Não reafirmemos que Bolsonaro é louco, isso o protege ao invés de atacá-lo
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Não reafirmemos que Bolsonaro é louco, isso o protege ao invés de atacá-lo

O termo repetido várias vezes coloca Bolsonaro como vítima e não como vilão.

Marcelo Vinicius Miranda Barros 23 abr 2020, 15:59

Na internet, li e vi vários sites dizendo que Bolsonaro é louco ou usando termos como “a loucura autoritária do Planalto”. É evidente que “louco”, nessas matérias em que li, pode ser uma forma de falar daquilo que poderemos chamar de irresponsabilidade. Não se trata de um diagnóstico psiquiátrico nem de uma análise psicológica, de fato. Mas tal termo repetido várias vezes coloca Bolsonaro como vítima e não como vilão. É esse cuidado que precisa ser posto na mesa.

Fernando Limongi, numa coluna do jornal Folha de São Paulo, expressou-se: “‘Victor Hugo era um louco que se julgava Victor Hugo’”, disse Jean Cocteau. Com pequenas adaptações, o chiste se presta para definir o atual ocupante do Palácio do Alvorada: Jair Bolsonaro é o mito inventado por um bando de malucos”.[1]

Limongi, obviamente, não estava dando um diagnóstico, mas mostrando o quanto de absurdo tem o governo de Bolsonaro. Quando Limongi se remete à Cocteau, para qualificar o atual presidente da república, ele está se voltando a uma obra do escritor Graham Robb – um autor e crítico britânico especializado em literatura francesa –, intitulada “Victor Hugo: A Biography”, publicada no Brasil pela editora Record como “Victor Hugo: Uma Biografia”. Nessa biografia de Victor Hugo, que foi um dos maiores escritores franceses do século XIX, mostra um escritor megalômano. Por isso o dizer de Jean Cocteau: “Victor Hugo era um louco que se julgava Victor Hugo”, mas não só ele traz essa afirmação, há também o próprio Graham Robb afirmando que Victor Hugo é “o mais lúcido caso de loucura na literatura”, na sua na mais densa análise da vida deste gigante da literatura, ou, desse “gigante do auto-enaltecimento”, para usarmos as palavras de Hermes Nery – autor e membro da Academia de Letras de Campos do Jordão. Para finalizar, temos ainda Baudelaire se referindo ao Victor Hugo como “um megalômano com uma inabalável crença na realidade de sua própria imagem”.

Victor Hugo (1802-1885) se julgava um messias temporal. Exigia adeptos que o cultuassem como uma divindade. Nessa perspectiva é que Hermes Nery questiona: afinal, o que Hugo tinha de tão sedutor que magnetizava a todos? O que fez com que ele fosse o número um das letras francesas? A biografia que Graham Robb dedica ao escritor tenta responder essas questões. Victor Hugo, mais do que ninguém em seu tempo, encarnou os valores da Revolução Francesa e viveu a patologia do hiper-individualismo, como fenômeno da cultura moderna, com elevada sofisticação e técnica, aceitando ser um artista das massas, “cegado pelo próprio ego”. Nisso foi genial[2]. Ele fez na literatura o que Napoleão empreendeu na política.

Bolsonaro não tem a inteligência de um Victor Hugo. Mesmo que ambos carreguem em si aberração do desejo narcísico. Hugo, apesar de ser megalômano, era um grande escritor, já Bolsonaro não é nada. E é aqui que entra a questão: se Hugo era louco ou não, não nos interfere na nossa realidade atual brasileira, mas colocar Bolsonaro como louco, seja isso como diagnóstico ou meramente um adjetivo, implica em muita coisa na nossa conjuntura de hoje. O atual presidente do Brasil não é louco, ele sabe muito bem o que faz, o que o impede de se eximir de seus atos. Só um louco não é totalmente responsável pelos seus atos, não devemos dar essa “vantagem” ao Bolsonaro. Seria mais lógico, ao juntarmos as suas atrocidades com a sua lucidez, que Bolsonaro se trata de um psicopata, não de um louco. Isso tem diferença. Segundo Trindade, Beheregaray e Cuneo,

mesmo que a psicopatia seja considerada uma patologia social (pelo sociólogo), ética (pelo filósofo), de personalidade (pelo psicólogo), educacional (pelo professor), do ponto de vista médico (psiquiátrico) ela não parece configurar uma doença no sentido clássico, sendo que atualmente há uma tendência universal de considerar os psicopatas como plenamente capazes de entender o caráter lícito ou ilícito dos atos que pratica e de dirigir suas ações (TRINDADE; BEHEREGARAY; CUNEO, 2009).

Os psicopatas, então, são capazes de entender o caráter lícito ou ilícito dos atos que pratica e de dirigir suas ações. Bolsonaro deve ser responsável pelo que faz. A psicopatia não se caracteriza como uma loucura, como é o caso das psicoses, mas sim um desvio de caráter e de moral em que o psicopata não tende a se redimir de forma sincera, porque não sente culpa ou remorso. O psicopata, no Código Internacional de Doença (CID-10), caracteriza-se como

Transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigações sociais, falta de empatia para com os outros. Há um desvio considerável entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas. O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade. (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 1997, p.352).

Essa definição cai bem melhor ao Bolsonaro. Principalmente se observamos a atual pandemia do coronavírus, por deixar esses traços de Bolsonaro mais gritantes. Mas não só na pandemia que esses traços pareciam bem evidentes, antes mesmo disso, o comportamento dele carregava um teor de agressividade e violência. Em conversa com a colunista Ruth de Aquino, o psicanalista Joel Birman aponta tal comportamento como de um psicopata, quando Bolsonaro coloca como proposição a liberação de fuzis para civis; proposição de acabar com os radares nas estradas; proposição de não multar a falta de cadeirinha para crianças; proposição de acabar com os exames toxicológicos para motoristas de caminhão, ônibus e carretas; proposição de legalizar o garimpo predatório nas florestas e terras indígenas. Tudo isso é um atentado à vida.

Quem tem boa memória perceberá que Bolsonaro já era assim antes de ser eleito presidente. Enquanto político no Congresso, ele defendia (e ainda defende) torturador e condena as vítimas, publicamente, no próprio Congresso. Ele jamais prezou pela vida. Não é à toa nem mera força de expressão quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes disse, em 15 abril de 2020, que o presidente da República, Jair Bolsonaro, não dispõe de poderes para política de caráter genocida. “O presidente da República dispõe de poderes, inclusive para exonerar seu ministro da Saúde, mas ele não dispõe do poder para, eventualmente, exercer uma política pública de caráter genocida”, afirmou Mendes.

Contudo, essa pandemia releva mais do comportamento de Bolsonaro. Ao inventar um discurso que cria um mundo paralelo, Bolsonaro usufrui sua liberdade de ir e vir sem se valer das consequências de sua ação. Ele “refuta” a ciência em rede nacional; ignora as diretrizes nacionais e internacionais no que diz respeito à saúde, como a OMS e o próprio Ministério da Saúde; receita remédios sem domínio para isso; zomba quem se isola, chamando todos nós, a mim e a você, de “moleques”. Coloca em maior risco os pobres e vulneráveis. Como disse Birman, o presidente é uma temeridade ambulante.

Bolsonaro não é louco, é cruel, é psicopata. Ele jamais mostrou os resultados de seus exames a respeito do Covid-19, alegando que o material é do paciente e particular, o que faz com que ele fuja da ação de um homem público que honra seu cargo. Uma atitude bem pensada para um suposto louco, não? Ao negar em mostrar os seus exames, tendo uma atitude diferente de outros que estão também no cargo público, corre-se o risco sim de que Bolsonaro esteja imune ao coronavírus, pode ser que ele tenha contraído o vírus na sua versão branda, e devido a isso se sinta seguro para caminhar pelas ruas, prédios residenciais e padarias, coçando o nariz e, ao mesmo tempo, apertando as mãos de pessoas aglomeradas ao seu redor, atitudes que ele vem repetindo. Como dissemos no início desse texto, Bolsonaro não é louco, ele sabe muito bem o que faz. Para expor-se dessa forma, é porque se acha apto para tal exposição. Portanto, Bolsonaro é cruel ao estimular um comportamento que gera risco de vida para a população. É tudo muito pensado, não é nada por acaso ou um ato de “loucura”.

Como todo psicopata, Bolsonaro enxerga o outro apenas como um objeto útil para conseguir seus objetivos. Afinal, como ele mesmo disse: “vai morrer gente? Vai morrer gente […] Todos nós iremos morrer um dia”. Há nessa sua fala um desdém para com a vida humana.

E é nesse ponto que todos nós – eu, você e os demais – precisamos reagir ferozmente ao Bolsonaro. É um caso de urgência. Não há como esperar as coisas supostamente melhorarem “sozinhas”, porque elas não têm vida própria, seguem as contingências. Então, não podemos nos tornar conivente no crime de lesa-humanidade. Metaforicamente, não podemos dar um de Pilatos e dizermos “sou inocente do sangue deste homem; seja isso lá convosco”, ou seja, não devemos afirmar que não temos nada a ver com isso ou que “já fiz minha parte, pois não votei nele”.

Em síntese, o filósofo Jean-Paul Sartre disse que “escolher isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos […] Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade” (SARTRE, 1978, p. 7). Responsabilidade é escolha, pois a escolha é ao mesmo tempo afirmação do valor daquilo que se escolhe, trazendo consigo, portanto, o peso da responsabilidade. No nosso caso, no que tange ao Bolsonaro, nossa omissão enquanto escolha também mata, isso será o nosso peso de responsabilidade. Se até o não querer escolher é também uma escolha, precisamos reagir ao Bolsonaro, de alguma forma e cada um a sua maneira. Uma das nossas reações, decisões ou escolhas implicam o perigo de reafirmar nas redes sociais e em conversas que ele é louco, já que acaba que implicitamente – num efeito psicológico de massa mesmo que inconsciente – minimizando a responsabilidade que ele tem nas costas. Na esteira de Birman – independente de seu nível – trata-se de um psicopata. Não, ele não é louco. Não sejamos cúmplice desse atual presidente.


[1] Vide Jornal Folha de S. Paulo. Coronavírus evidencia que cartilha de Bolsonaro é delírio de loucos. Publicado em 4 de abril de 2020.

[2] Conferir: Hermes Rodrigues Nery. Victor Hugo, “o mais lúcido caso de loucura da literatura”. Estado de São Paulo, 21.07.2001 – Caderno 2. Republicado pela Faculdade de Letras, da UFMG. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/victorhugo/imprensa_paginas/imprensa_0407.htm.

Referências

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação Estatística internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde: CID 10. 5ª ed. São Paulo: Edusp, 1997.

SARTRE, J.-P. O existencialismo é um humanismo. In: J.-P. SARTRE, Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

TRINDADE, J.; BEHEREGARAY, A; CUNEO, M. R. Psicopatia: a máscara da justiça. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2009.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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