Da Síria a Hong Kong: o que é o campismo e por que temos que combatê-lo

A defesa de governos autoritários e de suas agendas econômicas capitalistas é um obstáculo para a possibilidade de renovação da esquerda.

Theo Louzada 8 fev 2021, 17:44

De alguns em alguns meses surgem polêmicas na vanguarda da juventude sobre temas internacionais que seguem uma dinâmica muito parecida. Uma revolta popular se instaura em algum país que não faz parte do bloco imperialista “clássico” e que, constantemente, tem uma disputa de sua direção entre diferentes setores no país. Mesmo em realidades muitos diferentes – como Ucrânia, Hong Kong, Síria, Bielorrúsia- as narrativas sempre são bastante parecidas: para uns existe uma intervenção imperialista no país que deve ser combatido custe o que custar e aqueles que apoiam as mobilizações são agentes desse imperialismo e para o outro existe uma realidade complexa de lutas no país, ligadas a contradições internas e externas, que deve ser disputada pelos revolucionários.

Mesmo expresso de formas distintas, o debate é o mesmo – se trata de um debate sobre o campismo, uma estratégia internacional tomada historicamente por parte da esquerda e que ganha novo folego com posições de alguns coletivos de juventude e de figuras como Jones Manoel, que têm se tornado porta-vozes dessa lógica nas redes sociais. Por isso, entender o que é o campismo e de que forma ele se desenvolve nos dias de hoje é fundamental para entender porque, também, ele tem que ser combatido.

O campismo e seu desenvolvimento do período stalinista

A definição sobre qual política internacional os comunistas deviam tomar depois da Revolução Russa foi definitiva para o que seria futuro da União Soviética e da esquerda no geral. A burocratização e o autoritarismo do stalinismo vieram junto com a “teoria do socialismo num país só”, onde a burocracia soviética abria mão da necessidade de disputar uma revolução internacional para chegar ao comunismo, acreditando que o socialismo da União Soviética seria autossuficiente e não teria a necessidade de expandir a luta revolucionária que se desenvolvia por todo mundo.

Essa estratégia custou caro, ajudando no fracasso de uma revolução na Alemanha (que poderia ser definitiva para a expansão do socialismo em toda Europa ao invés da reação fascistas que aconteceu logo após) e na China, na qual Stalin e seus aliados inclusive defenderam a diluição do Partido Comunista no partido mais central da burguesia da época, que logo após trairiam os trabalhadores e comunistas.

Nessa lógica, o programa da Terceira Internacional definia, um ponto que é fundamental para entender o campismo, dizendo que “os acordos com a burguesia nacional dos países coloniais são lícitos na medida que a burguesia não obstrua a organização revolucionária dos operários e camponeses e desenvolva uma autêntica luta contra o imperialismo”. Ou seja, a lógica stalinista colocava que existiam dois campos no mundo: o imperialista e o da União Soviética. Tudo que valesse para enfraquecer seu campo oposto deveria ser apoiado e tudo que enfraquecia seu campo político deveria ser negado. Essa disputa dividiu esses dois polos até o fim da URSS e da Guerra Fria em 1991 e serviu para que os herdeiros do aparelho soviético reprimissem diversas revoltas populares em países aliados (como na Hungria em 1956 ou na Tchecoslováquia em 1968) e fizessem acordos de apoio direto a países capitalistas com governos antipopulares.

O campismo nos dias de hoje

Com o fim da experiência do “socialismo real” na maior parte do mundo, esse debate se esfria por alguns anos. O fracasso da herança stalinista leva a um discurso neoliberal do “fim da história” e da vitória definitiva do capitalismo sobre o socialismo que foi se provando falsa já nos anos 90 e que teve como ponto final definitivo a crise financeira de 2008, que mostrou as fragilidades do capitalismo numa crise sistemática que dura até hoje.

Desde então, pode se dizer que se abriu um período de interregno internacional, no qual os de cima (capitalistas, governantes etc) não conseguem dominar de forma estável seus países, que vivem com constantes revoltas e crises políticas e econômicas, ao mesmo tempo que os de baixo (trabalhadores) não conseguiram, na maior parte dos casos, elaborar uma alternativa política capaz de tomar o poder e fazer uma transformação estrutural em seus países.

Desde então, diversas revoltas tem acontecido com muitas similaridades. Alguns dos protestos mais massivos das histórias nacionais acontecem inicialmente por uma pauta mais simples e vão se desenvolvendo em mobilizações de uma crítica mais sistemática. As pautas, porém, ainda são difusas e contraditórias, tendo tanto setores mais à esquerda quanto alguns setores de direita disputando um papel nessas manifestações. As mobilizações no Egito, Tunísia e depois na Turquia e, inclusive no Brasil com as Jornadas de Junho, são exemplos importantes de movimentações muito parecidas porque expressam exatamente esse interregno – a incapacidade dos poderosos de governar e a falta de uma direção consolidada para apresentar uma alternativa clara de poder.

Parte dessas revoltas são apoiadas amplamente pela esquerda brasileira (a derrubada do Mubarak no Egito por exemplo foi apoiada do PCdoB ao PSTU). A polêmica se apresenta em países com um elemento em comum – quando seus governos aparentemente têm algum confronto com o imperialismo norte-americano. Muitas vezes governos apoiados direta ou indiretamente pela Rússia ou pela China, que são visto como aliados pela herança stalinista da lógica campista.

Nesse sentido, tanto a Rússia, com um Estado abertamente capitalista e oligárgico, quanto a China, que desde os anos 90 tem se tornado uma espécie de capitalismo burocrático com uma política imperialista própria bastante avançada (bastando ver sua política econômica na África), seriam um polo a ser defendido perante os Estados Unidos pelo seu “papel anti-imperialista”. Seus governos aliados, mesmo que reprimissem duramente a população e fossem perpetuadores de um sistema econômico desigual e capitalista seriam, portanto, necessários de ser defendidos por apoiar esse papel contra o imperialismo.

O campismo prossegue defendendo Bashar Al-Assad na Síria, ditador do país há vinte anos, colocando todos seus opositores no mesmo saco, mesmo com um movimento revolucionário curdo, por exemplo, combatendo seu governo. Defende Lukashenko na Bielorrusia, negacionista da COVID, assim como Bolsonaro, e no poder desde 1994. E chamam de imperialistas os milhões que ocupam a cidade de Hong Kong, contra o governo títere da China que permite que a cidade seja uma das mais desiguais economicamente do mundo.

Ou seja, pouco importa se a política da China e da Rússia tem sido a de uma disputa imperialista pela hegemonia global, como podemos ver na brutal expansão das empresas chinesas e na disputa que elas têm feito a favor das privatizações por todo mundo (basta ver as declarações do Dória em São Paulo relacionando sua política de privatização com a China como parceira central) e na atuação da Rússia na intervenção direta e militar de países na sua região para manter sua hegemonia. Pouco importa também os milhões de trabalhadores que vão as ruas contra as condições sociais e econômicas desses países satélites, que pouco se diferem das condições nos países que tem relação mais direta com Estados Unidos. Segundo o campismo, um dos “campos” tem que ser defendido contra o outro acima de tudo e aqueles que disputam as mobilizações sociais que aparecem necessariamente são “agentes do imperialismo” para baixo.

Por que combater o campismo?

Não é possível compreender a realidade da geopolítica internacional sem, ao mesmo tempo que se entende que é uma realidade complexa e completa de contradições. Uma visão de “mal” e “bem” na geopolítica internacional atual, marcada pelas disputas imperialista e um sistema globalizado capitalista, só pode levar ao absurdo que chegam os campistas no apoio de governos como o da Síria ou da Bielorrúsia e na crença da China e Russia como um “mal menor”.

A falta de direção definida para os movimentos populares que estão estourando internacionalmente é um reflexo do interregno e coloca uma disputa constante de direção nos movimentos populares e, consequentemente, uma necessidade ainda maior da esquerda de estar presente, disposta a compreendê-los e disputá-los, para a formação de um novo polo internacional capaz de enfrentar o sistema capitalista.

Os avanços programáticos nas mobilizações latino-americanas como no Chile e no Equador são partes importantes, mesmo que ainda aquém, nesse novo momento de lutas antissistêmicas internacionais. Mas essa disputa tem que ser feita, colocando os anticapitalistas em movimento onde houverem mobilizações e não acreditando no papel de nenhum país imperialista como aliado dos trabalhadores e dos explorados.

A defesa de governos autoritários e com suas agendas econômicas capitalistas próprias por parte do campismo é um obstáculo na possibilidade de uma renovação de uma esquerda que consiga se colocar como representante real das indignações que vem surgido por todo o mundo contra esse sistema global de exploração. Por isso é necessário criar uma nova cultura política internacional, sendo solidário ativamente às lutas dos povos por todo mundo. Por isso, é necessário combater o campismo e seus representantes no Brasil.

Artigo originalmente publicado no site do Juntos!.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.