SUS contra a barbárie

SUS contra a barbárie

Três problemas relacionados à saúde neste contexto de pandemia.

Paulo Spina 1 maio 2020, 15:58

Temos que agradecer a muitas pessoas que lutaram pela criação e ainda lutam pela defesa do SUS.  São usuários do sistema de saúde, trabalhadoras e trabalhadores, estudantes e diversos movimentos sociais que tem histórico nos confrontos políticos por uma saúde pública, estatal e de qualidade. Só no movimento Fórum Popular de Saúde foram ocupações pela abertura de hospitais; atos por uma saúde mental emancipadora; confrontos políticos que barraram privatização e derrubaram secretário de saúde; ações diretas como a criação do posto popular de saúde; e diversos debates trazendo a defesa dos trabalhadores e dos usuários do SUS em diversos locais do estado.

Neste contexto da pandemia de 2020, dentre os diversos problemas relacionados com a saúde, destaco três, problematizando possíveis lutas para superarmos. Não se trata apenas de problemas locais de São Paulo e do Brasil, mas também mundiais.

A forma neoliberal de organização da saúde

O neoliberalismo, com seu modelo de organização da sociedade competitivo, desigual, que responsabiliza os comportamentos individuais para problemas sociais complexos e tem o objetivo de transformar a saúde em mercadoria não ofereceu respostas efetivas para a crise sanitária da Covid 19. O que vemos com o colapso dos hospitais é que a falta de investimento em um sistema público está levando a diversas mortes que poderiam ser evitadas. A diferença de mortes entre bairros ricos e periféricos de São Paulo é inaceitável. Tal sistema neoliberal não serve para defender a vida das pessoas mais pobres.

No curto prazo penso que temos de lutar pelas campanhas Leitos para Todos e Vidas Iguais que estão defendendo que a administração pública administre todos os leitos de UTI, inclusive da iniciativa privada. Aqui em São Paulo tem projeto da bancada do PSOL sobre o assunto e penso ser fundamental esta luta para preservar vidas. E esta subordinação do sistema privado à necessidade pública não pode ser usada para destinar recursos – já escassos – para iniciativa privada. (A cidade de Osasco é um exemplo negativo que em meio a pandemia privatizou algumas UBS e prontos socorros da cidade)

A situação dramática dos trabalhadores da saúde

Os trabalhadores da saúde hoje aplaudidos não podem contentar-se com a denominação de heróis. Não deveríamos estar arriscando a nossas vidas. Se tivéssemos equipamentos adequados, suporte constante e um sistema eficiente, nós estaríamos prestando nossa missão pública de cuidado de forma segura. Nos últimos anos o que vimos acontecer com os trabalhadores da saúde? Nenhuma valorização, nenhum plano de carreira no SUS, pressão pela lógica privatista e ineficiente das organizações sociais, aumento da carga horária de trabalho com aumento de plantões extras e até a insalubridade no caso dos trabalhadores da saúde estadual estavam sendo questionadas. Agora nossas necessidades são dramáticas e urgentes. Já no dia 20 de março o Fórum Popular de Saúde soltou um documento apontando os principais problemas do curto prazo: melhores condições de atendimento para a população com mais testes e contratação de profissionais, equipamentos e condições de trabalho, definições claras de sobre questões trabalhistas, políticas específicas para os trabalhadores no grupo de risco, informações transparentes e rápidas para os trabalhadores e para a população e solidariedade do estado, das empresas e da população aos trabalhadores da saúde. 

O reconhecimento da importância destas trabalhadoras e trabalhadores no momento atual precisa ser algo permanente em nossa sociedade com investimento em pesquisa, melhores condições de trabalho e também salarial, assim como, consideração distinta das necessidades de insalubridade e aposentadoria. Desta forma mais verba para o SUS e o fim do teto de gastos com a revogação da EC95 é fundamental para o curto, médio e longo prazo. Todas as vidas importam. 

A saúde mental dos trabalhadores da saúde – situação traumática

O medo tem base real. Nossas vidas estão ameaçadas. Muitas trabalhadoras da saúde – que são a maioria – estão tendo que se isolar, sem contato com a família para tentar protegê-los. Eu mesmo tive que tomar essa dura decisão junto com a minha família. Meu pequeno fez um ano e o despreparo do governo brasileiro nos seus mais diversos níveis de gestão fez com que eu não pudesse ver meu filho dar seus primeiros passos. Mas isto nem chega a ser um problema diante dos acontecimentos. Além das mortes que poderiam ser evitadas nenhum trabalhador da saúde deveria estar numa situação de ter de escolher quem sobrevive. A crise de saúde mental já está colocada para o conjunto de toda a sociedade, mas de forma traumática para os trabalhadores da saúde.

É preciso compreender que nossos sofrimentos partem de uma recusa de se adaptar a uma situação perversa agravada pelo cenário de fascismo do governo brasileiro. Enquanto lutamos por vidas vemos essa narrativa que desincentiva o distanciamento físico. Então a luta para superação desta problemática e também das anteriores deve ser uma luta por transformarmos radicalmente a sociedade.

Aqui cabe uma autocrítica a nós trabalhadores. Por anos nos contentamos com estruturas de organização fragmentadas dos próprios trabalhadores da saúde. É sindicato de cada categoria específica. Ainda divididos por municipais, estaduais, federais e mais os particulares. Dizia que eram problemas diferenciados de cada um. 

O maior problema que a nossa geração está enfrentando demanda uma organização geral dos trabalhadores da saúde. E infelizmente isso nós não constituímos, facilitando o trabalho de diversos governos de ignorar as posições políticas dos fragmentados sindicatos existentes. Fala-se de unificação o campo na esquerda. Em geral isso quer dizer unificação eleitoral. Penso que a pandemia nos coloca o desafio de reinventarmos também os espaços políticos. É momento para irrupção de uma Rede Horizontal das Trabalhadoras e Trabalhadores da Saúde. Tal rede pode fortalecer o SUS contra a barbárie e ainda constituir uma rede transnacional para disputar uma saúde para todos global.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.