Lula livre: a necessidade da unidade contra Bolsonaro e de construir uma nova esquerda
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Lula livre: a necessidade da unidade contra Bolsonaro e de construir uma nova esquerda

Secretariado Nacional do MES/PSOL manifesta-se sobre a libertação de Lula.

Secretariado Nacional do MES 8 nov 2019, 18:00

Após a decisão do STF sobre a prisão após 2ª instância, o juiz Danilo Pereira Júnior aceitou nesta sexta-feira (8) o pedido da defesa do ex-presidente do República Luiz Inácio Lula da Silva e revogou sua prisão. A decisão do Supremo teve bases constitucionais e concluiu, nesta quinta-feira (7), a votação que avaliava a possibilidade de prender acusados após decisões judiciais em segunda instância ou apenas após o trânsito em julgado com o placar de 6 votos a 5. Tal decisão é um triunfo democrático contra manipulações políticas e pode libertar milhares de pessoas que não tiveram direito a um julgamento devido, como Lula, e também ativistas como DJ Rennan da Penha e tantos outros.

Somos uma corrente fundadora do PSOL, partido construído para seguir levantando as bandeiras de esquerda e socialistas numa luta contra o curso do governo do PT que, numa coalizão com os grandes capitalistas, implementou um projeto social-liberal no país. Essa coalizão terminou desmoronando por razões profundas que não nos cabe detalhar aqui nesta breve nota. O PSOL se postulou e se afirmou como um polo de esquerda. Saudamos, assim, a libertação de Lula.

O processo de Lula foi político. As revelações de Glenn Greenwald ilustraram como o processo foi injusto e de ocasião para tirar Lula da disputa eleitoral de 2018. Tal condição foi denunciada por nós, ainda à época de sua prisão, como base fundamental para o elemento de distorção do processo eleitoral como um todo. Num país em que temos Bolsonaro como presidente, com suas provocações e tentações autoritárias, não existem bases políticas para justificar a prisão de Lula. Embora tenhamos sido oposição intransigente à gestão de Lula na presidência do país e a seus negócios espúrios com grandes construtoras e empreiteiras.

A libertação de Lula, além da decisão constitucional do STF, obedece a uma nova situação política, na qual dois fatores se combinam: a) uma nova situação política na América Latina — a rebelião indígena do Equador, a derrota eleitoral de Macri, o levante chileno e as mudanças em curso em países como Colômbia e Peru — que influencia a conjuntura brasileira e pela qual perdem força Bolsonaro e seu projeto; b) a busca de um setor da casta política e da elite brasileira por um pacto para estabilizar a situação. Seja como medida preventiva para evitar radicalização de massas a la Chile no Brasil, seja para pegar “carona” na decisão de Toffoli, aliviando as penas de corrupção, a busca por pactos abre a hipótese de que Lula recupere seu antigo papel de agente da conciliação de classes e de setores políticos. O próprio Toffoli tem sido um articulador de tentativas de estabilizar o domínio burguês, salvando o próprio Flávio Bolsonaro das investigações e indicando ao governo que, da parte do STF, há respaldo para que tudo siga como está.

Nesse novo quadro, com Lula livre, o bolsonarismo vai se colocar como quem defende a justiça. Mas uma parte significativa do povo já não segue suas mentiras. A liberdade de Lula é um ato justo e democrático, sobretudo porque quem mais queria sua prisão é um governo criminoso. Contra Bolsonaro, estaremos sempre com Lula quando o governo quiser perseguí-lo por seu papel de líder de massas de oposição ao autoritarismo do projeto da extrema-direita. Nesse sentido sua liberdade é uma vitoria de todos nós. Bolsonaro é nosso inimigo comum. Nesse sentido, vamos seguir a orientação apontada em nossos documentos: coesionar todas as forças para derrotar Bolsonaro e a extrema-direita. E a mais ampla unidade nesse caso é mais que justa, necessária, também, é claro, com Lula e os seus, no que for de interesse das lutas democráticas e sociais.

Alertamos, porém, aos ativistas: a estratégia de Lula de cooperação com bancos, empreiteiras e grandes capitalistas foi uma orientação que desarmou a classe trabalhadora, organizando uma derrota que não foi de proporções históricas, porque estamos de pé e lutando, mas foi uma derrota que levou uma parte grande do povo a uma confusão tão grande que resultou numa tragédia como foi governo Bolsonaro. Agora, para superar essa tragédia, é preciso construir uma esquerda que não tenha como estratégia a colaboração de classes.

Conhecemos a orientação de Lula; assim, vamos seguir trilhando nosso caminho como esquerda independente, marchando separados, mas buscando unidade para golpear juntos, quando tivermos acordos em oposição a Bolsonaro e à extrema-direita. Temos que fortalecer uma oposição de verdade a Bolsonaro, como tarefa imperativa.

Seguimos nas ruas para derrotar o projeto que leva o Brasil ao caos, que quer acabar com nossos direitos, nossa soberania, nossa natureza e nossa dignidade.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.