O PSOL e o impeachment de Bolsonaro
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O PSOL e o impeachment de Bolsonaro

O pedido de impeachment apresentado por parlamentares, artistas e intelectuais já é apoiado por centenas de milhares de brasileiros.

Pedro Serrano 19 mar 2020, 19:07

Nesta quarta-feira (18), minutos antes de milhões de brasileiros irem às janelas de suas casas gritar por “Fora Bolsonaro”, um expressivo grupo de artistas, movimentos e intelectuais, encabeçados por parlamentares do PSOL, protocolou no Congresso Nacional um pedido de impeachment de Jair Bolsonaro. Em poucas horas, a petição pela saída do presidente já soma quase 200 mil assinaturas e segue crescendo.

O protocolo do impeachment foi uma iniciativa audaciosa, como exige o tempo presente.

Há meses já havia incontáveis motivos para se pedir o impedimento do presidente. Mas, nos últimos dias, ele passou de qualquer limite. Bolsonaro desdenha da ciência, dá maus exemplos individuais e sobrepõe a defesa do mercado à defesa da saúde e da vida das pessoas. Foi emblemática a cena do presidente no último domingo (15), quando ainda tinha suspeita de ter contraído COVID-19, desobedecendo recomendações médicas, abraçando e beijando pessoas aglomeradas em uma manifestação golpista.

E a irresponsabilidade criminosa não se detém aí. Na contramão do esforço de cientistas e profissionais da saúde, que se desdobram em defesa do SUS e no atendimento à população, Bolsonaro minimiza o tamanho da crise e obstrui o necessário investimento estatal na saúde pública, em medidas de seguridade, proteção ao emprego, aos trabalhadores informais, aos micro e pequenos empresários. Graças ao seu governo, também a garantia do distanciamento social é dificultada, pois a muitos trabalhadores não é dado o direito de ficar em casa. O neoliberalismo autoritário do presidente e de seu ministro da economia são criminosos e põem em risco a vida de milhões, sobretudo as massas trabalhadoras mais oprimidas e precarizadas, que já não contam com acesso à saúde de qualidade e a condições decentes de moradia e saneamento.

Numa metáfora, podemos dizer que se os brasileiros estivessem em um voo de avião, estaríamos no nível máximo de turbulência e o piloto, um maníaco, além de negar a realidade trabalharia para facilitar a queda da aeronave. Obviamente, é urgente expurgar esse comandante criminoso e garantir, pela mobilização social, as medidas emergenciais de salvamento e sobrevivência. Foi esse o sentimento expresso no panelaço de ontem e que, contraditoriamente com as gigantescas dificuldades do período, cresce no seio da população, que faz sua experiência e percebe dia a dia o caráter de Bolsonaro e de seu clã.

Nesse momento, um partido como o PSOL não tem direito de vacilar. Numa crise, quando uma oportunidade se apresenta, se ela não for aproveitada pelo partido, logo a brecha pode se fechar. E fato é que a palavra de ordem pelo Fora Bolsonaro já se apresenta de forma espontânea na própria sociedade, sendo útil e necessário que o PSOL se constitua como um polo político que estimule essa mobilização. A compreensão de que não estamos num momento político igual ao de meses atrás, ou mesmo ao de uma semana atrás, é fundamental para colocar o partido, na medida do possível, na vanguarda dos acontecimentos, e não nos bastidores ao lado daqueles que repetem fórmulas ou, pior ainda, somente esperam os desfechos e as negociações, de olho no ciclo eleitoral de 2022. Tal postura equivaleria a um suicídio político coletivo.

A política dos socialistas, nesse momento, deve ser hierarquizada pelo combate à brutal crise no Brasil, afirmando que apenas saídas coletivas podem nos levar à vitória. E temos visto uma politização crescente do povo, um questionamento superior ao governo e uma disposição à mobilização, mesmo com as restrições em curso, expressa nos panelaços, nas iniciativas de ligação em rede e construção de solidariedade.

É apoiado nesse cenário dinâmico que se dá o espaço para que o PSOL encabece a campanha pela saída do presidente, conquista sem a qual as demais se tornam improváveis. Obviamente, não se trata de encarar o impeachment como uma ferramenta pronta ou confiar na correlação de forças interna ao parlamento burguês, mas sim de se apresentar para a luta política, dialogar com a classe trabalhadora e com o povo e estimular o empoderamento desses setores como saída para a crise. Nenhuma saída ou correlação de forças favorável serão construídas por fora desse caminho.

Não causa surpresa que surjam diferenças internas em torno do tema. O PSOL é um partido dinâmico e plural e, como toda experiência de partido socialista em momentos de crise nacionais e internacionais, linhas distintas se confrontam e se testam na realidade. O protocolo do impeachment mostra-se útil e correto para desenvolver as linhas mais dinâmicas da conjuntura e afirmar uma iniciativa política não vacilante. Aqueles que disso discordam, bem mais do que emitir notas confusas ou diversionistas, devem igualmente testar na prática suas caracterizações. Aferindo a adesão na realidade, o partido deve se unificar e golpear em conjunto os inimigos principais, que são suficientemente grandes e perigosos atualmente.

De nossa parte, confiamos que Fernanda Melchionna, Sâmia Bomfim, David Miranda, Luciana Genro, Silvio de Almeida, Gregório Duvivier, Zélia Duncan, Vladimir Safatle, Pablo Ortellado, Débora Diniz, Rosana Pinheiro Machado, Edgard Scandurra e dezenas de outros parlamentares, artistas e intelectuais acertaram categoricamente em, ontem, expressar a indignação que estava entalada na garganta (e expressa nas panelas) de milhões de brasileiros em um país à beira do colapso. Uma iniciativa política dessa envergadura se soma e apenas fortalece o plano emergencial de enfrentamento à crise sanitária, social e econômica já apresentado, em unidade, pela nossa bancada federal.

Demos um passo. Ele está longe de ser suficiente, mas, evidentemente, é melhor do que ficar parado. A dimensão política está atravessando radicalmente a vida de todos os brasileiros e isso crescerá nos próximos dias e meses. Novas crises, fatos, ataques e brechas se abrirão. Vocacionado pra disputar o poder, o PSOL deve mostrar sua cara.

Confiemos que o movimento de massas possa produzir as saídas demandadas pelo período histórico crítico, e coloquemos nosso partido sempre ao lado dele. Precisamos tirar Bolsonaro para salvar o Brasil, os brasileiros e suas vidas. Por isso, estamos juntos com os milhões que gritam Fora Bolsonaro, ampliaremos a mobilização por seu impeachment e pela derrota do projeto político autoritário e criminoso que ele representa.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.