Fora Bolsonaro e seus capitães do mato!
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Fora Bolsonaro e seus capitães do mato!

A postura racista do Estado brasileiro se potencializa ainda mais com ascensão do governo de extrema direita de Bolsonaro.

Josemar Carvalho e Zeneide Lima 15 Maio 2020, 14:50

As marcas do racismo na sociedade brasileira estão presentes. Em todas as suas variáveis é possível enxerga-lo. A postura racista do Estado brasileiro se potencializa ainda mais com ascensão do governo de extrema direita de Bolsonaro.

O maior exemplo disso ocorreu na última quarta feira (13 de maio), data onde exatamente se completou 132 anos da abolição da escravatura. O Presidente da Fundação Palmares Sérgio Camargo, proferiu palavras contra a memória de Zumbi, o chamando de bandido e transformando princesa Isabel em heroína. Negando assim toda a história de luta do povo Negro.

Para nós, a postura de Sérgio Camargo presta um desserviço a luta pela igualdade racial no nosso país, como veremos no artigo a seguir. Começaremos analisando o contexto da abolição da escravatura, na sequencia o papel do capitão do mato a frente da Fundação Palmares, e por ultimo analisaremos o governo Bolsonaro dentro da questão racial.

O Contexto da abolição: A princesa Isabel não é heroína

A abolição brasileira foi a última entre os países independentes da América. Tardia foi um produto de resistência acumulada do povo negro durante o tempo, e de um conjunto de pactos entre as elites regionais da época, que ao longo dos anos foram negociando um saídas transicionais que envolveram a independência nacional, a unicidade do território e manutenção da monarquia como forma de poder.

A revoltas e organização pela sua liberdade sempre existiu ao longo do processo do Brasil. A revolução haitiana de 1804, sempre assustou as classes dominantes brasileiras que tinham no modelo agro-exportador-escravocrata o seu pilar. A ameaça de um insurreição preta como foi no Haiti era uma constante.

Outro aspecto relevante está relacionado a presença trabalho servil efetivo, diversos estudos apontam que menos de 10% da mão de obra do ano da abolição era escrava. Pois os processos anteriores (Lei de Terras -1850; Lei do Ventre Livre-1871; entre outras) já sinalizavam para o fim da escravidão.

A Lei Imperial nº 3353 de 13 de maio de 1888 deu “fim formal” à escravidão negra no Brasil, mas longe de representar a democracia racial. A Lei assinada pela Princesa Isabel, em data comemorativa ao nascimento de seu bisavô Dom João VI, não colocou o negro em situação de equidade social, politica e econômica no país. Era uma Lei com dois artigos apenas, sem nenhuma politica afirmativa e de reparação social.

Sérgio Camargo e nenhum outro Bolsonarista leva isto em consideração, pois não têm compromisso com a verdade, com ciência histórica e com defesa da igualdade social e racial. Servem aos senhores do capital como os capitães do mato serviam a casa grande.

Sergio Camargo se comporta como um capitão do mato …

A figura do capitão do mato está diretamente ligada ao processo de captura dos negros que fugiam das senzalas e do trabalho escravo. De acordo com documentos foi este tipo de figura instituído formalmente por volta do século XVII nas Capitanias Hereditárias do Nordeste.

Em paralelo ao feitor que organizava o trabalho interno as fazendas e minas, os capitães do mato eram figuras majoritariamente negras, cooptadas pelos brancos para “caçar” seus irmãos de cor que fugiam da opressão racial. Os capitães do mato participam de uma espécie de “milícia” especializada no combate aos quilombos e as fugas.

A luta racial tem muito que avançar em nosso país. Dados do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostram que os negros recebem 40% a menos do que os não-negros, além do piores índices de desemprego que colocam boa parte classe trabalhadora negra do país em situação de miséria e fome. O cárcere está lotado de negras e negros. O estereótipo social, construído pela mídia, pelos livros didáticos e outros aparelhos de poder colocam o negro na condição de subalterno. A violência policial, o descaso com saúde, com a educação, o transporte e moradia atingem mais diretamente o nosso povo.

Infelizmente figuras como Sérgio Camargo tem como papel o único papel confundir, ao invés de mudar o quadro de desigualdade sócio-racial de nosso país, sendo um agente muito evidente necropolítica do governo que tem como objetivo de ampliar as desigualdades através do genocídio, aumento do índice de feminicídio entre as mulheres negras, encarceramento, violência aos territórios dos quilombos e favelas. Promovendo a manutenção das estruturas racistas do Estado brasileiro.

Fora Bolsonaro! Fora Sérgio Camargo da Fundação Palmares!

O governo de Bolsonaro já tem marcas visíveis do seu caráter genocida, machista, misógino, anti-ambiental, anti-operário e racista. O excludente de ilicitude foi a prova mais cabal do que estamos abordando.

A postura de Bolsonaro na pandemia de Coronavirus revela que ele não está nem aí para vida dos trabalhadores brasileiros, em sua maioria negros e negras. Prioriza os CNPJ’s das grandes empresas, em prioridade a vida das pessoas. Tirar Bolsonaro é necessário para salvar o país do abismo.

Ao colocar Sérgio Camargo, a frente da Fundação Palmares, Bolsonaro tem como objetivo destruir o histórico da nossa luta. Sérgio Camargo é um negro militante da extrema direita brasileira. Bolsonarista aceitou o papel de ser um capataz de pensamento fascista na questão racial.

Ao assumir a Fundação Palmares no governo Bolsonaro, Sérgio Camargo tentou desconstruir as nossas conquistas e ironizou figuras importantes do nosso legado. Sobre as cotas raciais declarou que precisam acabar. Sobre a memoria de Zumbi, argumentou várias falácias sem nenhuma comprovação cientifica, chegando a afirmar que “No Brasil de hoje Zumbi seria um bandido ou defensor de bandido, integrante do MST”.   Sobre a companheira Marielle, celebrou a sua morte: É preciso que Marielle morra, só assim ela deixará de encher o saco!”.

O papel da Fundação Palmares, criada pela Lei Federal nº 7.668, de 22 de agosto de 1988, é de “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”. Diferente disso ao transformar A Princesa Isabel em Heróina e Zumbi em bandido, Sérgio Camargo presta um desserviço a luta do povo negro. Trai nossos ancestrais. Tenta ridicularizar nossa cultura e os nossos heróis.

É preciso gritar em o alto e bom tom, Fora Bolsonaro e seus capitães do mato!!!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.