As ideias fora do lugar ou seria ao vencedor as batatas?
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As ideias fora do lugar ou seria ao vencedor as batatas?

Incoerente como os liberais oitocentistas, parte do PSOL é incapaz de se mobilizar contra Bolsonaro.

Ítalo Pires Aguiar 31 mar 2020, 14:05

“As idéias fora do lugar” é um dos ensaios mais festejados das ciências sociais brasileira. Nesse pequeno grande texto, Roberto Schwarz trabalha a incoerência entre os ideais liberais que animavam as elites políticas brasileiras oitocentistas e sua incapacidade de mobilização real contra o sistema escravocrata então em vigor. Algo parecido se passa no interior do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) nesse momento, que acumula todas suas energias no debate sobre o acerto/erro do pedido de impedimento protocolado por parte da sua bancada de deputados federais ao invés de concentrar seus esforços na mobilização popular contra Bolsonaro e seu programa ultraliberal.

O PSOL nasceu a partir de uma ruptura com o Partido dos Trabalhadores (PT) e, portanto, como crítico ao jogo institucional do poder que fez o PT se aliar com o que há de mais nefasto da velha política, cooptar e desmobilizar os principais instrumentos da sociedade civil e até mesmo aprovar uma reforma da previdência contra os trabalhadores. Portanto, debutou como representante de uma nova esquerda, a esquerda que continua acumulando, organizando e testando as táticas de enfrentamento dos trabalhadores em busca de uma sociedade radicalmente diferente da que temos hoje, mas que tem como princípio não fazer da ocupação da institucionalidade um fim em si mesmo, mas parte do processo de luta.

Nos últimos anos, marcados por rupturas institucionais, politização dos tribunais e, principalmente, pelo avanço acelerado da plataforma ultraliberal sobre o estado, o PSOL tem sido testado permanentemente em suas pretensões. Erros e acertos foram cometidos, mas é perfeitamente crível afirmar que o PSOL esteve sempre na linha de frente da defesa e da mobilização da classe trabalhadora. Atualmente, vivemos um momento ímpar da conjuntura nacional e, novamente, precisamos ter maturidade politica para encontrar a melhor política. Um debate infantil sobre o pedido de impedimento não pode ser a expressão pública do partido.

Pela primeira vez a hegemonia da política ultraliberal, hoje capitaneada por Bolsonaro, é colocada em xeque por uma movimentação espontânea da população. A incapacidade do presidente em dar respostas efetivas à chegada da pandemia da COVIDD-19 fez parte significativa de seus eleitores ou mesmo dos ditos indiferentes à política se mobilizarem contra Bolsonaro. Os panelaços diários são a expressão mais viva desse movimento. Foi exatamente nesse contexto que os deputados federais, acompanhados de dezenas de militantes, artistas e intelectuais, Sâmia Bomfim, David Miranda e Fernanda Melchionna apresentaram um pedido de impedimento ao Congresso.

Desde então o PSOL paralisou a maior parte de suas energias para debater o acerto/erro dessa movimentação, ignorando a janela de oportunidade aberta com o avanço do descontentamento da população com a postura do presidente diante da pandemia. Poderia não ser, mas a movimentação dos parlamentares foi correta, a adesão de quase um milhão de pessoas atesta isso. Precisamos urgentemente unificar o partido no entrono da consigna do impedimento, a manutenção de Bolsonaro significa o avanço de uma política genocida da classe trabalhadora, vide o proposto pelo planalto nas MPs 927 e 928 e a insistente verbalização negacionista do presidente sobre a pandemia.

Não podemos negar os fatos em nome da vaidade, o debate sobre o pedido de impedimento foi superado pela conjuntura. Por outro lado, caminhamos a passos largos para um massacre da classe trabalhadora, apesar de avanços legislativos, nenhuma medida real de adesão em massa ao isolamento domiciliar, de garantia de renda digna, de manutenção de postos de trabalho e de ampliação de leitos foi efetivamente tomada pelo governo federal, ente da república com mais recursos. Se insistirmos nesse debate nesse debate fora do lugar, não teremos vitoriosos ou derrotados, ou melhor, como nos alerta o título do livro de Schwarz onde o ensaio “As idéias fora do lugar” foi publicado, ao vencedor as batatas!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.