A derrota de Trump é uma vitória de toda humanidade
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A derrota de Trump é uma vitória de toda humanidade

O “Fora, Trump” tornou-se realidade finalmente: uma derrota com sabor amargo também para Bolsonaro.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 7 nov 2020, 15:45

Pouco depois das 13 horas, no horário de Brasília, do sábado 7 de novembro, a imprensa estadunidense confirmava a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump. Com a vitória anunciada na Pensilvânia e em Nevada, Biden alcança mais do que os 270 delegados necessários para impor-se no Colégio Eleitoral. O mundo inteiro festeja não tanto por sua vitória, mas pela derrota de Trump e do atraso histórico que ele representa.

Depois de uma semana tensa, com resultados controversos e com a apuração se arrastando por dias, por conta de um sistema eleitoral antidemocrático, cheio de travas e complicações, Biden venceu com uma margem muito menor do que previam as pesquisas, apesar de ter alcançado a maior votação da história do país na contagem dos votos totais. Trump, por sua vez, tem contestado os resultados e ameaça levar à Suprema Corte a definição dos resultados, estimulando a ação de grupos de choque armados nas ruas, como os que desfilaram, ao longo dos últimos dias, em frente aos locais de apuração no estado do Arizona.

As ameaças de Trump devem ser combatidas nas ruas, mas o que se verificou foram protestos pela contagem de todos os votos, com o setor mais trumpista concentrado nos interiores mais atrasados, áreas rurais e com peso demográfico maior de homens brancos. Nos setores mais dinâmicos da sociedade, nas grandes cidades e núcleos urbanos, o repúdio a Trump é amplamente majoritário nas ruas e nas urnas. Trump, ainda que queira, terá dificuldade para levar adiante sua atitude golpista.

O “Fora, Trump” tornou-se realidade, finalmente, materializando-se na vitória de Biden. Esta só foi possível porque houve a resistência das mulheres desde o primeiro dia de mandato, seguida pela ação de inúmeros movimentos sociais e de direitos humanos, além do agravamento da crise econômica pelo trato anticientífico e criminoso da pandemia (o país mantém a marca de cem mil novos casos diários) e da heroica rebelião da juventude negra contra a violência policial, iniciada em Mineápolis após o assassinato de George Floyd pela polícia.

A derrota de Trump tem sabor amargo para seu discípulo menor, o servil Jair Bolsonaro. Com seu estilo tragicômico, não escondendo sua subserviência ao imperialismo e a sua fração de extrema-direita, Bolsonaro chegou a dizer que “amava” Trump. Após as vitórias contra os golpistas e pinochetistas na Bolívia e no Chile, chegou a hora do amo de Bolsonaro dizer adeus.

Hoje é um dia de derrota para extrema-direita mundial. Neste editorial, não pretendemos escrutinar os elementos determinantes para essa nova situação, apenas celebrar e seguir acompanhando os desdobramentos políticos dos resultados eleitorais. Dedicamos o número recém-lançado da Revista Movimento para uma análise exaustiva desses cenários. Por agora, queremos afirmar o tamanho do impacto da derrota de Trump e suas inevitáveis consequências para nosso combate diário para derrotar Bolsonaro nas ruas e urnas.

O impacto mundial da derrota trumpista

A enorme repercussão da derrota trumpista percorre o planeta. Em primeiro lugar, é uma vitória da unidade democrática contra as forças da extrema-direita, do obscurantismo e do neofascismo. Perdem os déspotas que seguem a cartilha de Bannon e se acelera a experiência de massas com esses regimes mais autoritários, que não conseguiram responder à primeira etapa da crise sanitária. Trata-se de uma mudança colossal.

Em segundo lugar, esta é uma vitória do movimento negro, das mulheres, da ciência, de LGBTs, de imigrantes, como se pode notar cruzando os dados da votação do Partido Democrata. Foram eleitas, novamente, figuras como a enfermeira negra, líder do Black Lives Matter, Cori Bush, Alessandra Ocasio-Cortez e a deputada de origem palestina Rashida Tlaib. Trata-se, também, de uma vitória daqueles que não aceitam as fake news e o controle autoritário da imprensa.

É uma vitória, além disso, sobre a linha intervencionista da extrema-direita, que planejou golpes na Venezuela e na Bolívia e que dá bases para os setores mais violentos do terrorismo de direita anticastrista na Flórida e para os que reforçam a linha sionista de Netanyahu de esmagar a luta dos povos árabes e palestinos.
Há muitos motivos a comemorar, mesmo sabendo que os democratas não são alternativa e que não teremos qualquer confiança no futuro governo Joe Biden.

A polarização vai seguir

Entramos num novo estágio da crise política. A derrota de Trump animará oposições, movimentos sociais e democráticos de todo o planeta. A linha obscurantista e autoritária, expressão da crise orgânica no maior país do mundo sai menor, mas para nada está derrotada. A resiliência que Trump apresentou nas urnas é potente. Não apenas porque dá base de massas para movimentos supremacistas e racistas armados, ampliando o ódio social contra a classe trabalhadora, os negros e latinos, mas porque também expressa frustrações profundas dos estratos mais atrasados da classe trabalhadora exasperados pelo ajuste e pela crise do neoliberalismo, e galvanizados por uma pequena burguesia estreita e violenta. O mundo da finança também foi tolerante com Trump, ainda que Wall Street sempre deposite suas fichas nas duas máquinas, republicanos e democratas.

A polarização segue. Biden, em sua candidatura, apresentou-se como um líder fraco e provavelmente enfrentará um Senado hostil e uma maioria ajustada entre os deputados. O crescimento das ideias de esquerda, expressa nos programas de defesa da saúde pública, do meio ambiente e de aumento do salário mínimo, fincaram esperanças nas campanhas anteriores de Bernie Sanders e do DSA, que experimenta um crescimento exponencial. O movimento Black Lives Matter está no centro das atenções de todo o mundo. A própria votação, para ser válida, diante de uma corte suprema de maioria conservadora, precisará ser legitimada nas ruas. São as ruas que darão a última palavra

Lá e aqui: a vitória contra a extrema-direita é possível

Estamos a uma semana das eleições municipais. As pesquisas indicam que Bolsonaro e seus candidatos caem nas principais cidades. É o que indica a perda de liderança de Capitão Wagner em Fortaleza e a queda livre de Russomanno em São Paulo e de Crivella no Rio – todos, em particular os dois últimos, correndo sérios riscos de sequer ir ao segundo turno.

Há uma combinação de derrotas na América Latina, potencializadas, agora, pela derrota de Trump. Estes acontecimentos terão impacto em nosso país e estimularão o repúdio e a luta contra um Bolsonaro cada vez mais desgastado, como mostra o novo capítulo de sua estúpida cruzada contra as vidas dos brasileiros ao sabotar as possibilidades de imunização no país.

Em meio a uma crise econômica sem precedentes, engolfado pela inação, pela incompetência e pelas disputas no interior de sua imprestável camarilha ministerial, a cada semana, novas ações escandalosas marcam sua presidência desprezível: nos últimos dias, é o descaso com o povo do Amapá, sem eletricidade e desabastecido de água potável, alimentos e combustíveis.

Por tudo isso, temos agora uma dupla tarefa, que é varrer a extrema-direita e semear uma alternativa para o futuro. Imbuídos dessa responsabilidade e com o ânimo redobrado, vamos buscar ampliar o voto em nossas candidaturas em todo país para fazer Bolsonaro terminar derrotado como seu amo de Washington.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.