As ruas falaram mais alto! Depois do 29M, os próximos passos

As ruas falaram mais alto! Depois do 29M, os próximos passos

Vamos participar de todos os espaços que busquem a mobilização.

Camila Souza e Israel Dutra 5 jun 2021, 11:22

No dia 29 de maio a manifestação nacional convocada de forma unitária pelo Fora Bolsonaro levou centenas de milhares às ruas. Uma grande vitória que aponta um caminho. Foram 200 cidades em todo país, de norte a sul, além de 14 países no exterior, onde brasileiros levantaram bandeiras do Fora Bolsonaro.

O chamado “quando um governo é mais perigoso que o vírus, temos que sair às ruas”, frase marcante da rebelião popular que vive a Colômbia, contagiou e encorajou o povo brasileiro. E os ventos que levantam o continente sopraram, ainda que de forma desigual, no Brasil. Com esse mote, garantindo todas as precauções sanitárias, entre 400 e 500 mil pessoas, foram com suas máscaras às ruas protestar.

Além do peso da nacionalização do ato, podemos citar com destaque o ato de São Paulo, estimado entre 80 e 100 mil pessoas. Também foram relevantes os protestos em Belo Horizonte, com 30 mil, Rio de Janeiro 25 mil, Brasília e Porto Alegre com 20 mil pessoas, respectivamente.

Foi a maior manifestação durante o período da pandemia. Vale registrar que a enorme presença do ativismo juvenil, que em contraste com as concentrações bolsonaristas, a maioria dos manifestantes do sábado, 29, tinha menos de 25 anos de idade. Tanto a juventude periférica e negra quanto a juventude que resiste aos cortes nas universidades e institutos federais estavam em peso nas colunas da marcha, por todo país. O fator importante, para além da mobilização, foi o apoio ao protesto, nas casas, ruas e redes. Houve muito apoio e simpatia popular. Nas redes, podemos dizer que o bolsonarismo levou uma verdadeira surra. A presença de artistas de renome como Paulo Betti, Maria Ribeiro, Marcelo D2, Gregório Duvivier, Samantha Schmutz, Fernanda Lima entre tantos outros é um bom indicador do humor do movimento de massas.

A essência da força do movimento foi a indignação com o governo Bolsonaro. Um governo que aumentou seu próprio salário. Que tem a responsabilidade do genocídio de mais de 470 mil brasileiros pelo covid, além de ter colocado o país no mapa da fome, com milhões de famílias vivendo as chagas do desemprego, da miséria e do desalento.

O ato configurou uma importante resposta a Bolsonaro. Foi um salto por sua capacidade de nacionalização e de diálogo popular com a maioria social que rechaça o governo. Foi uma demonstração que Bolsonaro não tem o monopólio das ruas, sendo a luta pelo Fora Bolsonaro uma luta de maioria social.

A repressão em Pernambuco, onde governa o PSB é um episódio que mostrou uma linha de desmonte de parte da “centro-esquerda” combinada com uma ação ainda nebulosa por parte dos comandos da PM local, gerando um alerta para linha de insubordinação bolsonarista nessas instituições. Foi o capitulo mais nefasto do 29M. Um homem, que sequer estava presente no protesto , perdeu a visão em meio à ação truculenta dos policiais.

A unidade entre diferentes setores, entidades estudantis, frentes, partidos, sindicatos, centrais garantiu a força da convocatória. O esforço da convocação foi desigual, com os setores mais à esquerda cumprindo papel importante junto às bases, ampliando a pressão para que as direções majoritárias convocassem atos públicos. O elemento central da frente única, contudo, foi a objetividade das pautas, tal como se expressou nas jornadas do “Ele não”, do Tsunami da educação em maio de 2019 e mesmo nos atos antifascistas e antirracistas de 2020.

A força das ruas apontou a necessidade de seguirmos na perspectiva da luta para derrotar Bolsonaro desde já, e não de esperar até 2022 nas eleições. Para que todas as revelações da CPI não acabem em pizza, sabemos que o povo precisa entrar em cena. E para isso é necessário dar a batalha para construir agendas unitárias, mas também organizar um pólo anticapitalista e revolucionário que não fique a reboque e refém de articulações que apostam na linha de sangrar Bolsonaro até 2022, como faz Lula, que inclusive não se pronunciou sobre as mobilizações.

A Copa América, novo episódio na crise

O governo que demorou 9 meses para responder a compra de vacinas da Pfizer e em horas respondeu sobre a realização da Copa América no Brasil. Não para menos, a indignação e desconforto de todos com a realização do evento só cresce, afinal queremos vacina e não Copa.

A Copa América saiu da Colômbia, sede inicial, pelos desdobramentos da rebelião colombiana; a nova opção, Argentina, cancelou sua participação enquanto país sede após o novo ápice de contágios da covid-19.  O anúncio da Conmebol, em parceria com o governo brasileiro, de realização da Copa nos estádios do país, surpreendeu o mundo e imediatamente, gerou indignação.

A semana foi marcada, além da crítica à realização da Copa, pela CPI e pela crise com Pazuello.

As últimas confirmações da CPI e o vídeo da reunião do gabinete paralelo só confirmam o que já sabemos, Bolsonaro é um agente agravante da crise com sua política genocida. A crise com o Exército, aberta pela participação de Pazuello em ato público com Bolsonaro no Rio de Janeiro, terminou com o arquivamento do processo por transgressão disciplinar. Essa decisão gerou uma salva de críticas e desgaste ao próprio exército, escalando a tensão com o governo e com sociedade.

Quando fechavámos o editorial, a questão da realização da copa ganhava novos componentes explosivos. Uma ação de vários jogadores, como Suarez do Uruguai, alguns jogadores da Argentina, que no Brasil foi vocalizada pelo capitão Casemiro afirma que não irá participar da Copa, caso ela se mantenha. Isso gerou um conflito com o presidente da CBF, Rodrigo Caboclo, que ameaçou o técnico Tite de demissão. A queda de braços deve terminar com uma posição resoluta dos jogadores, vide a declaração da equipe após a partida das eliminatórias.  A crise ficou ainda maior com as denúncias de assédio sexual contra Caboclo, que fica numa posição quase insustentável,  restando uma semana para a data inicialmente agendada para o início da Copa América.

Durante os últimos dias, o Movimento Juntos se destacou, inclusive com presença na imprensa, por atos simbólicos contra a copa, em diversas cidades.

Seguimos na rua!

O debate em como seguir é muito importante. Motivos para se indignar não faltam. Os elementos da crise aguda que vivemos vão seguir se aprofundando até que demos um basta nesse governo.

Devemos combinar o chamado unitário para o dia 19, prioridade de mobilização, com a crítica política à copa, deixando espaço aberto para ações de rua no dia 13, data que marca a abertura da Copa América e é o dia seguinte à visita de Bolsonaro e suas motociatas da morte em São Paulo. E o dia 19 de junho é o dia nacional unitário convocado junto às entidades estudantis, frentes e pela Campanha Nacional Fora Bolsonaro. Devemos avaliar também o desenvolvimento das condições sanitárias, sem perder a energia da chamada ao dia 19.

Buscar a unidade é uma tarefa fundamental. Ao contrário do que Arcary comentou em recente artigo, não tivemos qualquer postura divisionista. Nossa presença nos atos respondeu a nossa atividade unitária com a UNE e outras entidades, respaldando o calendário da Campanha Fora Bolsonaro. 

Estivemos também na articulação “Povo na rua” da qual participamos com UP, PCB, CST e outros organizou uma Assembleia online que contou com mais de milhares de inscritos e mais de 2mil participantes ao vivo, e apontou sugestões quanto ao calendário. O que não aceitamos é nos subornidar apenas às lógicas das “frentes” hegemonizadas pelos interesses do lulismo.

Qualquer iniciativa que busque convocar mobilizações de rua deve ser democrática e plural. Nesse sentido, opinamos que não se pode construir com hegemonismo,  se deve respeitar o peso das demais organizações. Para avançar devemos abrigar aqueles que querem lutar, num chamado amplo e democrático à luta;  nesse terreno, a presença do PSTU é muito importante, assim como setores das duas Intersindicais, o conjunto do PSOL e dos movimentos mais à esquerda. Também a campanha Fora Bolsonaro deve ser plural e abrigar a todos que estejam de acordo com essa consgina. Essa é nossa batalha política.

Vamos participar em todos espaços que busquem a mobilização, com nossas forças militantes, participação em todos espaços que busquem a mobilização com nossas forças, agrupadas no Juntos, TLS sindical, Emancipa, nossas figuras públicas, na FNL. Também vamos lutar para uma cobertura militante dos protestos, com o êxito que tem sido o novo projeto global de comunicação da Revista Movimento.

A defesa da ida às ruas não resolve, por si, o problema do programa e da alternativa. Para tanto vamos seguir nossa batalha política para um PSOL independente, a serviço de um programa e de uma organização anticapitalista e de caráter militante.

A juventude com sua energia e radicalidade não vai parar, seguirão em defesa das universidades, da educação, pela vacina, contra o desemprego e a violência policial. Temos urgências e emergências que nos levam à luta. E já temos nosso próximo calendário de mobilização, nos vemos nas ruas.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.