Entrevista: A rebelião paraguaia vai durar
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Entrevista: A rebelião paraguaia vai durar

Entrevista com Diego Correa, militante da Convergência Socialista do Paraguai, sobre as recentes mobilizações no país.

Theo Louzada 19 mar 2021, 13:26

Nas últimas semanas, protestos tomam as ruas das principais cidades Paraguai exigindo a saída do presidente Mario Abdo Benítez após o caos no enfrentamento à Covid-19 no país. Para compreender melhor a luta em curso no país vizinho, entrevistamos Diego Correa, militante da Convergência Socialista.

M – Estamos acompanhando aqui no Brasil as grandes manifestações que ocorreram no Paraguai nas últimas semanas. Por que motivos o povo iniciou essa jornada de lutas no país?

DC – As manifestações, que se concentraram principalmente em Assunção, ocorreram também em cidades como Ciudad del Este, Encarnación, Villarrica, Paraguari, assim como o fechamento de estradas em vários pontos do Departamento de San Pedro e Canindeyú. A população foi para as ruas por conta de uma série de acontecimentos que estavam até então sendo aguentados de forma apática, como a falta de material médico nos hospitais, como no caso de diversos remédios, leitos de terapia intensiva, ausência total de vacinas (até agora somente 4 mil doses chegaram no país). Isso vinha num contexto onde já repercutiam escandalosos atos de corrupção nos últimos meses, com dinheiro de empréstimos feitos de mais de 1,6 bilhão de dólares, quadruplicando a dívida externa desde 2013. Nesse sentido, foi protocolado um pedido de impeachment do Presidente e do Vice-Presidente da República apresentado pela oposição na Câmara dos Deputados. Esse pedido foi rejeitado ontem. O governo atual é do partido Colorado ou da Associação Nacional Republicana (ANR) que governa com hegemonia há 70 anos, com maioria em todos os órgãos do poder estadual, controlados pelo Ministério Público, o Supremo Tribunal de Justiça, o órgão da Justiça Eleitoral. Eles tem maioria em deputados de 42 membros de 80 no total, porém tem um peso menor no Senado, com 19 membros em 45.

M – A juventude tem desempenhado um papel importante nas lutas em todo o continente. No Paraguai, qual é o papel que a juventude tem cumprido nas manifestações e na luta política no país?

O papel dos jovens nas manifestações tem sido decisivo. Houve uma forte agitação nas plataformas mais utilizadas pelos jovens paraguaios -facebook, twitter, instagram e whatsapp. O primeiro chamado para as ruas foi através das redes, estudantes universitários da Coordenadora de Alunos da Universidade Nacional de Assunção se manifestaram e convocaram, manifestações que ocorreram há um mês em frente à sede do partido governamental ANR pedindo a saída de Abdo e Velázquez. Então, no início de março as redes houve uma mobilização das trends nas redes, com as hashtags #EstoyParaelMarzoParaguayo2021 #NiAbdoNiHC #ANRNuncaMas #JuicioPoliticoYa.
Isso gerou um apelo massivo na sexta-feira, 5 de março, e foi feita uma manifestação que teve que se dispersar pela forte repressão, com um morto e vários feridos. No dia seguinte a mobilização se volta para Mburuvicharoga (casa do presidente ) e a casa do ex-presidente Horacio Cartes, que constrola a maioria dos legisladores na Câmara dos Deputados. Todos esses eventos tiveram como referência a organização de jovens e pessoas de diferentes classes sociais. O processo de luta em geral, é construído neste momento pela juventude organizada, sejam estudantes universitários do CEUNA, partidos da oposição, trabalhadores e desempregados. Neste momento há um ataque de criminalização dos protestos pelos meios de comunicação e são os jovens, com sua comunicação alternativa como a “Rtv paraguai” no Facebook, que transmitem os acontecimentos ao vivo e contam a história real das manifestações.

M – Quais são as expectativas em relação à continuidade dessa onde de indignação paraguaia? Os protestos podem ter novos atores sociais participando, como no caso dos camponeses? A pandemia afeta o futuro das manifestações?

DC – São claras as expectativas e intenções de continuidade, ainda mais porque nos últimos dias ocorreram encontros decisivos no setor camponês (setor de maior força no país) nucleadas na articulação de organizações camponesas como Joaju, o Movimento Agrário Paraguaio e o Camponês Paraguaio movimento. Algumas organizações camponesas de San Pedro já se encontram na Capital para participar dos próximos momentos da luta.Ao mesmo tempo, a partir de hoje, quinta-feira, 18 de março, novas restrições horárias de circulação entram em vigor até as 20h, devido ao pico mais grave de infecções em toda a pandemia, onde não há mais leitos de terapia ou medicamentos para as pessoas afetadas. Por outro lado, diante dos últimos acontecimentos, a juventude urbana que não quer mais suportar a dor das mortes, da falta de acesso à educação, saúde, terra e moradia. Resumindo, o Paraguai é país com uma enorme desigualdade de oportunidades.

M – Estamos vivendo um processo internacional nos últimos dois anos de mobilizações na América Latina, como mais recentemente foram as mobilizações da Bolívia, Chile e Equador. Você acha que esse momento do Paraguai está conectado a esses processos internacionais?

DC – Em relação às revoltas populares verificadas em países da região nos últimos anos, não creio que haja precisamente uma conexão, mas sim um bom exemplo de luta e rebelião diante dos fartos gerados e da humilhação para com a população. A juventude tem superado o medo e a submissão tanto no caso paraguaio quanto nesses países e impostos contra esses maus governos, claramente dependentes das diretrizes dos Estados Unidos. Existe um sistema de privatização da própria vida, como é o caso paraguaio onde o Estado paga milhões de dólares a hospitais privados para usarem leitos de terapia intensiva. Hoje, por exemplo, o Ministério da Saúde informa às empresas privadas que elas podem importar vacinas, antes que o Estado as traga e as forneça de forma gratuita e universal. Todos esses acontecimentos nos levaram a sair às ruas, por não aceitar mais essa realidade onde existe um sistema eleitoral que não garante a participação democrática da oposição, onde os meios de transporte são propriedade de empresários ligados ao partido do governo, onde farmacêuticas e privadas hospitais, assim como as universidades são administradas por deputados do Colorado. A rebelião popular vai durar!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.