O fracasso histórico do capital
"Red Square" 1915, Kazimir Malevich

O fracasso histórico do capital

Os sinais do fracasso e ruína do neoliberalismo encontram-se em todas as partes.

Alejandro Nadal 18 dez 2019, 17:47

As manifestações dos últimos 12 meses no Chile, Equador, Peru, Haiti, Iraque, Hong Kong e até na França adquiriram um caráter insurrecional por suas dimensões e amplitude de suas exigências. Muitos pensariam que estes movimentos não têm um fio condutor e que todos obedecem a causas distintas. Os detonadores, em cada caso, pareceriam ser muito distintos. Mas uma anállise mais cuidadosa permite identificar várias raízes comuns, nas quais se mesclam as políticas de austeridade, uma profunda desigualdade, o domínio do capital financeiro e a concentração do poder de mercado em poucas corporações. São os traços definitórios desta etapa do capitalismo que vem sendo denominado “neoliberalismo”.

Os sinais do fracasso e ruína do neoliberalismo encontram-se em todas as partes. A crescente e intensa desigualdade é, talvez, o sinal mais poderoso. Provém de muitas causas, entre as quais se destaca a contração nos salários desde a década de 1970. O estancamento econômico no qual caiu a globalização neoliberal é outro signo de que algo está muito mal nas entranhas do capitalismo mundial. Rotular de “estagnação secular” este processo de desaceleração pode servir para acalmar as consciências e ajudá-las a afugentar os maus augúrios. Mas quando alguém pergunta pelas causas deste fenômeno, quase ninguém se atreve a pôr o dedo na ferida: a estagnação secular se deve a uma queda no investimento que, por sua vez, está ligada a uma baixa na taxa de lucro.

O setor financeiro, que nas primeiras etapas do capitalismo, lhe serviu como um aliado fiel, hoje se converteu numa máquina que impõe sua racionalidade à economia real e mantém sua rentabilidade através da especulação. A massa de liquidez que hoje ocupa seu espaço de paraísos fiscais alcança os 22 trilhões de dólares. As prioridades da política macroeconômica obedecem aos mandatos do capital financeiro, enquanto o desemprego e o sub-emprego são a cicatriz destas políticas. A deterioração dos serviços de saúde e educação na maioria dos países desenvolvidos é um fato bem documentado. Finalmente, tudo isso se acompanha de um processo destrutivo em todas as dimensões do meio ambiente. Mudança climática fora de controle, perda de biodiversidade, erosão de solos e contaminação de aquíferos são somente alguns dos aspectos mais claros desta deterioração que hoje é uma ameaça para toda a humanidade.

Como ler este processo de ruína do capitalismo? Uma possível resposta é ver neste o fracasso de uma forma particular de capitalismo, o neoliberalismo, mas não do projeto histórico colocado pelo capital. Tudo isso exige uma análise mais cuidadosa do que constitui o neoliberalismo.

Na década de 1930, os economistas ultraliberais Ludwig von Mises e Friedrich Hayek buscaram injetar nova energia à ideologia de um liberalismo que tinha sabido o que fazer com o ascenso do fascismo, que não estava resolvendo os problemas econômicos de seu tempo e que, além disso, via na teoria macroeconômica de Keynes uma ameaça. Usaram toda a superstição da ideologia do livre mercado para conseguir isso. O resultado foi um despautério que o marxista Max Adler qualificou pela primeira vez de neoliberalismo.

Tal como descrito por Von Mises e Hayek, o novo sistema era a essência do capital. Em sua mediocridade como economistas, estes autores revelaram a essência da economia política burguesa e ensinaram a essência do capital. Sua atividade panfletária sentou as bases do que depois seria a agenda neoliberal em teoria econômica e em política: privatizar tudo, desregular a vida econômica e deixar atuar as forças do mercado. Em poucas palavras, no neoliberalismo não encontramos uma excrescência do capitalismo, mas a expressão mais pura de sua essência. E desde essa perspectiva, a ruína do neoliberalismo é efetivamente o fracasso do capital.

O fracasso significa que o projeto histórico do capital se esgotou e hoje está em decadência. Nos finais do século XVIII, Hegel escrevia: “Uma época termina quando faz realidade seu próprio conceito”. Parafraseando esta ideia, poderíamos dizer que neste momento a essência da época do capital já se tornou realidade concreta em todas suas especificidades no e através do capitalismo: nas especificidades do neoliberalismo concretiza-se o projeto histórico do capital em sua versão real mais acabada. Consequentemente, com o fracasso do neoliberalismo, chegamos aos últimos momentos do capital e o término de sua época.

Mas este não é um ponto de repouso. A fase crepuscular do capital durará ainda muitos anos, mas serão anos de grandes sacudidas políticas e sociais, dado que as contradições do capital explodirão em crises prolongadas. A essência da nova época já não será o capital, mas a luta por liberdade e justiça.

Fonte: La Jornada, 4 dez. 2019.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.