A maior greve do século XXI
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A maior greve do século XXI

Celso Dalberto recolhe depoimentos de professores em greve no RS.

Celso Dalberto 11 jan 2020, 20:03

Com o lema “Ninguém solta a mão da Educação” os educadores do Rio Grande do Sul representados pelo CPERS/ sindicato deliberam em assembleia geral no dia 14 de novembro de 2019 em frente ao Palácio Piratini, com a presença de mais de 15.000 professores e agentes educacionais pela greve por tempo indeterminado, para enfrentar o pacote da morte encaminhado pelo governador Eduardo Leite PSDB. O CPERS segundo maior sindicato da América Latina é orientado pelo estatuto como sendo um dos mais democráticos. A assembleia elegeu o comando de greve com a representação de todas as forças que compõe a categoria, independentemente de ser direção ou não. Faço parte do comando estadual de greve que é composto por 30 membros. O movimento grevista surpreende a todos, não só o governo, mas as direções da greve atingindo em torno de 70% da categoria.  Esta greve é totalmente diferente das demais que participei, e foram muitas e de categorias diferentes com proporções jamais vistas no estado. Escolas, municípios, comunidades passam a assumir a greve com auto-organizações com o lema #RETIRA se referindo ao pacote de maldades. A categoria começa visitar câmara de vereadores, prefeituras e demais organizações para pedir apoio a greve, na segunda semana já atingia um número surpreendente de mais de 300 moções de apoio das câmaras de vereadores de um total de 497 dos mais variados partidos. Muitas são as ações; caminhadas luminosas, atos regionais, fechamento de rodovias, visitas ao pequeno comércio. Esta política adotada coloca em constrangimento público os partidos que administram a maior parte dos municípios gaúchos. (MDB, PP) que são base de apoio do governo. No dia 26 uma nova assembleia agora unitária com outras categorias que deliberam pela greve ultrapassando os 20.000 participantes. O governo Leite anuncia o corte do ponto com o intuito de acabar a greve, o que não surge efeito, pois estamos a 50 meses com salários parcelados, ou seja, na prática com o ponto cortado. Neste momento vimos a possibilidade de derrotar o governo com o lema #RETIRA e o apoio da sociedade ninguém solta a mão da educação. O governo Leite comprometido com a política neoliberal do Governo Federal   em sucatear o serviço público investe forte na propaganda com o apoio da imprensa e do empresariado gaúcho, mas em queda livre na sua popularidade. No dia 03/12 grande ato público em Pelotas terra do governador. Dia 05/12 ato da segurança pública sendo o maior da história da categoria, culminando com ato unitário de todo o funcionalismo estadual no dia 10/12. O pacote com previsão de votação para 17/12 com a praça totalmente lotada o governo retira a urgência de parte do pacote deixando para o final de janeiro e no dia seguinte aprova o PL 503 que entre outras consequências passa a cobrar a previdência dos aposentados. No dia 20/12 as demais categorias em greve suspendem o movimento. O CPERS em assembleia aprova a continuidade da greve, para garantir a negociação dos dias parados, proposta, defendida pelo comando e com minha intervenção na assembleia, já com número reduzido de participantes, apontando as dificuldades enfrentadas a partir deste momento.

O novo, no movimento, é o desespero de algumas lideranças, da situação e da oposição que não conseguem dirigir a greve, por que foram surpreendidas pela auto-organização da categoria, muitos depoimentos de educadores que assumem com orgulho que esta é a primeira greve e se sentiram parte da organização e do sucesso do movimento. A direção do CPERS acertou na política, visitou escolas e municípios no período que antecedeu a entrada do pacote na assembleia legislativa, a categoria compreendeu a gravidade e os efeitos diretos do ataque que significa a aprovação do pacote. Setores da oposição nos incluindo defendíamos a mesma política apenas com métodos democráticos diferentes. O MLS, DL e Combate defendiam a deflagração da greve no momento que foi anunciado o pacote. Entendemos e defendemos o início da greve no momento do protocolo e acreditamos que o sucesso do movimento foi o conhecimento real da proposta do governo. 

Depoimentos de grevistas

A GREVE do magistério foi um marco importante da resistência contra o desmonte da escola pública no RS.  A mesma conseguiu derrotar a narrativa do governo na opinião pública. Dois fatos considerei marcante, que foram as manifestações massivas no Centro de POA (contando sempre com 15,20 mil pessoas) e a mobilização de minha escola Almirante BACELAR de POA que chegou estar 100% em greve, e participava das manifestações sempre com grande número de Professores e Funcionários.

Ronald De Souza- Vice-Diretor

A greve do magistério se desencadeou depois de ver nosso plano de carreira, que por anos nos segurou, indo por água abaixo. Infelizmente, muitos professores não tiveram esta visão e continuaram desenvolvendo suas funções nas escolas, mas a maioria lutou unida, barrando o ataque do governo. A greve foi muito boa, nosso objetivo foi alcançado, porém sofremos com o desconto dos salários. Mas isto não nos desanimou, pelo contrário, mostramos força para continuarmos até o fim nesta batalha. Não podemos perder o pouco que ainda temos, precisamos nos unir para conquistarmos novamente tudo o que nos foi tirado.

Jardel Pedon. Professor de Séries Iniciais

Estamos sendo “bombardeados” com os ataques de governos autoritários e capitalistas que querem acabar com a saúde, segurança e a educação pública. Aos poucos e em nome da mudança deixam os ricos mais dominantes e os trabalhadores mais submissos e endividados. A greve dos servidores públicos do RS trouxe um aspecto de pertencimento, houve um grande despertar da categoria, tornaram-se sujeitos de luta. Vários atos foram realizados demonstrando união em torno de um objetivo, a Retirada do pacote do governo, isso dito em alto e bom tom ecoou na sociedade. Passamos a ser vistos e ouvidos. Chegamos a todos os lares. Os projetos do governador passaram a ser conhecido por todas as classes sociais. Muitos que eram contra nossa greve, hoje se solidarizam com nosso clamor. RETIRA.

Laura Maria Severo, Professora das séries iniciais.

Fiquei impressionada em Porto Alegre, todos lutando por objetivos comuns, não importando a cidade, escola, ano, nível. Mas quando tu chegas no ambiente de sua origem, aquela união, o respeito some, me parece que a greve tem dois aspectos um de união, outro de falta de afinidade. Quando estamos juntos nos atos públicos, caminhadas e assembleia pensamos no coletivo. Fiquei triste que agora depois dessa aprovação desse corte do ponto muitos colegas ficam   falando mal do sindicato. Acho que não é por aí? “Mas com certeza a greve faz a gente se sentir vivo”. Esta é minha primeira Greve.

Alexandra Andrade da Ronch. Professora de História

O governo já vem nos pagando parcelado e atrasado há 49 meses, levando muitos professores a passarem dificuldades financeiras sérias; como se isso ainda não bastasse, nos últimos meses apresenta um pacote desumano, atacando o nosso plano de carreira e acabando com conquistas históricas provenientes de muitas lutas. O governo quer que os servidores paguem a conta do estado. Em contrapartida o governo beneficia grandes empresários com benefícios fiscais. Diante desta conjuntura, foi e é fundamental, não podemos permitir que desrespeitem os professores desta maneira. E nos últimos dias o governo apresentou uma proposta de recuperação de aulas totalmente ilegal e imoral. A greve é forte, a população está ao nosso lado, vejo este ponto fundamental nesta mobilização. Quando saímos as ruas em caminhada ganhamos muito apoio. Um fato que achei interessante: estávamos fazendo um bandeiraço em Pelotas e um senhor foi até uma floricultura comprou botões de rosa e distribuiu para as professoras em apoio a nossa luta.

Magda Beatriz Brito Alves- Professora de Geografia

No movimento de greve do ano de 2019, observei a mobilização de diferentes categorias, o que mais chamou minha atenção foi a participação dos aposentados, pessoas as quais por direito mínimo deveriam estar tranquilas em relação ao recebimento de sua aposentadoria, uma vez que trabalharam e contribuíram durante boa parte de suas vidas. Em meio à multidão o branco dos cabelos, bengalas e rostos marcados pela caminhada, tão injusto tamanha insegurança e incerteza, pois já não podem recomeçar, agora precisam descansar, e cuidar da saúde, ao invés de serem protegidos pelo Estado, são retirados direitos e garantias previstos constitucionalmente. Fica o questionamento, como sobreviver em um sistema em que os salários não acompanham o custo elevado de vida, alimentação, medicação, vestuário, moradia e entre outras necessidades?

 Ana Paula Pedroso. Professora Biologia

Magistério reacende a chama da luta. Independente de todos os entraves e desafios enfrentados, a categoria chega ao final de 2019 com um saldo positivo. O embate foi desleal e muitas vezes cruel. Leite utilizou-se de subterfúgios sórdidos para tentar aprovar seu pacote de destruição. STF, empresários e base aliada o apoiaram descaradamente. Colocaram em xeque nossas maiores conquistas. Desconsideraram nossa unidade e organização. O que eles não contavam era com nossa brava resistência e com a proporção gigantesca que nossas mobilizações tomaram. Governador “quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro”

Claudia Veloso Galina. Professora de Língua Portuguesa

Esta greve, entre tantas que participei, nos meus 29 anos de magistério, foi marco importante na retomada dos nossos direitos. Ao conseguir me aposentar em abril de 2019, me deparo, diante deste pacote da morte, do governo Leite, entre outras maldades, de acordo com a reforma de Bolsonaro, nós aposentados retornamos a pagar a previdência. Penso que muitas vezes, quando fiz greve praticamente sozinha na minha escola, infelizmente não conseguimos atingir a adesão da categoria como ocorreu nesta greve. Acredito que houve uma compreensão maior por parte da mesma, e o que temíamos aconteceu, nosso plano de carreira vem sendo terrivelmente atacado, ver a categoria nesta situação, causa muita revolta, mas a luta continua e mostramos a este governo quem somos e a que viemos.

Marcia da Silva Bairros- Professora de Língua Portuguesa


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.