“Eu me preocupei em viver, e viver meus momentos para construir um projeto diferente para o Brasil” – Entrevista com José Rainha Júnior
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“Eu me preocupei em viver, e viver meus momentos para construir um projeto diferente para o Brasil” – Entrevista com José Rainha Júnior

Entrevista com o histórico dirigente sem-terra integrou décima sexta edição da Revista Movimento.

Bernardo Corrêa 12 abr 2020, 13:41

A seguir, trazemos a nossos leitores uma entrevista com o histórico dirigente sem-terra José Rainha Júnior, o Zé Rainha, símbolo da luta pela terra nos anos 1990, que foi expulso do MST no início do governo Lula por não concordar com a política de conciliação de classes promovida pelo PT naquele momento. Hoje próximo ao PSOL, Zé Rainha dirige a Frente Nacional de Lutas (FNL), organizando acampamentos em ocupações em mais de 10 estados brasileiros.

  Falando de sua história de vida, que se confunde com a história política do país nos últimos 40 anos, Rainha dá uma lição de combatividade e coerência após anos de lutas e perseguições. Nosso companheiro Bernardo Corrêa esteve na casa do dirigente, em uma das ocupações da FNL e ouviu suas palavras sobre a história do MST, os desafios atuais da FNL e sua relação atual com o Movimento Esquerda Socialista e o PSOL.

Movimento – Muito obrigado por nos receber! Podemos começar com uma apresentação?

Zé Rainha – Meu nome é José Rainha Junior, nasci em 1960 em São Gabriel da Palha. Sou capixaba.

M – E atualmente coordenador da FNL?

ZR – Hoje também sou um dos coordenadores nacionais da Frente Nacional de Lutas – Campo e Cidade, fundada em janeiro de 2014. Atualmente, estou morando no estado de São Paulo, mas faço movimento no Brasil todo.

M – E como tu começaste a militar, Zé?

ZR – A militância veio em 1978. Eu tinha 17 anos, quando se dá início na Igreja Católica às Comunidades Eclesiais de Base (CEB). Eu tive a felicidade de conhecer o Frei Betto porque ele ficou preso, de 1969 a 1973, na ditadura e, quando ele saiu, foi morar no Morro de Santa Maria, em Vitória, no Espírito Santo, e ele deu início lá às CEBs. Eu morava no município de Linhares, vizinho de São Gabriel da Palha. Eu fazia um trabalho de jovens e, em 1975, minha família perdeu um pedaço de terra que nós tínhamos, e de proprietários nós passamos a ser meeiros.         

  Eu nunca entendi aquilo. Eu tinha aprendido a ler e escrever aos 16 anos. Eu nunca fui à escola. Eu fui catequisado na igreja: como não tinha colégio perto, eles ensinavam a gente a ler e escrever, ensinavam o catecismo. Em 1976, eu vendo toda essa crise e, logo, vou encontrar o Frei Betto com 17 anos. Quando ele falou da reforma agrária, aquele negócio foi entrando na minha cabeça. A questão dos sindicatos, tudo aquilo, e ali se criaram os grupos de jovens, as Pastorais da Juventude, e eu vou fazer parte desse grupo na minha comunidade. Criamos uma Pastoral de Juventude no meio rural para lutar pela construção de um sindicato.

  Dali para frente, eu comecei a enfrentar uns problemas graves. O primeiro foi em casa porque meu pai era da Arena[1]. Para ele, tudo o que o João Figueiredo[2] falava estava certo. Ele era apaixonado pelos militares que ele ouvia no rádio. Já eu vinha defendendo a reforma agrária, as ideias dos sindicatos, então foi uma confusão muito grande na família. Logo em seguida, em 1978, a CPT[3] faz um encontro nacional em Goiânia para reunir sindicalistas e debater a questão da terra, e teve a primeira reunião de coordenadores nacionais jovens. Eu fui também, tinha 18 anos de idade, e nós saímos com algumas tarefas para tocar os sindicatos no meio rural.

  Para você ter uma ideia, o primeiro sindicato rural retomado na ditadura foi em Santarém, no Pará, com Avelino Ganzer. O segundo sindicato tomado pelos trabalhadores foi em Colatina, no Espírito Santo, e o terceiro foi em Linhares em 1980. Aí eu fui fazer parte da diretoria, mas eu não tinha idade para ser presidente e então eu fiquei como secretário, era muito moleque. Mas, na verdade, quem comandava aquilo ali eram os padres.

  A partir de 1979, eu vou fazer parte da campanha da Anistia, pela volta dos presos políticos. Eu acompanhei a volta do Arraes, do Brizola e de outros mais pilantras que se “autoexilaram” na época e estão por aí até hoje como o Fernando Henrique[4], o Serra[5]. Eu vi a assinatura da Anistia[6] para a libertação dos presos políticos, muitos amigos meus que passaram muito tempo na cadeia. E, nesse processo de militância, em 1978, 1979, na CPT e vinculado ao sindicato dos trabalhadores rurais, eu fui para São Paulo conhecer a grande metrópole desse país e, logo em 1980, eu conheci o ABC paulista.

  Teve uma greve de 1979, mas a greve que estoura mesmo foi por volta de março, abril de 1980. O Lula é preso, se eu não estiver enganado, entre abril e junho de 1980, foi uma grande greve. Mas quem decretou a greve mesmo foi o pessoal de São Bernardo e os petroleiros de Paulínia, comandados pelo Jacob Bittar e pelo Lula. A greve teve um caráter político e o Lula teve destaque, e ali começa um grande movimento no sindicalismo brasileiro para a construção do Partido dos Trabalhadores e para a construção de uma central sindical com os sindicatos que já existiam. Aí os sindicatos sofrem intervenção, tem toda uma história, e eu estou lá participando desse processo.

  Eu visitei o Lula na cadeia em 1980, ele não deve se lembrar disso porque eu era muito moleque, eu não era ninguém na ordem do dia, mas eu estava ali com o Frei Betto. Eu conheci os filhos dele, fui na casa dele, conheci a finada Marisa, participando do fundo de greve. E aquilo me proporcionou conhecer muitas lideranças que estão no cenário até os dias de hoje. É importante as pessoas saberem disso. Por exemplo, minha amizade com o Paulinho da Força, que tinha sido preso político e ajudou a fundar o PT em 1980, vem daí. Minha amizade com Zé Maria, do PSTU, vem daí. Assim como o Olívio Dutra, Paulo Paim, Tarso Genro, esse lá do Sul, mas, em São Paulo, o Vicentinho, o Jair Meneguelli e tantas outras figuras.

  Em 1981, em Praia Grande, é feito o 1º CONCLAT, a primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora. Era o sindicalismo que nós chamávamos de combativo, nós queríamos formar uma Central Única dos Trabalhadores. O sindicalismo tradicional vinha da antiga Central Geral dos Trabalhadores e era comandado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, controlado pelo Joaquinzão. Esse congresso [o CONCLAT], tinha mais de 5 mil delegados, eu era muito moleque e não estava entendendo nada. Aí racha o congresso, voa cadeira para todo lado, e sai de um lado o grupo da Igreja liderado pelo Lula – eu estava nesse meio – e do outro o grupo liderado pelo Joaquinzão e pelo Zé Francisco, e também os comunistas, que ainda não tinham liberdade para organizar seu partido.

  E eles ficam com a CGT e nós criamos a Pró-CUT. A Pró-CUT era, na verdade, um movimento em prol da Central Única dos Trabalhadores que vai marcar uma plenária para janeiro de 1983 para fundar a CUT. Em 28 de janeiro, em São Bernardo do Campo, no Pavilhão Vera Cruz, é fundada a Central Única dos Trabalhadores. Eu estava lá, não esqueço até hoje, eu fui parte da primeira coordenação nacional da CUT por meio do meu sindicato de trabalhadores rurais do Espírito Santo. Entre os rurais existiam duas lideranças destacadas: o Novaes, de Vitória da Conquista na Bahia, um grande sindicalista, e o Avelino Ganzer, que está vivo até hoje – um ficou como vice-presidente e outro como secretário-geral da CUT. E tinham os povos da floresta: ali eu fiz amizade com a Marina Silva, com o finado Chico Mendes, tudo nesse congresso. E eu fui preservando essas amizades que eu fui construindo.

  Logo no início, dá-se a luta pela terra. Tem um conflito pela terra em 1979, é bom lembrar disso, no Rio Grande do Sul, quando vão encher uma grande barragem. O coronel Vitorino expulsa os agricultores e esses agricultores sem terras, atingidos pela barragem, vão acampar na Encruzilhada Natalino. Na verdade, o nome sem-terra vem antes do movimento, vem da expressão: “olha os sem-terra” – porque eles estavam acampados na beira da estrada, tinham perdido a terra. Aí, inteligentemente, os padres, os freis, os intelectuais, vão lá criar um movimento de luta pela terra e dá-se a ideia do MST, mas na verdade não tinha ainda essa sigla.

  Essa articulação de bispo, de padre, de leigo, de sindicalista, de trabalhadores rurais, das lideranças natas dali, o João Pedro[7] é um destaque nisso, então vão se articulando entre o sudoeste do Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. E, nesse período que a gente já está com os sindicatos na mão, já tinha fundado o PT, fundado a CUT, faz-se um encontro em 1984 em Cascavel. Eu estava lá, a gente estava lá com um grupo de uns 70, e ali se cria a ideia de fundar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Tinha mais padre, tinha mais leigo do que liderança de trabalhadores, essa é a verdade, e marcou-se um congresso então para janeiro de 1985.

  Aí já é o fim do regime militar, um grande embate no Congresso Nacional, não acontecem as “Diretas Já”. Foi um grande processo, muita luta de rua, artistas, jogadores de futebol. Então, em 1985, no Teatro Guaíba, em Curitiba, de 29 a 31 de janeiro, é fundado o MST. E eu vou fazer parte da Coordenação Nacional: eram dois por estado, e eu estou na foto, eu sou eleito para o Coordenação Nacional pelo Espírito Santo.

M – E o método das ocupações de terra? Quando começa?

ZR – Ele vai surgir aí. Porque antes não tinha esse método, e é a partir desse congresso, em uma reunião depois, que nós decidimos fazer. O movimento tinha caráter nacional, tinha 1500 delegados, e esse caráter nacional do Movimento Sem Terra permitiu fazer as primeiras ocupações coletivas em caráter nacional. Como um método, não era aquele negócio “sindicaleiro”, de negociar com uma pautazinha. Foi ousado. Nós preparamos isso em janeiro e fomos fazer a primeira ocupação de terras em nível nacional em 25 de outubro de 1985. O Rio Grande do Sul faz a Annoni, no Espírito Santo fizemos uma grande ocupação no município de São Mateus, eu estava lá coordenando essa ocupação. Não foram todos os estados, mas em Santa Catarina, no Paraná, no Espírito Santo, em Rondônia, em vários estados nos fizemos grandes ocupações.

  E foi por um método. O MST coloca esse método: para ter a terra era preciso ocupar. A CONTAG, aí você vê como funciona o sindicalismo pelego e outras organizações que não tinham movimento de luta pela terra – nós tínhamos o departamento de luta rural da CUT –, continuou com aquele negócio de negociar com o governo. Tanto é que no governo Sarney, um governo civil, a CONTAG e o Zé Francisco vão participar do governo.

  Nós apresentamos, em 1985, o primeiro plano nacional de reforma agrária. O Plínio de Arruda Sampaio, o Plinião, que ficou no PSOL muito tempo, foi quem ajudou a elaborar esse plano e a gente apresentou na época. Era ousado, propunha assentar 500 mil famílias por ano, 2 milhões de famílias em 4 anos, e o governo nunca assentou ninguém. Mas o método das ocupações ganha o Brasil e eu, em 1985, 1986, vou para o Nordeste. O movimento dá a missão de nós sairmos dos nossos estados e fazer ocupações. Aí eu vou para a Bahia. Eu rodei todos os estados do Nordeste a partir de 1986. Eu conheço todos os estados do Nordeste, saindo da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, e fui morar no Maranhão, onde fiquei um ano e meio em Imperatriz. Eu rodei o agreste o pior momento da história, que era fazer movimento no sertão.

  Primeiro se enfrentou a divergência interna na CUT rural e nos sindicatos. Em segundo, não tínhamos estrutura para fazer isso, era muito difícil. Em terceiro, você tinha o coronelismo, com esses coronéis que mandavam e desmandavam. Eu enfrentei muita dificuldade. Entre as cadeias, entre os despejos, entre as perseguições, tudo isso eu sobrevivi. E a gente construiu a grandeza desse período, que foi conseguirmos fazer um movimento nacional. Intensificamos o crescimento com as ocupações. A perseguição que eu sofri no Nordeste, nesse período eu estava no Maranhão, levei atentado e quase saio sem vida do Maranhão.

  Aí eu vim para São Paulo, em 1990, para ficar uns dias, e eu vim para o Pontal do Paranapanema em São Paulo. Para ficar uns dias, e aí de ocupação em ocupação eu estou até os dias de hoje. Nós estamos conversando em março de 2020, então nós estamos falando em 30 anos em que eu estou no estado de São Paulo construindo o movimento de luta pela terra, pela reforma agrária. O Movimento Sem Terra teve êxito forte a partir da década de 1990, a partir da crise do modelo neoliberal do governo Fernando Henrique. E o destaque no Pontal foi pelas ocupações, pela capacidade da liderança em fazer mobilização de massa, em Pernambuco dá destaque e também no Pará.

  O Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, e também em Corumbiara colocam o movimento em destaque. Tínhamos as marchas como método, fizemos grandes mobilizações, em 1997 chegamos em marcha a Brasília com uma grande mobilização em marcha. Isso foi muito importante porque colocou o movimento no cenário nacional. Esse foi o grande auge do Movimento Sem Terra, da luta pela terra, não só a nível nacional, mas na imprensa e na sociedade no mundo todo.

M – Voltando à questão das perseguições: quando foi sua primeira prisão?

ZR – Eu fui preso pela primeira vez em 1981, ia fazer 21 anos. Era no ensaio da primeira Greve Geral. Eu estava no Parque Moscoso, em Vitória, cheio de cola para colar os papeis lá, e a polícia fechou tudo e me prendeu por fazer militância. Eu fiquei uns dois dias na cadeia. Depois, somado a essa, eu fui preso 13 vezes na minha vida: a última condenação que eu estou respondendo são 26 anos de cadeia, mas hoje eu respondo a mais de 20 processos. Entre inquéritos, processos e declarações de prisão preventiva, só no Pontal, passam de 40.

  É importante colocar: tudo fruto da luta pela terra. No Pontal, eu escapei de cada uma, teve bala que me cortou pelas costas, entrou e saiu, estou vivo, mas eu sofri atentados. Em alguns momentos, eu achei que não ia conseguir viver. Eu estive de frente com a morte. Mas como eu não sabia que eu ia nascer, também não vou saber o dia em que eu vou morrer, então eu nunca me preocupei muito com isso. Eu me preocupei em viver, e viver meus momentos para construir um projeto diferente para o Brasil. A minha questão sempre foi essa: viver o máximo possível para construir um projeto político.

  Eu queria falar mais nessa parte porque é interessante. Quando surge o Movimento Sem Terra, tinha um projeto político que ia além do pedaço de terra: era construir uma organização capaz de dar respostas para a classe trabalhadora do campo e da cidade. Nós tínhamos que derrotar o capitalismo, derrotar o latifundiário, a burguesia, o capitalismo e o Estado burguês. Estava claro isso. Mas quem nasceu conosco não tinha esse projeto.

  Primeiro pela filosofia. A Teologia da Libertação, os movimentos no campo são fruto disso, e isso aí leva para onde: todos somos iguais. Então não tem luta de classes, a luta de classes foi abandonada ali. O PT também nasceu assim, sem perspectiva da construção de um projeto revolucionário socialista, não tem, porque ali era conciliação, era o reino para todos. Mas como é para todos? Não cabe sem-terra pobre na mesa de rico, não cabe o proletariado na mesa de capitalista, não tem como conciliar o capital e o trabalho. Então você tinha que construir um movimento para derrotar [o capital].

  No MST, parte dele tinha essa clareza e queria construir um projeto. Outros não, e nisso nós vamos sofrer. É importante dizer sobre esse processo histórico. Por que nós sofremos grandes derrotas hoje? Por que o PT foi derrotado? Por que nós perdemos? Porque fez conciliação de classe com a burguesia. Como você governa com a burguesia? Como você governa com o capital? Não tem jeito. E esses erros, que nós vivemos entre 2012 e 2016, foram lá de trás, não são de agora, foi quando começou.

  Eu quero colocar isso porque, no final dos anos 1990, há um debate muito forte no MST, um debate político que eu acho que o MES, o Movimento Esquerda Socialista, que é uma corrente do PSOL hoje, também enfrentou dentro do PT porque queria criar um projeto alternativo. E nós, um grupo pequeno, fomos derrotados. É importante dizer isso: eu sou um dos derrotados por esses companheiros. E eles ficaram, se renderam à maioria que ficou no movimento para conciliar com o PT para governar se Lula ganhasse a eleição. Nós fomos chamados a este projeto muitas vezes, provocados que ele daria certo, mas não dá certo.

  Quem não aderiu a esse projeto de conciliação, de governar participando do Estado burguês, este tinha que sair fora. Eu estou feliz porque eu fui expulso, os outros não são felizes porque saíram. Tiveram que sair por conta, não ficaram no projeto. Então, esse projeto do MST de construir uma alternativa socialista, de construir uma alternativa de luta revolucionária, ele se interrompe quando o governo do PT começa, quando ganha o Lula e começa a conciliação. E aí meu amigo, você vai fazer parte do Estado? Sentar na mesa da burguesia? O que ia dar?

  Saí, e quando as pessoas saem da organização – isso é o mal da esquerda brasileira – eles começam a rotular. Ou você é bandido, ou você é desviador de recursos, ou você é esquerdista, tem de tudo, e esses rótulos vão se propagando para você queimar as pessoas. Eu sei o que é isso, eu sei o que é sofrer treze anos com o PT. E o que a gente foi fazer? A gente foi resistir, construir um movimento no Pontal, um grupo chamado MST da base e fui ficando por ali, me articulando. Porque tem força política, tem acampamento.

M – Nos anos 1990, tu chegaste a ser inspirador de um personagem de novela da Globo, não foi?

  ZR – Em 1996, na novela “O Rei do Gado”, grande parte da filmagem era ali. O Regino, que era o personagem, era o Zé Rainha. Tinha a Jacira, que era a esposa dele, que era a Diolinda[8] e, no momento em que eles vão lá prender ela na novela com uma menina no colo, isso realmente aconteceu: era a Sofia [filha de Zé Rainha e Diolinda]. E ela pergunta: “O que eu vou fazer com essa criança? Vocês vão ter que levar ela presa”. Aí o delegado disse: “Eu não tenho como levar”.  “Então acha uma vizinha e deixa com ela aí”. Isso aconteceu, é real, e ela foi presa. Dessa vez eu já estava fora e consegui escapar.

  Mas a novela, seus personagens, foram baseadas nos grandes embates, nas grandes lutas do Pontal do Paranapanema. Eu não acho que… A minha liderança existe pela história. É claro que você se destaca no cenário nacional e isso incomodou muita gente.

M – Isso que eu ia perguntar. Por que depois veio o ataque, não?

  ZR – Depois veio o ataque porque muitos personagens que vieram do MST se sentiram ofendidos. Isso incomodou muita gente. O debate político se aproveita disso, quando se acirra o debate político no MST entre 1991 e 1999. Porque ali já se constrói o projeto político de que o Lula iria ganhar as eleições, e vai ganhar em 2002.

  Você pode ver que as expulsões e as saídas dos dirigentes do MST vão se dar de 2003 em diante. Eu fui expulso em 2003. Você vai perceber que a ruptura que o MES, Movimento Esquerda Socialista, que vocês vão ter com a Heloísa Helena, o Babá, a Luciana Genro, o João Fontes e outras lideranças, vão sair ali, vão ser expulsos porque não concordavam com um projeto de reforma da previdência que era para defender o capital. Esses embates vem daí, aí eles vão sair e construir a sua história. E eu vou construir a minha história no Pontal, continuando a mobilização.

  Mas a nossa história se consolidada com a criação da Frente, que eu vou costurando ela e vai começar mesmo a partir de 2012, quando a gente faz um grande movimento no Pontal, ainda com a bandeira do MST da Base, e conseguimos fazer mais de 50 ocupações em um dia e nisso nós ganhamos dimensão nacional e eu vou me encontrar com o Manuel da Conceição, com a Petra, com a Dona Conceição e tantas outras lideranças que também estão sendo expulsas do MST. É importante dizer isso, estavam sendo expulsas. E eu vou chamando outros amigos, de grupos de sindicalistas que estavam saindo de outras tendências e, em 2014, por coincidência também em janeiro, na cidade de Assis, a gente funda a FNL.

  Tinham muitas ideias, tinham vários nomes. Eu defendi Frente de Libertação Nacional, mas ficou a FNL – Frente Nacional de Luta. Então nós vamos criar uma Frente, nós não vamos criar mais um movimento. É custoso de ser entendido porque [a ideia] era chamar várias bandeiras de luta e criar uma frente que pudesse se consolidar e dar resposta ao vazio que o MST vai deixar. Porque vai ter abandono de acampamento e a luta pela terra, a mobilização da luta pela terra, perde drasticamente espaço no governo Lula: ele freia isso aí. Só para você ter uma ideia, quando o governo Lula assume em 2003, nós vamos ter no campo quase nenhuma bandeira, quase nada. Tinha o MLST surgindo, o MST e mais uns dois ou três [movimentos]. Quando termina o mandato da Dilma, nós temos mais de 200 bandeiras de movimentos.

  Esse foi o fruto do governo do PT. Dividiu os movimentos, criou os grupos, porque aí para eles era mais fácil governar, atendeu cada um com um pouquinho. O governo que menos fez pela reforma agrária na história foi esse. O que foi feito com a reforma agrária? A canetada que assinava e desapropriava o latifúndio em um dia só? Não se fez isso, não se avançou na reforma agrária. O que o governo fez foi fortalecer o grande setor de cooperativas de agricultores do Rio Grande do Sul. O ministério da reforma agrária sempre foi controlado pelo Sul e o recurso que tinha era jogado para lá. O Nordeste abandonado.

  Toda essa política de dividir, de rachar os movimentos e criar outros, levou a uma falência. Os erros do PT, as alianças com a burguesia, eu sempre digo uma coisa e gosto de repetir: o grande erro do Lula e do PT foi achar que a senzala cabia na casa grande. E não cabe, e não coube. E esses erros gravíssimos iam levar a que? Iam levar à derrota. E aí ficaram caçando culpados. Eu queria dizer, meus companheiros e companheiras, que na derrota você procura a causa porque é na causa da derrota que você acha a saída. Agora, procurar culpados é um jeito de você não fazer autocrítica.

  Então, não fizeram autocrítica e começaram a achar culpados. Todo mundo é culpado da derrota da Dilma. E o grande culpado pela derrota do PT, e a Dilma é vítima desse processo, foi a aliança. Caramba, eles se juntaram com a burguesia. Eles se juntaram com quem? Quem foram os ministros do governo Lula? Olha aí para vocês verem. No Banco Central era o Meirelles. Que serve quem hoje? Ao Doria em São Paulo. Isso é uma vergonha, colocar o Roberto Rodrigues no Ministério da Agricultura. Qual a diferença que ele tem da Teresa Cristina, que é ministra do Bolsonaro?

M – Nem vamos falar do Temer…

ZR – Nem vamos falar do Temer porque aí é a aliança mais podre, com o que tinha de mais esdrúxulo na política brasileira, de corrupção, de bandidagem, era do PMDB. Será que o PT não sabia disso? E aí faz uma aliança com do Temer com a Dilma e juntou o que tinha de mais atrasado. O Moreira Franco, o “gato angorá”, esse cara estava na aliança, o Padilha do Rio Grande do Sul, que foi ministro da Casa Civil do Temer, também estava na aliança. O Jucá, o Sarney… Meu amigo, o que você tinha de pior na política brasileira juntou com o PT! Como isso ia dar certo? Não ia dar certo, e eles sabiam que ia dar errado. E deu errado, e aí eles foram buscar os culpados.

  Parece que os culpados eram os trabalhadores, os movimentos sociais. A grande culpa dessa derrota foi a aliança com a burguesia, foi achar que eles eram donos do Estado. O Estado é um instrumento do capitalismo e só tem um jeito de governar para a população e construir uma sociedade diferente: você tem que mudar o Estado, você tem que destruir o Estado e construir outro sobre pilares da classe trabalhadora. O Estado é importante porque ele é um instrumento de classe que reprime e destrói a outra. Então, quando o Estado vir para o proletariado, ele tem que destruir o capitalismo até seu último resquício.

  Como você administra um Estado nas mãos da burguesia? Com o Judiciário que tem, com o Ministério Público deles? E o Lula acreditou nisso. E, fruto da perseguição do capital, ele [o Estado] colocou os melhores quadros do partido na cadeia, condenou como corrupto, como bandido e passou para a sociedade a questão da moral. Um velho sábio dizia: “você pode perder a liberdade, até a vida, mas a única coisa que um dirigente não pode perder é a moral”. Essa é a questão: perderam a moral e estão presos por isso. Eu não estou aqui dizendo se são culpados ou errados. Eu estou querendo dizer que o que eles fizeram foi isso: essa aliança levou a isso. Eles não fazem essa autocrítica.

  Não só não fazem como insistem no mesmo caminho de fazer aliança com a burguesia de novo para governar. Sai fora! Abandona esse caminho! Um partido precisa de classe [trabalhadora]. Não tem problema se você participa lá no parlamento, mas tem que ter clareza que aquilo ali é meio, é tático. Eles fizeram do meio o fim. Não tinha estratégia nenhuma, a única estratégia era chegar ao poder. E chegaram nos municípios, chegaram nos estados, chegaram no poder federal.

  Você sabe quando eles vão chegar outra vez? Nunca. A burguesia não vai dar essa chance mais. O que está aí é difícil eles aceitarem, mas esse governo racista, fascista, miliciano do Bolsonaro é fruto deles: o fruto foi esse por não enfrentar com política, com uma aliança com a esquerda. Por que terminou no governo Temer? Eles deram o golpe, juntaram lá e eles deram o golpe neles mesmos. O culpado do golpe foi quem? Os culpados foram eles [o PT], que juntaram com eles [a burguesia]. A burguesia deu o golpe neles, e dentro dela a burguesia tem as suas diferenças. O capital imperialista é uma coisa, tem os reacionários, as ideologias neofascistas, nazistas, não morreram, estão presentes nesse grupo bolsonarista, nesse grupo de Olavo de Carvalho. Tem um grupo americano por trás.

  E eles prevaleceram. Com um discurso moralista, religioso, fazendo-se de vítimas, colocaram-se para a sociedade brasileira e elegeram essa merda que está aí. É aí nós estamos passando esse momento difícil. Mas é preciso registrar isso. A culpa disso tudo vem do processo que não construiu um projeto político alternativa. O PT, e eu não tenho dúvida de dizer isso, está descartado como um partido para ter um projeto estratégico para nós construirmos outra coisa alternativa. O fruto de tudo isso que eu estou falando vem lá de trás.

  E, lamentavelmente, o MST é isso que vocês estão vendo aí. A CUT, que nasceu para uma coisa, virou nesse processo uma correia de transmissão para o PT. Todos os sindicalistas viraram candidatos e, no MST, é igual, as lideranças são iguais. E insistem na mesma tática. Abandonaram o projeto revolucionário da construção de um partido de novo tipo para fazer a revolução nesse país. Abandonaram esse projeto socialista, e hoje nós estamos levando a consequência disso. Por isso nós precisamos avançar.

M – Nesse cenário de Bolsonaro presidente, como você vê os desafios que tem a luta pela terra, a luta pela reforma agrária? O que está colocado como tarefa para nós hoje?

  ZR – O que está colocado como tarefa é resgatar a luta de massas. Nós precisamos ir para a rua fazer luta, não tem saída para nós. Quando nós abraçamos um projeto de defesa da democracia, impeachment, tudo isso, eu sempre falo: é como tomar uma novalgina ou uma dipirona para curar um câncer. Não vai resolver. Nós temos que ir à raiz do problema e, para isso, nós temos que retomar o movimento de rua, o movimento popular, com lutas concretas. É da luta que você extrai a ciência da teoria. Então você precisa, dizia o Lenin, da teoria revolucionária para fazer a revolução, porque a prática sem teoria fica cega e uma teoria sem a prática fica esquizofrênica, não anda.

  Então é juntar essas duas coisas. Para mim, o desafio da FNL, com o PSOL, com o MES principalmente porque é a corrente que nós estamos dentro do PSOL: ou a gente é ousado para fazer a luta e conduzir ela para conquistas e para derrotar esse governo ou nós vamos ficar da janela olhando a roda da história girar. Girou no Chile, girou no Equador, como foi na Bolívia e assim sucessivamente. As massas vão vir para a rua, pode ter certeza disso.

  O tema da violência no Brasil, o que os presidiários estão passando hoje: a repressão é muito forte e isso vai explodir. A periferia não vai aguentar mais: é muita fome, é muita miséria. Então, é preciso ter a capacidade – e a FNL tem esse desafio no campo e na cidade – de ocupar as ruas, ocupar as terras, fechar estradas, mobilizar, jogar toda a força que pudermos nas ruas. O dia em que as massas tomarem as ruas, que os morros descerem para o asfalto e não for carnaval, nesse dia a história será contada. Esse é o nosso desafio pela frente

  O segundo aspecto é não deixar que, no dia que essas massas tomem as ruas, elas fiquem sem comando. Se deixar para os social-democratas, para os reducionistas do projeto socialista, nós vamos ser derrotados de novo. E aí está a responsabilidade da frente construída hoje, da FNL com o MES, dos quadros que nós temos: temos a responsabilidade de construir o socialismo no PSOL, de construir um partido de novo tipo que possa conduzir as massas para a tomada do poder. Eu acho que essa é a questão que está colocada: ou construímos essa ferramenta ou vamos tomar outra derrota porque, mais cedo ou mais tarde, as massas virão para a rua.

  Sabe por quê? Pela necessidade. Ninguém vai aguentar essa repressão, essa violência, essa perseguição. A fome vai aumentar. Eu digo para você: tem dores que doem muito. Por exemplo, a dor da morte é dura cara, é dura como a pedra, mas a dor da fome é muito mais dura, a dor da fome é muito difícil. Essa necessidade de uma bandeira de luta por trabalho, por moradia, por terra e por liberdade. Não é possível aceitar essa perseguição contra as mulheres, contra a comunidade LGBT que está sofrendo. Não é possível aceitar o preconceito que está aí. Não é possível aceitar esse projeto que está em curso do fascismo do Bolsonaro e dos milicianos.

  Nós vamos ter que enfrentar eles na rua, não tem outra saída. Ou nós fazemos isso ou a história vai nos cobrar como covardes. E, para não ser covardes, a FNL vai ter esse desafio junto com o MES, junto com o PSOL, para construir um projeto alternativo. De luta, na formação de quadros militantes é possível derrotar eles, nós vamos derrotar eles com certeza absoluta.

M – Por último, Rainha, se tu pudesses, já com tantos anos de militância… Quantos anos são mesmo de militância?    

ZR – Eu comecei com 17 e hoje tenho 59, então são mais de 40 anos na luta.

M – Se tu pudesses dar um recado para essa novas gerações que começam a se mobilizar, para os novos movimentos que surgem, que recado tu deixarias para eles?

  ZR – O meu recado é aquele mesmo que disseram para mim nos meus 17 anos. É para você desafiar tudo que você tiver capacidade, é para você ter consciência de classe. E a consciência de classe se adquire pela necessidade e realizando ações concretas. Ou a nossa juventude desperta, participando das organizações sindicais, sociais, partidárias, para lutar, ou a gente vai ser engolido pelo capitalismo como está aí. Os meios de comunicação burgueses absorvem, a cada dia que passa, a nossa massa de juventude. A nossa juventude está sendo massacrada, sendo vendida para o tráfico nas grandes periferias, e ali é um caminho que não tem volta.

  Portanto, meu recado para a nossa juventude é: vem participar da luta, vem para o partido, vem para o movimento social, adquira consciência de classe. Nós podemos derrotar eles. E vocês, jovens da periferia, trabalhadores, operários, sofredores do dia a dia, vocês são o futuro do amanhã. Se essa juventude não se conscientizar disso, ela vai ser escrava para a vida toda. O nosso projeto para essa juventude é construir um mundo diferente, um país diferente para os que vêm depois.


[1] Aliança Renovadora Nacional, partido político de sustentação do regime militar (1964-1985).

[2] Último presidente do regime militar brasileiro, governou entre 1979 e 1985.

[3] Comissão Pastoral da Terra.

[4] Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil (1994-2002).

[5] José Serra, senador e ex-governador do estado de São Paulo.

[6] Lei da Anistia, assinada em 1979.

[7] João Pedro Stédile, dirigente do MST.

[8] Diolinda Alves, liderança da FNL.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.