprender com ele.

Artigo originalmente publicado no Portal da Esquerda em Movimento.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.