Manolis Glezos – Perdemos um de nós
Orestis Panagiotou/EPA

Manolis Glezos – Perdemos um de nós

Morreu hoje aos 98 anos o ex-deputado grego e guerrilheiro partisan Manolis Glezos.

Valério Paiva 30 mar 2020, 21:22

Morreu hoje aos 98 anos o ex-deputado grego e guerrilheiro partisan Manolis Glezos.

Sua trajetória militante começa já como herói nacional da Grécia aos 18 anos de idade, quando em 30 de maio de 1941, junto com seu colega Apostolos Santas, rouba a bandeira da Nazista hasteada na Acrópole de Atenas durante a invasão alemã na II Guerra Mundial. Manolis Glezos e Apostolos Santas foram condenados à morte pelas forças invasoras, sendo preso e torturado e tempos depois. Conseguindo escapar, acabam aderindo às ações da dos grupos Resistência Grega. O episódio do roubo da derrubada da suástica foi fundamental para a organização da Resistência, e levou anos depois Manolis a ser chamado pelo general francês Charles de Gaulle como “o primeiro partisan da Europa”.

Após o fim da guerra atuou o jornal Rizospastis, do Partido Comunista Grego (KKE), até sua proibição em 1947. A luta contra a monarquia p levou a ser preso e foi condenado à morte novamente em 1948, desta vez pelo próprio governo grego. Por causa da sua popularidade, com medo de uma rebelião e com uma campanha internacional, o governo trocou o seu fuzilamento por prisão perpétua em 1950 e mesmo assim foi eleito deputado no ano seguinte. Foi libertado por pressão em 1954.

Manolis Glezos e outros membros do KKE foram presos em 1958 acusados de serem espiões soviéticos, sendo condenado novamente à prisão perpétua por uma tribunal militar. Libertado em 1962, foi preso novamente durante o golpe militar de 1967, sendo libertado apenas em 1971.

Após o estabelecimento da democracia, e já rompido com o KKE, Manolis Glezos continuou ativo na politica grega nos anos seguintes. Em 1981 foi eleito deputado do parlamento grego pela Esquerda Democrática Unida, onde cumpriu mandato até 1987, e em 1984 entrou para o Parlamento Europeu.

Durante o ataque da Otan à Iugoslávia em 1999, Manolis Glezos fez parte da delegação de cinco ônibus de torcedores do time AEK de Atenas, que viajou até Belgrado para uma partida amistosa de futebol contra o Partizan durante os bombardeios liderados pelos Estados Unidos. O jogo nunca terminou, pois no início do segundo tempo a delegação grega e os torcedores iugoslavos ocuparam o campo para abraçar os atletas e estenderam faixas contra a guerra.

Ao longo dos anos 2000 Manolis Glezos continuou atuando em pequenas organizações que atuavam em torno do Syriza, então uma aliança eleitoral até se transformar em partido. Durante a implantação das políticas de austeridade à mando da Troika, Manolis participou ativamente nas manifestações, sendo agredido diversas vezes e preso aos 88 anos de idade.

Com a ascensão eleitoral do Syriza, Manolis Glezos volta a atuar nacionalmente, sendo eleito novamente deputado em 2012 e eurodeputado em 2015, ano da vitória eleitoral do primeiro-ministro Alexis Tsipras. Quando o governo do Syryza decide continuar com as políticas de austeridade, Manolis faz parte do grupo de militantes e parlamentares que rompem com o partido, indo para a oposição e ajudando a fundar o novo Unidade Popular.

Manolis Glezos passou 11 anos e 4 meses de prisão, 4 anos e seis meses de exílio, recebeu duas penas de morte, duas prisões perpétuas, lutou contra a invasão nazista, ajudou a derrubar a monarquia, esteve numa guerra civil, resistiu a uma ditadura militar e das políticas de austeridade impostas pela Troika.

Manolis Glezos não é apenas um símbolo do povo grego. Ele é um dos nossos.

Presente, e sempre!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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