Varoufakis e a política do Syriza na encruzilhada europeia de 2015: quando a memória é seletiva

Varoufakis e a política do Syriza na encruzilhada europeia de 2015: quando a memória é seletiva

A propósito da publicação do livro Capitulação entre adultos, Grécia 2015: uma alternativa era possível, de Eric Toussaint, El viejo topo, 2020

Daniel Albarracín 23 maio 2020, 18:18

Em 2015, a Europa viveu sua primeira grande crise. Ainda que outras anteriores tenham sido produzidas, nenhuma foi como esta. Grécia, outrora considerada o berço da cultura europeia, se situou no epicentro de um terremoto político. Viu-se questionada a arquitetura econômica que suporta a União Europeia e, especialmente, sua Zona do Euro. Aqueles meses, de fevereiro a setembro, a Grécia e suas protagonistas inundavam as manchetes da imprensa. Pela primeira vez, a Troika parecia assustada, pareciam ser removidos seus cimentos, porque um país europeu levava ao governo um partido de esquerda, Syriza. Passado esse episódio foram criados mitos, sublimados mais ainda depois da claudicação e derrota do governo de Syriza.

Transitou-se do anseio à frustração. Com isso, a esperança na Europa ficou seriamente danificada. Uma série de relatos quiseram resgatar as figuras, em seu momento icônicas, de Tsipras e, especialmente, daquele insigne economista que parecia ter toureado o Minotauro: Yannis Varoufakis. A este relato contribuíram todos aqueles que queriam exaltar a razoabilidade e a política pró-UE da direção do governo, ou os que, embora os fatos falassem em outro sentido, tratavam de apresentar Varoufakis como o novo Hércules, com o objetivo de impulsioná-lo para novos desafios posteriores [1]. Livros, como o do próprio Varoufakis (2017), “Adultos na sala”, ou o filme do admirável, nesta ocasião fracassado no ângulo escolhido, Costa Gavras (2019), “Comportem-se como adultos”, que obteve o prêmio Donostia de cinema, deram uma versão elogiosa deste protagonista casual. Desde então, os mitos se encarregaram de dar lustre e brilho aos bustos dos perdedores, como se tivessem travado a batalha em boa lida. Desgraçadamente, essas narrativas renderam como vão consolo, especialmente para ocultar e deformar o ocorrido.

O livro de Eric Toussaint, plenamente envolvido com o povo grego naqueles meses, coordenando a histórica Comissão parlamentar da Verdade da Dívida Pública Grega, desde 4 de abril, impulsionada pela presidenta do Parlamento grego, Zoe Konstantopoulo, e a deputada Sofia Sakorafa, brinda uma versão algo distinta, com uma conclusão bem diferente. Longe das hagiografias e dos mitos, se baseia no realmente ocorrido, sem esconder  nada, constatando que houve várias oportunidades para aplicar uma política diferente, apesar das enormes adversidades que sofreu, e sofre, o país heleno.

Nele se detalha a errônea e confiada estratégia de Tsipras, assessorada por um pequeno grupo dirigente, sobretudo Dragasakis e Pappas, que ou eram sumamente moderados ou estavam do outro lado. Não ignora os gestos rebeldes, embora poucos, para além da retórica pública. Entretanto, não podem mais do que se qualificar de jogador de pôquer sem cartas para jogar, porque não se prepararam [2], e sempre para tratar de negociar alívios. Tsipras isolou seu partido de suas decisões chave, trabalhava à margem do governo com suas duas figuras mais próximas, governou contra o programa de Tessalônica e das decisões de seu próprio povo, como assim sucedeu depois do Referendo onde ganhou o “não” frente às condições que queria impor a Troika ao terceiro memorando por mais de 61%.

Naquela derrota do governo grego, cabe assinalar o pequeno peso da economia grega e o poder dos grandes países centro-europeus, e os portentosos instrumentos de que dispõe a Troika. Nem é preciso dizer que tudo aquilo foi muito importante. No entanto, tal e como descreve Toussaint, os recursos de que dispunha a Grécia antes de sua sequência de pagamento das dívidas em seus primeiros meses, para um reembolso total de 7 bilhões de euros entre fevereiro e janeiro, junto a uma política econômica alternativa, mais os benefícios retidos dos juros dos bônus do programa Securities Market Programme [3] que deveriam ser devolvidos a Grécia pelo BCE, possibilitavam ter reconstruído o país e afrontado a crise social. Poderia ter se construído um movimento de solidariedade internacional que não se invocou. Todas as medidas de agressão e bloqueio que pôde aplicar a Troika não foram mera ameaça, senão que se aplicaram com veemência desde o início do mandato do governo de Syriza.

A ideia de atuar com moderação no âmbito de uma negociação para não provocar males maiores não deteve a Troika, mas ao contrário mostrou a debilibade do governo grego, a falta de consistência e coerência política, e deu mais possibilidades para golpear o inimigo, que exigiu mais e mais. Até afundar a economia grega, entregar a soberania real sobre sua economia, e hipotecar às futuras gerações de trabalhadores e trabalhadoras gregas a décadas de austeridade e venda dos bens públicos.

Caberia se perguntar se algo fez bem ou se cabe regatar alguma figura desta tragédia. O livro de Toussaint não deixa de apontar os gestos ou ações de interesses, ainda quando fossem tímidos, que também se produziram. Mas Tsipras e Varoufakis fracassaram, deixa também meridianamente claro que quem pôde impulsionar uma alternativa, a Plataforma de Esquerda, não se moveu quando era necessário, deixando na mão caminhos alternativos como os que haviam proposto autores como Lapavitsas – que mereceriam uma discussão à parte. Quem ficou como um herói, Varoufakis, não o foi absolutamente, frente ao que ainda acredita a maioria. Embora se tratasse de um acadêmico inteligente, bom orador, de bom porte, mas errático em suas decisões, moderado na política e bastante presunçoso. Este somente narra um relato no qual dissimula seus erros, oculta fatos e ignora alternativas que se elevaram ao debate prático nesse momento.

O livro pormenoriza fatos, personagens e possibilidades alternativas de alguém que viveu “a história à quente”. Toussaint observa como foi  Varoufakis o responsável por impedir a aplicação do programa de Tessalônica, dissuadindo Tsipras de aplicá-lo, por considerá-lo muito radical. Foi Varoufakis quem assumiu que o Estado grego prosseguisse pagando as dívidas contraídas, até esgotar praticamente os recursos das arcas gregas, no fito de conseguir concessões na forma de pagamento da dívida. Estas nunca chegaram, entre outras coisas porque um acordo pan-europeu sobre uma medida que vai contra a natureza dos Tratados resulta uma quimera. Foi Varoufakis quem estimava que 70% das propostas da Troika eram admissíveis, e o restante somente as adaptou para fazê-las viáveis. Foi Varoufakis que teorizou que era oportuno manter em postos decisivos diretores que jogavam contra a política de mudança. Apesar disso, foi Tsipras quem convocou um referendo para 5 de julho, com o ânimo de perdê-lo, e que surpreendentemente foi ganho, para justificar a aceitação das medidas da Troika sobre a Grécia. E foi Tsipras quem disse que não se podia fazer outra coisa mais do que acatar. Varoufakis foi retirado do processo ao final, mas seu projeto permaneceu do lado da ingenuidade acadêmica e da idealização de uma gestão diferente que poderiam ter realizado as instituições europeias. Coisa que expressou com sua demissão e com o voto contra o III Memorando.

Toussaint, que segue impulsionando iniciativas, como a que desenvolveu através do projeto ReCommons Europe, com o propósito de construir um programa para mudar a Europa, descende também ao perfil das medidas alternativas, os argumentos e os momentos nos quais poderiam ser aplicados. Fundamentalmente foram dois, carregados de legitimidade: desde o começo do mandato e as primeiras medidas agressivas do BCE (que causou um curto-circuito da liquidez à banca grega desde 4 de fevereiro, ou reembolsou a Grécia 1,9 bilhões de euros de benefícios conseguidos pela capitalização de benefícios retidos por fundos gregos, ou que se levou 11 bilhões a Luxemburgo do Fundo de Capitalização Bancária que precisa haver estado disponível para a Grécia); ou o próprio momento do OXI, depois de 5 de Julho. Ambas as ocasiões foram desperdiçadas, a primeira por uma perspectiva de moderação e ingenuidade negociadora, a segunda, por uma teoria política que somente conduzia à capitulação, ou uma derrota sem batalha que se reduziu a jogada de pôquer com as cartas marcadas.

Toussaint destaca que a via teria de haver consistido – não porque ele assim o disse, mas porque constava em várias propostas e em parte do programa político do governo – numa moratória da dívida, fazer cumprir os resultados da auditoria desenvolvida, que determinaria uma recusa de pagamento da parte que fosse ilegítima ou odiosa, o emprego dos recursos disponíveis num plano de reconstrução nacional e abordar um plano contra a crise humanitária, estabelecer o controle de movimento de capitais para evitar sua fuga, e o impulso a um sistema de moeda complementar ao euro – que começaria com bilhetes de euro selados disponíveis no Banco da Grécia -, conjuntamente a uma mobilização popular e um plano de solidariedade internacional para buscar o apoio de outros povos, sem se subordinar às elites estadunidenses, chinesas ou russas – cúmplices neste caso da Troika na ação de deixar isolada a Grécia em troca de diversas regalias. Em suma, uma linha em construção de uma saída alheia, internacionalista e desobediente aos postulados do Tratado Europeu.

Artigo originalmente publicado no dia 21 de maio em Viento Sur. Tradução de Charles Rosa.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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