A Revolução de São Domingos

A resistência negra tem seu marco histórico com a Revolução de São Domingos, hoje Haiti, que serviu de exemplo e motivação para os movimentos abolicionistas em toda América.

Danilo Serafim e Estéfane Moraes 21 jan 2021, 16:22

Uma breve Introdução

O ano de 2020 viu os movimentos antirracismo ganharem ímpeto e resistirem ao racismo institucionalizado. Esse ano também será lembrado como o ano dos levantes antirracistas e anti -policiais, sob a bandeira do Black Live Matter, levando as ruas milhares de pessoas em todos os EUA e em vários países do mundo ocidental, inclusive no Brasil, a partir do assassinato de George Floyd pela polícia. 2020 será lembrado também como um ano de eventos que tiveram impacto global: a pandemia Covid-19, o início acelerado de uma crise econômica e recessão global e contínua catástrofe climática.

O preconceito, o racismo a discriminação, a homofobia, a islamofobia , em tempos de obscurantismo e do recrudescimento do neofascismo, tomaram dimensões absurdas. As lutas antirracistas que eclodiram em todos lugares do mundo é uma reação e ao mesmo tempo uma tomada de consciência face a tantas brutalidades desumanas propugnadas por grupos de supremacia branca. A resistência negra tem seu marco histórico com a Revolução de São Domingos, hoje Haiti, que serviu de exemplo e motivação para os movimentos abolicionistas em toda América. Lembrar de Toussaint L’ Overture e de seus camaradas, é manter acesa a chama do combate a escravidão, ao racismo, a segregação espacial e a libertação do povo negro.

A partir das leituras da resenha de Jacob Gorender, “ O épico e o trágico na história do Haiti” , do clássico de C.L.R. James “ Os jacobinos Negros”, do estudo de Whashington Santos Nascimento, “ São Domingos, o grande São Domingos” : representações e representações da Revolução Haitiana no Brasil escravista (1791-1840), do livro “Capital e Ideologia” de Thomas Piketty e do livro “ Crítica da Razão Negra” de Achille Mbembe, tentaremos entender e trazer à tona o épico e o trágico da Revolução de São Domingos.

Para Jacob Gorender, entre todas as numerosas insurreições insurreições de escravos, ocorridas desde a Antiguidade clássica até os tempos modernos, somente uma foi vitoriosa: a insurreição dos escravos da colônia francesa de São Domingos, iniciada em 1791, no território onde hoje se localiza a república do Haiti.

Segundo Whasington Santos Nascimento,A Revolução Haitiana nunca esteve tão perto próxima da classe senhorial escravista brasileira. Menos de um ano depois de proclamada a independência da ilha, no Rio de Janeiro soldados negros usavam medalhões com o rosto de Dessalines. Em 1814, após uma sublevação escrava em Salvador, os comerciantes denunciaram que os cativos falavam abertamente sobre o Haiti e gritavam nas ruas de Salvador; Liberdade! Viva os negros e seu Rei ! E “ morte aos brancos e mulatos” numa clara alusão à revolução haitiana.

Para Thomas Piketty em Capital e Ideologia, “ abolição da escravidão nas colônias francesas tem a particularidade de ter sido realizada em etapas. Uma primeira abolição foi decretada pela Convenção Nacional em 1794, depois da revolta de escravos de Santo Domingo ( Haiti), antes de a escravidão ser estabelecida por Napoleão em 1802. A abolição definitiva enfim foi aprovada em 1848, na queda da monarquia e o advento da Segunda Republica. Além disso , o caso francês faz lembrar este que é, sem dúvida, o primeiro fator histórico que conduziu a abolição da escravatura: não a grandeza de alma dos abolicionistas euro-americanos ou os cálculos miúdos dos proprietários, mas as revoltas empreendidas pelos próprios escravos e o medo de novas rebeliões. Seu papel essencial é evidente no caso da abolição de 1794, que foi a primeira grande abolição da história moderna, além de consequência direta do fato de os escravos haitianos já terem obtido sua libertação através das armas e estarem prestes a declarar a independência do país”.

De acordo com Piketty, quando a proporção de escravos chega a 80% ou 90%, é evidente que os riscos de revolta se tornam altíssimos, seja qual for o nível de ferocidade do aparelho repressivo vigente. O caso do Haiti foi bem extremo na medida em que o crescimento do número de escravos se dera num ritmo muito rápido e a quantidade de cativos atingira um nível nitidamente superior ao das outras ilhas. Por volta de 1700, sua população total é de cerca de 30 mil habitantes, dos quais pouco mais da metade era de escravos. No inicio dos anos 1750, o Haiti contava cerca de 120 mil escravos ( 77% da população total), 25 mil brancos ( 19%) e 5 mil mestiços e homens de cor livres (4%). No final dos anos 1780, a colônia escrava somava mais de 470 mil escravos ( ou seja, 90% da população total), 28 mil brancos (5%) e 25 mil mestiços, mulatos e homens de cor livres.

Ás vésperas de 1789, chegam cerca de 40 mil africanos todo ano em Porto Príncipe e em Cabo Francês para substituir os cativos falecidos e aumentar o estoque de escravos, que então crescia em ritmo aceleradíssimo. O sistema estava em fase de expansão acentuada quando a Revolução Francesa irrompeu. Os negros livres começaram a reivindicar o direito de voto e de participação nas assembleias já nos primórdios da Revolução, em 1789-1790. Isso parecia lógico, considerando-se os grandes discursos sobre a igualdade dos direitos feitos em Paris, mas a demanda lhes foi negada. A grande revolta dos escravos começou em agosto de 1791, após a cerimônia de BoisCaïman, na Planície do Norte, que contou com a participação de milhares de escravos “ marrons” ( isto é fugitivos) refugiados há décadas nas montanhas da ilha. Apesar dos reforços militares enviados pela França, os rebeldes logo conquistaram terreno e assumiram o controle das plantations, enquanto os fazendeiros fugiam do país. Os novos comissários enviados por Paris não tiveram outra escolha senão decretar a emancipação dos escravos em 1793, sendo tal decisão estendida a todas as colônias em fevereiro de 1794 pela Convenção Nacional que, por esse ato de abolição geral da escravidão, se destacava dos regimes anteriores ( mesmo com tal atitude sendo , na verdade, imposta pelos revoltosos). Essa decisão mal teve tempo de ser aplicada. Em 1802, os proprietários obtiveram de Napoleão o restabelecimento da escravidão em 1804. Seria preciso esperar até 1825 para que Carlos X reconhecesse a independência do Haiti e 1848 para que a abolição fosse aplicada nos demais territórios, em especial na Martinica, em Guadalupe e na Reunião.

Entre 1776 e 1825, a Europa perdeu a maior parte de suas colônias americanas devido a uma série de revoluções, movimentos de independência e rebeliões. Os afro-latinos tinham desempenhado um papel preponderante na constituição de impérios ibero-hispânicos. Haviam servido não só como mão de obra escrava, mas também enquanto tripulantes de navios, exploradores, oficiais, colonos, proprietários de terra e, em certos casos, homens livres e senhores de escravos. Quando da dissolução dos impérios e dos levantes anticoloniais ao longo do século XIX, voltamos a encontrá-los em diversos papéis, seja como soldados, seja a encabeçar movimentos políticos. Com as estruturas imperiais do mundo atlântico arruinadas e substituídas pelos Estados-Nações, as relações entre as colônias e a metrópole sofreram alterações. Uma classe de brancos crioulos se implantou e consolidou sua influência. As velhas questões de heterogeneidade, diferença e liberdade foram ressuscitadas, ao passo que as novas elites se aproveitaram da ideologia da mestiçagem para negar e desqualificar a questão racial. A contribuição dos afro-latinos e dos escravos negros para o desenvolvimento histórico da América do Sul acabou sendo, se não apagada, pelo menos severamente ocultada.

De acordo com Mbembe, em “ Crítica da Razão Negra “, a questão crucial desse ponto de vista foi o caso do Haiti, cuja declaração de independência aconteceu em 1804, apenas vinte anos após a dos Estados Unidos, assinalando uma reviravolta na história moderna da emancipação humana. No decorrer do século XVIII, o século das Luzes, a Colônia de Santo Domingo foi o exemplo da plantocracia, uma ordem social, política e econômica hierárquica encabeçada por um número relativamente reduzido de grupos brancos rivais, tendo nos estratos intermediários um grupo de homens livres de cor e mestiços e, na base, uma ampla maioria de escravos, mais da metade dos quais nascidos da África . Ao contrário dos outros movimentos de independência, a Revolução Haitiana foi o resultado de uma insurreição de escravos. A ela se deveu o surgimento, em 1805, de uma das mais radicais Constituições do Novo Mundo. Essa Constituição baniu a nobreza, restaurou a liberdade de culto e impugnou tanto o conceito de propriedade quanto o de escravidão – algo que a Revolução Americana não ousara fazer. A nova Constituição do Haiti não só aboliu a escravatura, como também autorizou o confisco de terras dos colonos franceses, decapitando pelo caminho grande parte da classe dominante; aboliu a distinção entre nascimentos legítimos e ilegítimos, e levou às últimas conseqüências as idéias, na altura revolucionárias, de igualdade racial e de liberdade universal.

A ilha fora descoberta por Colombo, já na primeira viagem à América, e ela a denominou de Hispaniola. Os nativos foram completamente exterminados no processo de colonização européia. Meio milhão de escravos negros, labutavam nas plantações e nos engenhos, era dominado por trinta mil brancos, incluindo os proprietários e seus auxiliares ( feitores, vigilantes etc.). Além de negros e brancos, havia um segmento de poucos milhares de mulatos, já livres, mas submetidos a extorsões e agressões dos brancos escravocratas. Apesar de tal desvantagem, vários mulatos “espertos e ambiciosos” conseguiram aproveitar as oportunidades de negócios e enriquecer. Nunca nas Américas a insurreição escrava foi tão vigorosa. Seja pela disseminação do medo do Haiti, com proposição de medidas coercitivas ou proposição de reformas no sistema escravista; ou mesmo pelo poder do racismo das elites dirigentes das Américas ( e da elite brasileira) que, em linhas gerais, definiram políticas internacionais que condicionaram o Haiti à marginalização e a pobreza. Segundo o professor Whashington Santos Nascimento e da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, a política iniciada por Simon Bolivar, que mesmo ajudado pelos haitianos, excluiu o Haiti dos países convidados para a Conferência do Panamá , em 1826.

A extorsão da França sobre o Haiti

No início do século XIX, o Haiti era a colônia mais produtiva das Américas e a primeira a conquistar a independência nocional em 1804. Como explicar então que não tenha tido uma trajetória progressista, mas, ao contrário, se tornasse o país mais pobre do continente, e talvez um dos mais pobres do mundo? O livro de Thomas Piketty , Capital e Ideologia, chega em boa hora. Na segunda parte de seu livro “ As Sociedades Escravocratas e Coloniais” , ele elucida uma das maiores interrogações sobre o Revolução de São Domingos, “ Haiti: quando uma propriedade escravocrata se torna uma dívida pública”, mostra como o povo haitiano foi espoliado, primeiro pela Revolução Francesa e depois já no século XX pelos Estados Unidos. Senão Vejamos:

“O caso do Haiti é emblemático não só por se tratar da primeira abolição da Era Moderna, resultante de uma revolta de escravos, e da primeira independência conquistada por uma população negra contra uma potência europeia, mas também porque esse episódio termina com uma dívida pública gigantesca, que contribuiu muito para minar o desenvolvimento do Haiti nos dois séculos seguintes. Isso porque a França só aceitou a reconhecer a independência do país em 1825 e pôr fim as ameaças de invasão da ilha pelas tropas francesas quando Carlos X obteve do governo haitiano o compromisso de pagar à França um dívida de 150 milhões de francos-ouro, a fim de indenizar os proprietários de escravos pela perda de sua propriedade. O governo de Porto Príncipe não teve escolha diante da evidente superioridade militar da França, do embargo imposto pela frota francesa até o acerto ser efetuado e do risco real de ocupação da ilha.

É importante compreender o que essa quantia de 150 milhões de franco-ouro fixada em 1825 significa. Ela foi calculada, após longas negociações, com base na rentabilidade das plantations e no valor dos escravos antes da Revolução Francesa. Tal quantia corresponde a cerca de 2% da renda nacional francesa da época, ou seja, o equivalente hoje a 40 bilhões de euros, considerando-se a mesma proporção em relação à renda nacional de 2018. Pesquisas recentes mostraram que esses 150 milhões de franco-ouro representavam mais de 300% da renda nacional do Haiti em 1825,ou seja, mais de três anos de produção. Além disso, o tratado previa um pagamento rápido da quantia inteira no prazo de cinco anos na Caisse des Dépôts et Consignations ( instituição bancária pública criada durante a Revolução Francesa e que existe até hoje), ficando a cargo do governo haitiano se refinanciar junto aos bancos privados franceses de modo a parcelar o ressarcimento ( o que também foi feito) É essencial termos a ideia bem clara da importância dos montantes em jogo. Com um refinanciamento a uma taxa de juros de 5%, típica da época, e sem contar as comissões polpudas que os banqueiros não deixaram de acrescentar ao longo das inúmeras peripécias e renegociações que marcariam as décadas seguintes, o Haiti teria que pagar indefinidamente a cada ano o equivalente a 15% de sua produção apenas para quitar os juros da dívida, sem sequer começar a pagar o valor principal.

A divida haitiana foi objeto de várias renegociações caóticas, mas, em ampla medida foi quitada. O Haiti realizou, em média, excedentes comerciais muito significativos ao longo de todo o século XIX e até o início do século XX. Após o terremoto de 1842 e o subsequente incêndio de Porto Príncipe, a França aceitou uma moratória sobre os juros de 1843 a 1849. Mas depois os pagamentos retomaram seu curso normal, e pesquisas recentes indicam que os credores franceses conseguiram extrair do país o equivalente a 5% da renda nacional haitiana ao ano, em média entre 1849 e 1915, com fortes variações conforme os períodos e a situação política do país: o excedente comercial da ilha chegou várias vezes a 10% da renda nacional, mas caiu às vezes a níveis próximos de zero, senão ligeiramente negativos, com uma média de cerca de 5% no período. Trata-se de um pagamento médio considerável para um período tão longo. No entanto, era menor que o acordo de 1825 previa, o que fez com os brancos franceses se queixassem com frequência do mau pagador.

Com o apoio do governo francês, resolveram por fim ceder o restante do financiamento aos Estados Unidos, que ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934 a fim de restabelecer a ordem e salvaguardar seus próprios interesses econômicos. A dívida de 1825 foi oficialmente extinta e quitada de forma definitiva no inicio dos anos 1950. Durante mais de um século, de 1825 a 1950, o preço que a França cobrou do Haiti em troca de sua liberdade teve como principal consequência o fato de o desenvolvimento econômico e político da ilha ter sido sobre determinado pela questão da indenização, ora denunciada com veemência, ora aceita com resignação, ao sabor de intermináveis ciclos políticos e ideológicos.

A influência da Grande Revolução Francesa de 1789

Esse episódio é fundamental porque ilustra a continuidade entre as lógicas escravocratas coloniais e proprietaristas, bem como as profundas ambiguidades da Revolução Francesa em relação às questões de desigualdade e de propriedade. “No fundo, os escravos haitianos foram os que mais levaram a sério a mensagem de emancipação revolucionária e pagaram por ela o preço máximo “.

A Revolução de 1789-1794 marcou o advento da sociedade moderna, burguesa e capitalista, na história da França. Sua característica essencial é ter realizado a unidade nacional do país sobre a base da destruição do regime senhorial e das ordens feudais privilegiadas: a Revolução, segundo Tocqueville em L’Ancien Régime et La Révolution, “cujo objeto próprio era abolir em todos os lugares o restante das instituições da Idade Média.

De acordo com C.L.R. James em “Os jacobinos negros” em 1789, a colônia francesa das Índias Ocidentais de São Domingos representava dois terços do comércio exterior da França e era o maior mercado individual para o tráfico negreiro europeu. Era parte integral da vida econômica da época, a maior colônia do mundo, o orgulho da França e a inveja de todas as outras nações imperialistas. A sua estrutura era sustentada pelo trabalho de meio milhão de escravos.

A Convenção, segundo Gorender, constituída em Paris logo após a Revolução de 1789, proclamou a libertação dos escravos nas colônias francesas. A notícia da proclamação se propagou rapidamente em São Domingos. Em 1791, inicia-se a rebelião dos escravos , que abandonaram as plantações, destroem engenhos e agridem os brancos, matando vários proprietários. A rebelião não tem liderança definida e estabelece uma situação caótica na ilha.

A principal e mais conhecida obra traduzida em língua portuguesa sobre a Revolução de São Domingos, é o clássico escrito por C.L.R. James, intitulado como “Os jacobinos negros”. Segundo James, numa estrutura que era sustentada pelo trabalho de meio milhão de escravos, em agosto de 1791, passados dois anos da Grande Revolução Francesa e dos seus reflexos em São Domingos, os escravos se revoltaram. Em uma luta que se estendeu por doze anos, eles derrotaram , por sua vez, os brancos locais e os soldados da monarquia francesa. Debelaram também uma invasão espanhola, uma expedição britânica com algo em torno de sessenta mil homens e uma expedição francesa de semelhantes dimensões comandada pelo cunhado de Bonaparte. A derrota dessa expedição de Bonaparte, em 1803, resultou no estabelecimento do Estado negro do Haiti, que permanece até os dias de hoje.

Essa foi a única revolta de escravos bem-sucedida da História, e as dificuldades que tiveram de superar colocam em evidência a magnitude dos interesses envolvidos. A transformação dos escravos, que, mesmo às centenas, tremiam diante de um único homem branco, e um povo capaz de se organizar e derrotar as mais poderosas nações européias daqueles tempos é um dos grandes épicos da luta revolucionária e uma verdadeira façanha.

Os jacobinos negros

Segundo Dan Davison( ativista britânico-venezuelano do Partido Trabalhista, na resenha do livro Black Spartacus the Epic Life of Toussaint Louverture de Sudhir Hazareesingt, ), “A Revolução de São Domingos destruiu a suposição racista de que os negros africanos nunca poderiam se libertar e governar a si mesmos acelerou o fim dos comércio transatlântico de escravos e se tornou um importante ponto de referência na Guerra Civil Americana e em outras subsequentes”. Essa proeza singular foi quase totalmente trabalho de um único homem: Toussaint L’Ouvertuture. Ele foi um dos mais notáveis homens de uma época de homens notáveis.

Antes da sua entrada em cena, um escravo chamado Mackandal tentara acabar como o domínio dos brancos envenenando a água utilizadas por eles em suas casas. Mas segundo James, em “Os jacobinos negros” ao embriagar-se, falou demais e o denunciaram. Capturado e executado em 1758, François MacKandal era líder dos marrons ; isto é, escravos que escaparam e formaram bandos de homens livres nas florestas. Acreditava-se que ele tenha estabelecido uma organização conspiratória elaborada que usava rituais de vodu para consolidar suas relações e visava derrubar os proprietários de escravos com métodos de envenenamento. Mackandal rapidamente se tornou uma lenda em São Domingos, capturando a imaginação dos rebeldes negros e inspirando terror aos brancos. Prenderam-no e o queimaram vivo.

Toussaint era filho de um chefe tribal africano transferido como escravo para São Domingos. Ali, comprou-o um senhor dotado de alguma benevolência, que percebeu as qualidades intelectuais do novo escravo. Deu-lhe a condição de capataz de uma turma de trabalhadores e uma esposa. Deste conúbio nasceram oito filhos, o primogênito das quais foi precisamente o personagem principal do livro Os jacobinos negros de James.

Toussaint teve a possibilidade de ler duas obras, que o influenciaram notavelmente. A primeira – o livro do Abade Raynal História filosófica e política do estabelecimento e comércio dos europeus nas duas Índias, onde Raynal fez uma descrição realista da situação nas colônia européias do Caribe, mostrando que a massa de escravos submetidos ao regime mais desumano de exploração se encontrava num ponto crítico, próximo de explosiva rebelião. Porém para que esta rebelião surgisse precisa apenas de uma liderança. E Toussaint também lera e que teve forte influência no desenrolar da insurreição dos escravos e da posterior revolução de São Domingos, o Livro de Júlio Cesar acerca da guerra contra os gauleses. Os comentários sobre as operações militares, na Roma da Antiguidade, forneceram ao futuro líder das tropas negras a concepção do que significam as manobras militares em um confronto armado.

Toussaint entrou na batalha de cabeça , corpo e alma em 1794, três anos depois de seu início. Ele contava com 45 anos, uma idade avançada para a época. Dotado de instrução bem acima dos ex-escravos, Toussaint não encontrou grandes obstáculos grandes obstáculos para ganhar a ascendência entre eles e aglutinar um exército de combatentes sob seu comando. Com uma tropa disciplinada e organizada, derrotou os exércitos franceses, espanhóis, que pretendiam apossar-se da parte francesa da ilha e dos ingleses, preocupados com a contaminação que o exemplo da possessão francesa poderia produzir nas suas próprias possessões antilhanas.

Toussaint reuniu um alto comando formado por outros ex-escravos como Dessalines, Henri Christophe, Maurepas,Pétion e Moïse, um jovem sobrinho adotivo de Toussaint. Este último considerado por James em Os Jacobinos Negros como a mais bem dotada figura da história mundial do período 1789-1815, com exceção apenas de Bonaparte.

Os erros de Toussaint

Segundo Gorender, já vitorioso, Toussaint seguiu duas linhas de ação, que teriam conseqüências funestas para a sua liderança e destino pessoal:

  1. Preocupou-se em ganhar a confiança de Bonaparte, que era naquele momento primeiro cônsul do governo parisiense. Ele insistia na fidelidade à França e na concretização de uma aliança entre a Revolução Antilhana e a Revolução Francesa. Bonaparte sequer tomou conhecimento desses bons propósitos, não somente porque se achava demasiadamente ocupado com as guerras e conquistas na Europa, como porque principalmente tinha planos apostos aos dos ex-escravos referente ao regime colonial.

Tousssaint não conseguiu perceber que, da Convenção de 1789 ao consulado bonapartista, a Revolução Francesa infletiu para a direita, mudando as características do regime político no país, como também afastando-se da posição inicial com relação à escravidão nas colônias.

  1. Toussaint, consistiu na decisão de manter a colônia como grande produtora de açúcar. Que se justificava, do ponto de vista da prosperidade econômica. Mas para este fim Toussaint não teve alternativa senão a obrigar os ex-escravos a retornar ao trabalho compulsório nas fazendas. Os ex-escravos já eram homens livres do ponto de vista formal, mas estavam forçados a continuar a cultivar a cana e a produzir açúcar nas mesmas condições exaustivas de antes. Tossaint manteve os brancos como proprietários, encarregados da direção e orientação da produção. O confinamento nas fazendas, o trabalho compulsório imposto aos ex-escravos e a leniência para com os proprietários brancos minaram gravemente a posição de Toussaint e causaram descontentamento na ala esquerda dos rebeldes. Revolucionário radical, o seu sobrinho adotivo Moïse organizou e chefiou uma revolta contra a liderança. Aprisionado, Toussaint negou-lhe julgamento e o fuzilou sumariamente. Privado da confiança dos trabalhadores negros, ficou debilitado para travar a batalha decisiva, que logo se seguirá.

Ainda segundo Gorender,em 1801, “Bonaparte interveio praticamente nos problemas concernentes à colônia francesa do Caribe. Não só pretendia debelar o levante dos negros, como restabelecer a escravidão. Este último objetivo deveria ser mantido em segredo, até o momento favorável à sua implementação. A intervenção se concretizou com o envio a São Domingos de uma expedição de 25 mil soldados sob o comando do próprio cunhado de Bonaparte, o general Leclerc, que viajou acompanhado da esposa Pauline, de músicos e flâmulos, como se estivesse em um evento festivo”.

Gorender relata : “ Mas que ao contrário de suas expectativas, defrontou-se com uma guerra sem tréguas. Toussaint reuniu forças disponíveis e foi à luta. Nesta se destacou principalmente Dessalines. Ex-escravo, analfabeto, revelou maestria de grande chefe militar. Não só maestria, como ferocidade. Diante da decisão do comandante francês Rochambeau de executar quinhentos negros , mandando enterrá-los num grande buraco, enquanto esperavam a execução, Dessalines não vacilou e enforcou quinhentos brancos, para que vissem Rochambeau e os brancos de La Cap ( hoje Cabo Haitiano). Em consequência, o País sofreu tremenda devastação, reduzido a cinzas pelos incêndios ateados pelo combatentes dos dois lados. Contando com uma tropa numerosa e bem equipada, Leclerc obteve êxitos iniciais. Diante da valentia dos negros, excedeu-se na prática de crueldades. Conseguiu aprisionar Toussaint em agosto de 1802. Levado à França, não submeteram o líder negro a julgamento algum. Bonaparte decidiu livrar-se dele por meio do rigor do tratamento carcerário. No entanto, apesar de prisioneiro e maltratado Toussaint ainda se declarava fiel à França e confiante em Bonaparte. Mal alimentado, numa cela fria e sem aquecimento, sem tratamento médico, não resistiu à dureza do cárcere e, aos 57 anos, faleceu no dia 07 de abriu de 1803”.

O afastamento de Toussaint não trouxe a vitória para Leclerc. Dessalines , Christophe, Clairveaux, Maurepas, Pétion e outros líderes negros prosseguiram o combate e conseguiram derrotar e expulsar o exército francês. No processo da luta, massacraram a maioria dos brancos, que antes dominavam a colônia. Bonaparte conseguiu restabelecer a escravidão em outras possessões francesas, não,porém, na pátria de Tousaint.

Enquanto, em Paris, a guilhotina decepava as cabeças dos jacobinos, em São Domingos Dessalines e seus companheiros continuavam a defender, de armas na mão, o ideal jacobino da liberdade e igualdade de todos os homens. Eles jacobinos negros, permaneciam fiéis ao espirito revolucionário da Convenção de 1789. Em 29 de novembro de 1803, os revolucionários negros divulgaram uma declaração preliminar de Independência. A 31 de dezembro, foi lida a Declaração de Independência definitiva. O novo Estado recebeu, no batismo, a denominação indígena de Haiti e Dessalines se tornou o primeiro chefe de Estado haitianos.

Apesar da omissão dos livros de história, a Revolução de São Domingos teve grande repercussão entre os negros e escravos africanos no Brasil como relata em seu artigo Whashington Santos Nascimento, “ São Domingos, o grande São Domingos”: repercussões e representações da Revolução Haitiana no Brasil escravista. Reivindicar a Revolução de São Domingos e os feitos de Toussaint e seus camaradas, mais do que uma necessidade é uma obrigação que deveria fazer parte de todos os currículos escolares no Brasil.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.