Educação na mira de ideologia liberalizante

Programa do partido Novo para Belo Horizonte é ideológico e privatista.

Sara Azevedo 28 out 2020, 14:44

Uma leitura apressada do programa de governo do partido Novo para a educação em BH pode facilmente nos levar a comprar, sem muita reflexão, a ideia de que a legenda defenderia uma gestão técnica e inovadora. Só que a observação cuidadosa do que está em jogo nas entrelinhas permite uma ligação imediata entre tal proposta e o que vem sendo defendido pelo governador Romeu Zema para a educação mineira. O componente ideológico salta aos olhos.

Três pontos do modelo do Novo merecem especial destaque. O primeiro diz respeito à defesa da utilização da modalidade de ensino à distância (EAD) na educação básica, sem maiores considerações sobre como enfrentar a realidade social de exclusão digital. Esse ponto deixa de lado ainda os prejuízos à formação das crianças e adolescentes em termos de socialização e vivência na diversidade. E pior: desconsidera a situação de dificuldade enfrentada por famílias cujos membros trabalham fora de casa e não têm como oferecer o suporte necessário aos alunos no ambiente doméstico durante a jornada letiva. Sustentar a adoção da tecnologia sem pensar suas implicações sociais, como se os efeitos decorrentes fossem apenas positivos, é negligenciar o contexto da escola pública brasileira e estudos científicos sobre o assunto.

Um ponto do programa que deixa claro seu caráter ideológico é a possibilidade de gestão escolar pela iniciativa privada, sendo que a presença do Estado com a prestação de serviço público em algumas comunidades já se restringe às escolas. Trata-se da introdução da lógica do lucro condicionando a efetividade de um direito fundamental basilar. E a política privatista envolve também um voucher ou “vale-escola” para subsidiar os estudos de alunos selecionados da rede pública em escolas particulares, o que é questionável do ponto de vista do tratamento isonômico a todos. Por que não investir na melhoria da escola pública, de acesso universal, ao invés de transferir recursos para a esfera privada?

Por último, mas não menos importante, o Novo defende um currículo baseado no ensino profissionalizante, com disciplinas de empreendedorismo e tecnologias ofertadas pela iniciativa privada. Não é errado se preocupar com a formação profissional dos alunos e sua inserção no mercado. Porém, junto com essas atividades, o Estado precisa garantir que aqueles alunos com um perfil mais voltado para as artes e o campo teórico das humanidades também sejam contemplados com disciplinas através das quais possam desenvolver suas habilidades, que são diversas, mas igualmente relevantes para a sociedade brasileira. Infelizmente, a primazia de um pensamento voltado exclusivamente para a lógica mercadológica acentua desigualdades. E nossos jovens precisam ter ferramentas para enfrentá-las, como uma formação em direitos humanos e fundamentais desde os primeiros anos escolares.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!