Três formas de confundir a vanguarda: um debate com a Resistência/PSOL
Bandeiras do PSOL. Reprodução

Três formas de confundir a vanguarda: um debate com a Resistência/PSOL

Os camaradas da Resistência cometem erros conceituais profundos, utilizando os conceitos marxistas de forma mecanicista e capitulando perante os setores oportunistas da esquerda brasileira, notadamente Lula e o PT, a partir de uma confusão sobre a tática da Frente Única.

Bruno Magalhães e Israel Dutra 23 jul 2021, 14:53

Este texto pretende criticar as posições recentes da Resistência (corrente interna do PSOL) e de Valério Arcary, seu principal ideólogo. Defenderemos abaixo que os camaradas da Resistência cometem erros conceituais profundos, utilizando os conceitos marxistas de forma mecanicista e capitulando perante os setores oportunistas da esquerda brasileira, notadamente Lula e o PT, a partir de uma confusão sobre a tática da Frente Única.

Uma introdução: sobre questões de método

No método marxista, qualquer análise deve partir das relações entre as classes sociais em seu contexto de luta permanente. A estratégia geral, as táticas específicas e as tarefas colocadas à classe trabalhadora em cada momento histórico derivam diretamente da situação da luta de classes em determinada época.

Os conceitos e categorias de análise ajudam muito nesta tarefa teórica, mas também correm o risco permanente de simplificar a riqueza da vida que procura analisar. A busca por categorias prévias para entender cada cenário ou processo histórico sempre abre também o risco dos anacronismos, das distorções e caricaturas. O método marxista critica permanentemente as dinâmicas e contradições internas de cada objeto em análise, mesmo que as conclusões sejam desagradáveis. É por isso também que as categorias marxistas estão em aprimoramento permanente, exigindo das direções que as aplicam não somente a transposição dos conceitos para a atualidade, mas o próprio enriquecimento destes conceitos frente aos novos desafios que se colocam. O marxismo não conhece dogma teórico.

As ferramentas do pensamento também tem sua dinâmica própria perante a história e não servem simplesmente para encaixar o mundo em categorias, ao contrário, são mais ricas e úteis quanto mais nos profundamos em seu desenvolvimento. O conceito de bonapartismo, por exemplo, é esvaziado quando se utiliza o golpe de Luís Bonaparte como analogia sem refletir também sobre as lutas de classe na França entre 1848 e 1851 e todo o processo que desembocou no 18 Brumário. Cada conceito só tem utilidade aos revolucionários dentro de seu contexto, como experiência humana condensada para ser utilizada na análise do real, senão perde sua utilidade e torna-se similar às categorias místicas de repetição da ideologia burguesa.

Esse debate teórico tem implicações muito concretas. Ao longo da história, o stalinismo soube deturpar conceitos importantes como “esquerdismo”, “oportunismo” e até o “fascismo” para justificar teoricamente uma política cujo objetivo real era o fortalecimento de sua própria posição burocrática, e não o desenvolvimento teórico do marxismo. 

Esta introdução é importante porque consideramos a vulgarização da tática da Frente Única um grave erro da Resistência. Ao utilizar ferramentas teóricas de maneira abstrata e estática, ignorando tanto seu contexto original como sua materialidade hoje, os camaradas aplicam na prática uma tática diferente daquela declarada e enfraquecem a construção de um polo socialista independente no Brasil. Para provar isso, começamos pelos escritos da própria Resistência.

PARTE UM

A orientação da Resistência se subordina à do lulismo

O  centro da nossa crítica à orientação da Resistência e suas elaborações diz respeito à relação que se estabelece com o lulismo, principal direção do movimento de massas no país. A tática da Frente Única- como veremos mais adiante- supôe combinar a luta pela unidade entre os diferentes setores do movimento operário e a disputa por sua orientação.

A aplicação correta  desta tática inclui a luta por uma linha de independência de classe – portanto, uma disputa de orientação. Diante da situação política atual, a unificação plena dos setores explorados e oprimidos com uma linha de independência de classe passa pela derrota da orientação do PT. É por isso que não podemos aderir a uma unidade eleitoral ou programática com o PT (exceto na hipótese completamente irrealista de o PT adotar uma linha de esquerda e romper suas alianças com setores da burguesia). Contudo, para justificar sua política, a Resistência e Arcary lançam mão de uma série de proposições que Moreno definiu como “Analises-justificativas”, conforme este explica em “O Partido e a Revolução”:

“Parece imposible que se pueda coincidir en una política a partir de caracterizaciones de la situación real diametralmente opuestas. Y en realidad lo es. Pero lo que ocurre es que los compañeros de la mayoría no parten del análisis de la situación de la lucha de clases, sino que hacen casi al revés: formulan una estrategia de acuerdo a los fenómenos internos al movimiento obrero y de masas y luego inventan un análisis de la realidad que se acomode a esa estrategia y la justifique.”[1]

Pressionados pela luta para sair de anos de marginalidade política oriunda do PSTU, os companheiros da Resistência, ancorados na ação de setores da vanguarda, problematizam e justificam suas teses para construir a política de subornidação à orientação lulista. Isso os leva a aderir, no movimento, ao calendário da direção majoritária do PT e no terreno da disputa do PSOL agitar a consigna de apoio à Lula, como fórmula de “unir a esquerda”. Vejamos com mais cuidado como se articulam os conceitos necessários para construir a “analise-justificativa” da Resistência.

As três táticas

O camarada Valério Arcary já afirma há algum tempo que três táticas dividem a esquerda. Vejamos como era esta formulação em 2019:

“Acontece que a esquerda brasileira está muito dividida, pulverizada em duas dezenas de organizações e correntes que se estruturam no interior dos partidos legais, e com graus de influência muito variados. Mas, em uma análise rigorosa são três, somente, as táticas. Há aqueles que defendem o quietismo, os que defendem a ofensiva permanente e os que defendem a Frente Única. Estes conceitos têm uma história e remetem ao repertório acumulado pela esquerda marxista mundial. O quietismo está associado à orientação do SPD, o partido da socialdemocracia alemã sob a orientação de Kautsky. A ofensiva permanente era a posição de Bela Kun, líder húngaro da III Internacional para a situação alemã, que resultou na derrota da revolução em 1923. A tática da Frente Única foi elaborada sob a inspiração de Lenin e Trotsky. Os que defendem o quietismo partem da premissa de que sofremos uma derrota histórica. Concluem que a situação é contrarrevolucionária, e exigirá anos para uma recuperação da capacidade de luta, e o maior perigo é um autogolpe, portanto, não podemos provocar. Os que defendem a ofensiva permanente partem da premissa que a derrota foi, essencialmente, eleitoral, as forças da classe trabalhadora estão intactas, a situação é pré-revolucionária, e a expectativa é uma derrubada, mais ou menos iminente, do governo, e não podemos hesitar. Por último, estamos aqueles que consideramos que ocorreu uma derrota político-social grave, de tipo estratégico, avaliamos a situação como reacionária, e temos a expectativa de um período defensivo, em que a resistência precisa acumular forças para ter capacidade de contraofensiva, e não podemos vacilar.”[2]

Neste trecho, são identificadas as três posições. Em um movimento nada original, o autor divide as organizações entre aquelas que estão a sua direita (os “quietistas”), aquelas que estão à sua esquerda (a “ofensiva permanente”) e aqueles que estariam corretos (a Frente Única), torcendo estes conceitos para adaptá-los ao Brasil de Bolsonaro. Qualquer organização marxista faz a crítica ao oportunismo e ao sectarismo a partir da suas próprias posições, então nossa tarefa não é só relacionar qual desvio histórico é análogo aos erros políticos de qual organização atual, mas também explicar porque estas organizações cometem estes erros e quais são suas consequências.

Não são só ideias. Formular sobre nossa realidade pensando em termos como “quietistas” ou “ofensiva permanente” só faz sentido a partir do significado destes termos em sua origem,  pensando também nas imperfeições que toda analogia carrega. Se as motivações e o contexto histórico de cada conceito não são análogos ao momento em que são mencionados, utiliza-los sem levar isso em conta é uma forma de deturpá-los. É o que acontece nos textos da Resistência, como no exemplo acima, e para desenvolver nossa argumentação nos aprofundaremos em cada um destes termos.

O “quietismo”

O quietismo é uma postura tática em consequência do oportunismo na qual as direções políticas travam o desenvolvimento revolucionário do movimento das massas para apostar exclusivamente na ação institucional como forma de chegada ao poder, indo contra “provocações” que poderiam atrasar o caminho ao poder da classe trabalhadora. Como argumenta o próprio Kaustky, citando Marx, em 1918:

Não devemos ser pessimistas. Quanto mais o Estado é democrático, mais seus instrumentos de dominação – neles compreendidas as forças militares – dependem da vontade do povo (milícias). Os instrumentos de dominação podem, igualmente, tornar-se, em uma democracia, meio de supressão violenta do movimento proletário, no momento em que o proletariado é, ainda, numericamente muito fraco – isto é, em um país agrícola – ou politicamente muito fraco porque não está organizado, nem é intelectualmente autônomo. Mas, se num Estado democrático o proletariado se desenvolver até tomar-se tão numeroso e poderoso para tomar o poder político pela simples aplicação das liberdades dadas, então a “ditadura capitalista” terá muitas dificuldades para mobilizar os instrumentos de repressão necessários à supressão violenta da democracia. Com efeito, Marx considerava possível — e mesmo verossímil — que o proletariado, tanto na Inglaterra como na América, pudesse tomar o poder político pela via pacífica. Depois do fechamento do Congresso de Haia, da Internacional, em 1872, Marx pronunciou um discurso numa reunião popular de Amsterdã, no qual explicou, entre outras coisas, o seguinte:

´O operário deve assumir, um dia, a supremacia política para estabelecer a nova organização do trabalho; deve derrubar a velha política, sustentáculo das velhas instituições, sob pena, como os antigos cristãos que a haviam negligenciado e desdenhado, de nunca ver seu reino neste mundo. Mas não pretendemos que para alcançar esse fim os meios sejam idênticos em toda a parte. Sabemos o papel desempenhado pelas instituições, pelos costumes e pelas tradições dos diferentes países; e não negamos que existem países, como a América, a Inglaterra e, se eu conhecesse melhor vossas instituições, acrescentaria a Holanda, onde os trabalhadores podem alcançar seus fins por meios pacíficos. Mas, esse não é o caso em todos os países.’“[3]

Vejam a diferença entre a posição de Kaustky e a posição definida por Valério como kautiskista. Ao contrário de seus pares atuais, descritos como amendrontados pela suposta derrota histórica e pela situação contrarrevolucionária, os “quietistas” do começo do século eram bem otimistas sobre as possibilidades do regime burguês, apostando na tomada do poder via o parlamento e indo contra ações que pudessem desestabilizar este caminho justamente porque viam maior permeabilidade nos aparatos estatais das democracias burguesa avançadas. Ao contrário do “quietistas” da Resistência, os originais partiam de outra posição e não defendiam a inação política devido a suas derrotas, se recusavam à luta extrainstitucional porque consideravam as lutas econômicas e parlamentares muito mais eficazes. A confiança de Lula nas instituições burguesas é inegável e se aproxima da posição kautiskista histórica, mas esta foi desenvolvida no sentido contrário daquele utilizado hoje pela Resistência. Este não é um dado menor para esse debate.

Analisar determinado conceito somente pela sua aparência, ignorando seu sentido histórico, é uma forma de amputar o conceito para simplificá-lo. Entender o ponto de partida de qualquer posição historicamente definida é imprescindível para entender a própria posição. E caracterizar a tática das direções reformistas de hoje simplesmente como “quietista” em consequência de uma “derrota histórica” da classe trabalhadora é um esforço associativo mecânico que serve mais à produção de textos do que a uma análise política profunda.  

Para dar um exemplo mais concreto podemos pensar no movimento socialista norte-americano de hoje, onde as ideias kautskistas tem bastante apelo entre a vanguarda[4]. A maior organização socialista estadunidense, o Democratic Socialistas of America, é uma organização guarda-chuvas para socialistas de diversas matizes onde alguns camaradas marxistas fazem questão de lembrar a todo momento o seu caráter “democrático” perante os ataques da direita. Alguns membros do DSA utilizam a noção de “revolução política”, inspirada nas posições de Kaustsky. Ou seja, apesar de seus grandes erros ao reivindicar Kaustsky e sua estratégia “quietista”, eles tem pouco a ver com o oportunismo brasileiro de hoje.

Obviamente existem similaridades entre o “quietismo” kaustiskista e o pretenso “neoquietismo” petista, mas elas estão longe de serem novidades ou desencadeadas pela “derrota histórica” representada por Bolsonaro, esse é o nó desta questão. Quando Palloci usava a metáfora do “cavalo de pau no transatlântico” em 2003 tivemos lá um bom exemplo do “quietismo” tal qual formulado, confiante nas instituições burguesas para mudar a direção do navio. E o PT foi coerente até o fim com esta posição “quietista” quando houve o impeachment de Dilma ou a prisão de Lula, não é uma posição nova desencadeada pelo golpe parlamentar ou pelo governo da extrema-direita.

A “ofensiva permanente”   

 A caracterização da “ofensiva permanente” feita pela Resistência é outro exemplo de conceito manco, ressuscitando Bela Kun para melhor definir aqueles que estão à esquerda dessa organização nos dias de hoje sem aprofundar o tema, assim como no caso anterior. Novamente, nosso primeiro passo é lembrar o contexto do camarada húngaro e de suas posições.

 Bela Kun foi o principal líder da República Soviética Húngara de 1919, retirado da cadeia diretamente para o poder depois de um acordo com o Partido Socialista Húngaro que garantiu a formação do novo governo frente ao colapso do regime político e às ameaças de invasão estrangeira pela Entente. O novo governo, no qual os comunistas eram minoritários, formalmente aceitou premissas como o “governo de conselhos operários e camponeses” e a “formação de um exército proletário” porque precisavam desesperadamente do apoio comunista.

 A “revolução húngara” não foi uma revolução popular de fato, ainda que os comunistas tivessem força no país, e teve uma aproximação curiosa com a posição “quietista” justamente por sua “via pacífica” de tomada do poder. A retomada das posições de Lênin nesse momento, feitas por Pierre Broué, são bastante esclarecedoras:

“Podemos hoje, a luz da experiência, e também talvez por falta de imaginação, achar esquisita esta maneira de tomar o poder e se surpreender que o mundo não tenha tomado a ‘revolução húngara’ por uma aventura de opereta, o que ela não era. Em realidade, ficamos assustados que ela tenha sido levada tão a sério, principalmente por Lenin que vira aí o reflexo da profunda crise de dominação burguesa e declarara em seu discurso de encerramento do VIII Congresso do PCR(b) em 23 de março de 1919:

‘Independente das dificuldades que se apresentam na Hungria, temos lá outra vitória do poder soviético, uma vitória moral. A burguesia mais radical, a mais democrática e conciliadora, reconheceu que na hora de uma crise gravíssima, ao mesmo tempo em que seu país, esgotado pela guerra, é ameaçado por uma nova guerra, o poder soviético é uma necessidade histórica: ela reconhece que o único poder que pode haver nesse país é o poder dos sovietes, a ditadura do proletariado.’”[5]

Mas o próprio Broué continua demonstrando as preocupações de Lenin perante esta “tomada de poder prematura”, que ele não torna pública na época mas expressa à Kun via telégrafo:

Peço-lhe que me informe quais são as garantias efetivas que você tem que o novo governo será comunista e não somente socialista, isto é social-traidor. Os comunistas serão maioria no governo? Quando acontecerá o primeiro congresso dos sovietes? Em que consiste concretamente o reconhecimento da ditadura do proletariado pelos socialistas? Está absolutamente correto que uma imitação pura e simples de nossa tática russa em todos os detalhes seria um erro, estando dadas as condições particulares da revolução húngara. Devemos nos precaver desse erro, mas eu gostaria de saber quais são as garantias efetivas que você tem.”[6] 

Nota-se que Lenin está preocupado com a correlação de forças e o programa do novo governo, ou seja, com a questão do poder, em um momento onde todo debate entre comunistas era atravessado pela questão da tomada do poder e não simplesmente da ocupação de governos. A resposta de Bela Kun às indagações de Lenin confirma as garantias que o líder russo exigia, e os comunistas húngaros estavam tão inebriados com sua vitória efêmera que tentaram promover a tomada insurrecional do poder também na Áustria, com Erno Bettelheim, fracassando de forma retumbante. No final, o governo soviético húngaro em composição com a burguesia radical dura poucos meses e Kun é obrigado a fugir do país, continuando sua participação na Internacional Comunista e repetindo sua posição de “ofensiva permanente” posteriormente durante os eventos da Ação de Março na Alemanha, quando é duramente criticado por Lenin por não compreender a “situação concreta” daquele país. Na mesma época, nestes intensos anos após a Revolução Russa, Lenin se voltará ao combate contra o esquerdismo que levará à obra de 1920[7].

 Aqui também temos uma distorção de conceito. Quando a Resistência traz a posição de Bela Kun para o contexto atual, ignorando a situação histórica na qual foi formulada, acaba fazendo o mesmo que Kun e lê a situação concreta em prol de seus desejos. Os camaradas utilizam uma tática sobre a tomada do poder para caracterizar setores que não trabalham com essa perspectiva imediata, fazendo uma caricatura útil para a justificativa de sua aderência ao oportunismo. O erro de Bela Kun não está formulado para uma troca de governo, mas sobre uma transição de regime. Ao transpor mecanicamente este conceito para a situação atual, na qual a questão do poder não está colocada, ele é deturpado e novamente ajuda a confundir.

Isso faz muita diferença. Existe hoje alguma organização relevante no país que defenda a tomada imediata do poder? Existiu no passado recente ou pode existir no futuro próximo alguma organização relevante que se lance a ações do tipo da Bettelheimerei austríaca ou da Ação de Março alemã? É óbvio que não, esta posição simplesmente não existe entre as organizações à esquerda da Resistência, e em caso de discordância os camaradas podem simplesmente citar qual panfleto ou ação prática reinvindicou tamanho disparate. Definir a tática da “ofensiva permanente” na situação atual sem levar isso em conta é esvaziar o sentido desta tática e perder a oportunidade de aprender com este erro.

As caracterizações sobre a“ofensiva permanente” refletem a mesma lógica mecanicista do “neoquietismo” ao olhar somente para a aparência do conceito, retirando seu contexto histórico e esvaziando seu sentido em generalidades. O impressionante giro à direita dado pelos camaradas em tão pouco tempo fez com que muitas organizações passassem rapidamente à sua esquerda e recebessem o mesmo rótulo – apesar de posições tão diferentes – porque de outra forma seria impossível juntá-las todas no mesmo saco.

Este esquematismo chega ao limite da honestidade intelectual quando os camaradas caracterizam todos à sua esquerda como defensores da leitura da situação atual como “pré-revolucionária”. Trata-se de uma apreciação incorreta que pode ser verificada com a simples leitura das formulações de quase todas as referidas organizações.

E por que afirmar uma caracterização que não pode parar em pé? Por que não simplesmente denunciar o “esquerdismo” destas organizações? Talvez porque isso deixaria ainda mais evidente as lacunas desta “explicação” pois teriam que justificar o rótulo esquerdista não somente para o PSTU, mas para tendências políticas muito pouco aderentes a este título perante a vanguarda. Toda a ginástica narrativa ganha sentido então como parte do acerto de contas da Resistência com seu próprio passado de erros, e não uma análise sincera das posições alheias. Uma organização política atacada por supostos acenos à burguesia apresenta dificuldades em ser taxada como “esquerdista” perante o senso comum da vanguarda, mas a confusão gerada pelo conceito deturpado da“ofensiva permanente” cai como uma luva para este tipo de situação porque supostamente explica esse mistério.

As atualizações da confusão

Como dito acima, trabalhamos aqui com as definições feitas em 2019, e para sermos coerentes com nossa crítica devemos refletir sobre a evolução destas definições nos últimos anos. Muita coisa mudou no Brasil desde então, e nada mais justo do que analisar este debate à luz e sua evolução. Vejamos o editorial do Esquerda Online de fevereiro de 2020:

“É preciso, em nossa opinião, fazer o debate sobre a orientação estratégica para o período. Para nós, a estratégia a ser adotada se concretiza na seguinte forma: construir as condições para derrubar Bolsonaro nas ruas, inspirando-se no processo chileno. Não se trata, evidentemente, de uma palavra de ordem para agitação ou para ação imediata, uma vez que não estão dadas as condições para derrubar o governo hoje. Essa estratégia adquire relevância diante do avanço do bolsonarismo: sem construir a organização e a mobilização de um amplo setor de massas estaremos muito fragilizados para enfrentar o perigo neofascista.

Opomos essa estratégia às duas outras existentes na esquerda:(a) a estratégia reformista-eleitoral que aposta na derrota de Bolsonaro nas eleições via a formação de uma frente ampla “progressista” (de aliança com partidos da direita e do centro, como o PDT, PSB e Rede); essa estratégia “quietista”, que aposta no desgaste lento e gradual em tendo em vista às eleições, é predominante no PT e no PCdoB. Nesse último, inclusive, a linha é ainda mais à direita, com Flávio Dino se reunindo com Luciano Huck e Fernando Henrique, com a esperança de construir um bloco com o “centrão”, o mesmo que foi decisivo para a aprovação da reforma da previdência, e antes para o golpe parlamentar que depôs Dilma Rousseff. Essa linha oportunista subestima, inclusive, o perigo de maior fechamento do regime antes das próximas eleições presidenciais. (b) A estratégia esquerdista — a da ofensiva permanente — que aposta, sem haver condições para tanto, na deflagração de um processo mais ou menos imediato de derrubada do governo, agitando para isso o “fora governo” e “greve geral já”.[8]

Este trecho é revelador por diversos motivos. Em primeiro lugar porque as “táticas” anteriores aqui adquirem o status de “estratégia”. Por que? Talvez por um lapso do redator ou talvez uma tentativa de aprofundar  a caracterização dos “quietistas” e “ofensivistas”, assumindo as supostas táticas anteriores desses grupos como estratégias permanentes dos (agora nomeados) reformistas e esquerdistas, colocando também a Frente Única como estratégia. Ou talvez porque a Resistência se embrenhou em tantas definições e caracterizações pantanosas que estejam de fato confusos sobre o tema.

Outro elemento importante do texto está no primeiro parágrafo: “[derrubar Bolsonaro] Não se trata, evidentemente, de uma palavra de ordem para agitação ou para ação imediata, uma vez que não estão dadas as condições para derrubar o governo hoje”. Ou seja, aqui os os camaradas defendem que uma palavra de ordem não pode ser lançada caso não estejam dadas as condições para sua realização. Por que defender então uma Frente Única de Esquerda hoje? Seria ela mais provável agora do que era o Fora Bolsonaro à época? Estas perguntas ficam em aberto.

Mas voltemos à caracterização das duas táticas erradas (ou estratégias). A “estratégia quietista” adquire contornos melhores ao ser definida pelo objetivo da formação de uma frente ampla “com partidos da direita  e do centro, como o PDT, PSB e Rede”. É interessante notar também a caracterização do PCdoB à direita do PT devido as reuniões de Flávio Dino com Luciano Huck e FHC com a esperança (que o PT não tinha na época?!) de construir um bloco com o “centrão”. A lembrança de que estes “comunistas” sinalizaram aos golpistas é verdadeira, mas também é injusta com o PCdoB porque exclui o PT da época desta operação que Lula realiza desde sempre, e hoje com ainda mais vigor.

Para os “esquerdistas” sobra a crítica pela agitação do “fora governo”. E por que utilizam o estranho termo “fora governo” ao invés do concreto “Fora Bolsonaro” já chamado naquela época? Porque a Resistência naquele momento estava contra o “Fora Bolsonaro”, mas não queria se indispor com o número cada vez mais maior de brasileiros e brasileiras que já aceitavam a urgência desta pauta naquele momento. Em fevereiro de 2020 a consígnia “fora governo” não dizia nada, mas “Fora Bolsonaro” já dizia tudo. Importante lembrar também que um pedido de impeachment de Bolsonaro protocolado logo depois por parte da bancada federal do PSOL atingiu mais de um milhão de assinaturas em apoio[9], mas ao mesmo tempo gerou bastante desconforto entre a Resistência e seus aliados.

Um exemplo extremo desta posição (“quietista” talvez) foi a declaração dos camaradas de outra corrente do PSOL, o Subverta, que explicitamente atacou o pedido de impeachment e pediu a derrubada da então líder da nossa bancada federal: “Esse movimento esvazia a possibilidade de prosseguimento da liderança de bancada pela companheira Fernanda Melchionna, que havia sido escolhida por consenso”[10]. Felizmente a necessidade do Fora Bolsonaro – e  não do “fora governo” hipotético – foi assimilada poucas semanas depois[11] e esta polêmica deixou de existir entre nós.

Ainda sim seria injusto com a Resistência utilizar formulações do começo de 2020 para avaliar as posições atuais dos camaradas. Então avançaremos para escritos mais recentes do companheiro Valério Arcary:     

“(…) permanecem em disputa na esquerda brasileira três táticas sobre o que fazer diante do governo Bolsonaro. A primeira é a tática quietista. Deixar Bolsonaro se desgastar, ter paciência para esperar 2022, e apostar em uma Frente Ampla, amplíssima, até com setores das representações do capital que se associaram aos golpistas e apoiaram o impeachment, para a construção da candidatura Lula. Ela é defendida por setores da corrente majoritária do PT e pelo PCdoB.

A segunda é a tática da ofensiva permanente. Apostar que já estão maduras as condições de derrubada de Bolsonaro e afirmar, nas ruas e nas eleições, uma nova direção, considerando que a experiência com o PT e Lula já foi feita, e é possível ultrapassá-lo pela esquerda. Ela é defendida, há anos, com pequenas variações de ênfase, por um setor minoritário do PSOL liderado pelo MES, pelo PSTU, a UP e, mais recentemente, pelo PCB. Depois da vitória da mobilização nacional de 29 de maio, estas correntes, à exceção do PSTU, convocaram uma “Assembleia Nacional” virtual pelas redes sociais de uma nova Frente denominada “Povo na rua”, sem assumirem, publicamente, a responsabilidade de organizadores, para “decidir” as próximas iniciativas.

A terceira é defendida pela maioria do PSOL, pela esquerda do PT e do PCdoB, e pela Consulta Popular. Defende a necessidade da Frente Única de Esquerda para enfrentar o perigo do governo de extrema-direita, porque estamos há anos em uma situação defensiva. Aposta que a saída passa pela luta por um governo de esquerda com um programa de reformas estruturais e medidas anticapitalistas. Reconhece que Lula ainda é a liderança de maior audiência entre o povo.[12]

Em primeiro lugar, notemos que as “estratégias” do “quietismo” e a “ofensiva permanante” voltaram a ser novamente “táticas”, não se sabe porque. Mas o importante aqui é verificar que, para Valério, as mesmas polêmicas se mantém com algumas diferenças importantes, como a aceitação de que o PT também busca aliança com golpistas(!), o rebaixamento do PCB à tática da “ofensiva permanente” ou a quase redenção do PSTU em direção à política de Frente Única. O que se esconde nessa fórmula é o papel de Lula e do próprio lulismo, que atuou para colocar Dino e Freixo no PSB e opera de todo tipo de reunião com setores da direita, como Calheiros, Barbalho, Kassab e Maia.

A iniciativa “Povo na Rua”, que Valério busca materializar como a nova face da “ofensiva permanente”, demonstrou a necessidade de sua existência em poucas semanas. E nada melhor para indicar seu acerto do que a vacilação da própria Resistência quando um de seus dirigentes, em um curto espaço de tempo, deu duas declarações díspares logo após a grande mobilização do dia 19 de junho. Quando as burocracias sindicais convocaram novas manifestações para  mais de UM MÊS depois, no melhor estilo “quietista”, o camarada declarou “100% de acordo” com esta declaração do atual presidente do PSOL :

“O PSOL estará ao lado dos movimentos sociais, sindicatos e partidos de oposição na manifestação da campanha #ForaBolsonaro dia 24/7. Qualquer tentativa de dividir esse importante movimento é uma irresponsabilidade com nosso povo. Não contem comigo para aventuras desse tipo.”[13] 

No dia 22 de junho, o mesmo camarada fez uma defesa da posição petista, não somente aceitando a data distante para as manifestações, mas justificando-a com os mesmos argumentos da burocracia:

“O melhor teria sido um pouco antes. Mas o mais importante é ter um novo dia nacional unificado pelo Fora Bolsonaro. Por isso, a importância do 24 de julho, marcado pela esquerda e movimentos sociais.

Nas próximas 4 semanas, o desafio é ampliar pela base a construção da campanha Fora Bolsonaro, com plenárias, assembleias, agitação na massa e organização da vanguarda. Convencer mais gente, para levar mais de 1 milhão às ruas em 24 de Julho.

Em 2016, a direita não marcava ato toda semana, era 1 por mês, no máximo, assim, não desgastou o movimento disparando toda munição de uma vez. Levou milhões às ruas e derrubou Dilma. Fez isso preservando ampla unidade do lado de lá. Algo temos que aprender com nossos inimigos.”[14]

Hoje, as vésperas do dia 24/07, não nos surpreende que a burocracia não organizou as desejadas “plenárias, assembleias, agitação na massa e organização da vanguarda”, pois apesar da credulidade de alguns, este nunca foi o plano. Foram justamente os supostos “esquerdistas” aqueles que viram a abertura de espaço para a luta de rua contra Bolsonaro enquanto os defensores da suposta “tática correta” só o fizeram depois de autorizados pelas direções reformistas. Como veremos adiante, em caso de uma verdadeira política de Frente Única, o correto seria denunciar publicamente a posição “quietista” do oportunismo por servir de freio às mobilizações, e não amenizá-la ou justificá-la para preservar a “unidade”, e muito menos argumentar a seu favor. Se a Frente Única não suporta críticas públicas e taxa qualquer dissidência como divisionismo, então não faz sentido de existir para os comunistas.  A antecipação das manifestações para o dia 3 de Julho se demonstrou um acerto e a total inação das burocracias perante a necessidade de mobilização demonstraram – mais uma vez – seus reais interesses.

Por fim, é importante notar a formulação “Frente Única para enfrentar o perigo da extrema-direita”, já identificando a saída da situação em um “governo de esquerda” e declarando indiretamente Lula como seu líder. Esse movimento é errado porque aponta exclusivamente para o desfecho eleitoral da situação, ignora o papel da crise burguesa no processo de derrota de Bolsonaro e tenta apagar o fato de que o movimento contra Bolsonaro é cada vez mais amplo do que a desejada frente.

Não seria então necessário chamar a ampla unidade de ação contra Bolsonaro? Por que propor uma Frente Única de Esquerda quando é necessário um arco mais amplo contra a extrema-direita? Provavelmente porque a estratégia proposta é por um governo de esquerda, então trata-se de fortalecer uma posição anticapitalista para este futuro governo Lula “de esquerda”. Ficamos então com a pergunta: é possível um governo Lula com um programa de esquerda? A resposta nos parece óbvia.

Sintetizando a argumentação até aqui   

Em síntese, defendemos até aqui três posições: 1 – a Resistência utiliza arbitrariamente conceitos distorcidos para justificar sua localização política; 2 – em consequência, confundem a vanguarda transpondo mecanicamente táticas relacionadas à tomada do poder para um debate sobre mudança de governo; 3 – ao fazê-lo, também transpõe mecanicamente a tática da Frente Única para os dias de hoje e a transformam em estratégia, confundindo-a com a unidade de ação contra a extrema-direita e fazendo o contrário do que propunha esta tática em sua formulação original.  Isso deriva da influência que o lulismo tem sobre suas principais elaborações.

PARTE DOIS

As teses sobre a Frente Única

Para avançar na argumentação é necessário agora nos debruçarmos sobre a questão da Frente Única, martelada pela Resistência como a pedra filosofal que resolveria nossos problemas atuais. O Esquerda Online publicou uma série de artigos do camarada Bruno Rodrigues reconstruindo detalhadamente a origem e a história desta tática, que à época do 3º Congresso da Internacional se enfrentava com a tática de Bela Kun. Para que nosso texto não ocupe ainda mais espaço, vamos aqui diretamente a um trecho que consideramos importante para nosso debate:   

“(…)se o III Congresso não avançou em uma sistematização pronta e acabada sobre a nova tática, ele aplainou o caminho para que, no IV Congresso, esta fosse finalmente sistematizada na forma de teses e com a definição que conhecemos hoje, tema que será abordado no próximo artigo. Todavia já é possível afirmar que nascia aí a tática da Frente Única Operária já que a ideia central inerente a ela foi aprovada, ou seja, a necessidade de batalhar pela conquista da hegemonia comunista entre a maioria dos trabalhadores, admitindo-se sob certas condições a unidade com os demais partidos proletários.”[15]

Aqui está a ideia central da tática da Frente Única: lutar pela conquista da hegemonia admitindo, sob certas condições, a unidade com os demais partidos proletários. E quais seriam estas condições? Para descobrir isso temos que ir às teses originais sobre a Frente Única adotadas no 4º Congresso da Internacional (1922), que começam assim[16]:

“1 – O movimento internacional de trabalhadores está atualmente passando por uma fase de transição particular, que apresenta tanto a Internacional Comunista como um todo quanto suas seções separadas com novos e importantes problemas táticos.

Basicamente, esta etapa pode ser caracterizada da seguinte forma: a crise econômica mundial está piorando; o desemprego está crescendo; em quase todos os países a capital internacional passou a uma ofensiva sistemática contra os trabalhadores, cuja principal evidência são as tentativas cínicas e abertas dos capitalistas de reduzir os salários e baixar o padrão de vida geral dos trabalhadores; e a falência da paz de Versalhes está se tornando cada vez mais aparente para a grande maioria dos trabalhadores. É óbvio que, a menos que o proletariado internacional derrube o sistema burguês, uma nova guerra imperialista, ou mesmo várias dessas guerras, é inevitável. A conferência de Washington é uma confirmação eloqüente disto.

2 – Um certo renascimento de ilusões reformista que, devido a toda uma série de circunstâncias, havia começado entre setores bastante amplos de trabalhadores está agora, sob a pressão da realidade, começando a ceder lugar a um humor diferente. As ilusões democráticas e reformistas que ressurgiram, após o fim da carnificina imperialista, entre alguns trabalhadores (por um lado os trabalhadores mais privilegiados e por outro os trabalhadores mais atrasados, menos experientes politicamente) estão se desvanecendo, não tendo florescido. O rumo futuro e o resultado do “trabalho” da conferência de Washington vai perturbar ainda mais estas ilusões. Se há seis meses era possível falar com alguma justificação de um movimento geral para a direita entre as massas trabalhadoras da Europa e da América, então hoje é possível afirmar com certeza que um movimento oposto à esquerda começou.

3 – Por outro lado, sob a influência do crescente ataque capitalista, há uma nova disposição entre os trabalhadores – uma luta espontânea pela unidade, que literalmente não pode ser contida, e que é um desenvolvimento paralelo ao crescimento gradual da confiança sentida pela ampla massa de trabalhadores nos comunistas. Um número cada vez maior de trabalhadores só agora começa a apreciar a coragem demonstrada pela vanguarda comunista em se lançar na luta pelos interesses da classe trabalhadora, mesmo quando a grande maioria dos trabalhadores ainda era indiferente ou mesmo hostil ao comunismo. Um número cada vez maior de trabalhadores está agora se convencendo de que somente os comunistas defendiam seus interesses econômicos e políticos, e que o faziam nas circunstâncias mais difíceis, fazendo, às vezes, os maiores sacrifícios. É por isso que há mais uma vez um crescente respeito e confiança na intransigente vanguarda comunista da classe trabalhadora, agora que mesmo as camadas mais atrasadas dos trabalhadores viram através das esperanças reformistas vazias e compreenderam que sem luta não haverá como escapar da investida dos gângsteres capitalistas.”

Identificamos aqui três pontos importantes sobre o contexto da formulação: 1 – a constatação da deterioração econômica e da crise da “paz de Versalhes” que organizou geopoliticamente a Europa após a Iª Guerra Mundial; 2 – a constatação de que as ilusões democráticas e reformistas majoritárias entre os trabalhadores poderiam se desvanecer; 3 – o surgimento de uma disposição de luta pela unidade com os reformistas como resposta aos crescentes ataques capitalistas. Ou seja, as teses partem do princípio de que a disposição de unidade dos trabalhadores deveria ocorrer em paralelo ao derretimento das ilusões reformistas entre a classe porque estes não seriam consequentes com a luta anticapitalista. É preciso notar que o movimento comunista mundial de então estava há pouco tempo da Revolução Russa, que sinalizou a abertura de uma época revolucionária, mas há menos tempo ainda das derrotas revolucionárias na Alemanha, exigindo uma nova postura frente à questão do poder e à atuação sobre as massas influenciadas pelo oportunismo. Sigamos:

4 – Os partidos comunistas podem e devem agora colher os frutos da luta que travaram anteriormente, em circunstâncias totalmente desfavoráveis de apatia em massa. Mas à medida que a confiança cresce constantemente naqueles que são mais intransigentes e militantes, nos elementos comunistas da classe trabalhadora, as massas trabalhadoras como um todo estão experimentando um anseio sem precedentes pela unidade. As novas camadas de trabalhadores politicamente inexperientes estão entrando em atividade há muito tempo para alcançar a unificação de todos os partidos de trabalhadores e até mesmo de todas as organizações de trabalhadores em geral, esperando desta forma fortalecer a oposição à ofensiva capitalista. Estas novas camadas de trabalhadores, que freqüentemente não participaram ativamente da luta política, estão agora encontrando uma nova maneira de testar os planos práticos do reformismo à luz de sua própria experiência. Assim como estas novas camadas, seções consideráveis de trabalhadores pertencentes aos velhos partidos social-democratas não estão mesmo agora dispostos a aceitar os ataques dos social-democratas e dos centristas na vanguarda comunista.

Aqui verificamos uma combinação entre o crescimento da confiança entre os “ mais intransigentes e militantes” ao mesmo tempo em “que as massas trabalhadoras estão experimentando um anseio sem precedentes pela unidade”, da mesma forma que “seções consideráveis de trabalhadores pertencentes aos velhos partidos social-democratas não estão dispostos a aceitar os ataques dos social-democratas e dos centristas na vanguarda comunista”. Veja-se bem, uma parte importante dos trabalhadores já não aceita os ataques social democratas na vanguada comunista, ou seja, nesse contexto os comunistas voltavam a se moralizar – ou buscar sua moralização – perante o oportunismo majoritário na classe. A disposição da unidade dos trabalhadores não surge por encararem o reformismo como a saída mais viável para os ataques capitalistas, ao contrário, surge pelo avanço destas novas camadas em direção à necessidade de mudanças mais profundas que arrastariam consigo os reformistas ou exporiam sua verdadeira natureza.

Nesse contexto, o chamado de unidade se dá pelo motivo oposto ao da Resistência de hoje. Enquanto na tática da Frente Única de 1922 os comunistas tinham autoridade perante o reformismo e buscavam impor seu programa contra o capital em uma estratégia de poder, mesmo após duras derrotas recentes, na tática atual da Frente Única a autoridade dos comunistas perante o oportunismo não é capaz de garantir nenhum aspecto do programa anticapitalista, relegando-se ao espaço de “consciência de esquerda”. A tática é aplicada de forma invertida porque abstrai a questão do poder e acaba fortalecendo os oportunistas ao invés de arrastá-los ou expô-los perante a classe.

Esta inversão não é um problema menor. Diante das ilusões presentes nos dias de hoje, o que ocorre é que a maioria da direção do PSOL, encabeçada pela Primavera Socialista, com o verniz teórico da Resistência, caminha em direção ao programa do PT e a sua diluição. Já o PT caminha em direção a um programa com a burguesia, muito mais rebaixado que a “carta ao povo brasileiro” de 2002. Por isso, a Resistência e Valério não são capazes de colocar em destaque os aspectos programáticos que motivariam tal “unidade anticapitalista”, e trocam estes aspectos pelo perigo da extrema-direita. Não deveríamos falar então de unidade de ação antifascista?

Em 1922, os comunistas não deixaram de lado seu programa para se dissolver no anseio geral pela unidade, ao contrário, afirmaram a unidade através de seu programa, apresentando-o como única forma concreta de conquistar as mudanças almejadas por aqueles que faziam a experiência com o reformismo.

Como vemos em outro trecho da tese 4:

“(…)Eles [os trabalhadores] não formulam claramente seus planos e aspirações, mas em geral o novo humor dessas massas se resume a um desejo de criar uma frente unida e fazer com que os partidos e sindicatos da Segunda e da Internacional de Amsterdã lutem ao lado dos comunistas contra o ataque capitalista. Nesta medida, este estado de espírito é progressivo. O ponto mais importante é que sua fé no reformismo foi quebrada. Dada a situação geral do movimento operário atual, qualquer ação séria de massa, mesmo que comece apenas com slogans parciais, inevitavelmente trará à tona as questões mais gerais e fundamentais da revolução. A vanguarda comunista só pode ganhar se novas camadas de trabalhadores forem convencidas por sua própria experiência de que o reformismo é uma ilusão e que o compromisso é fatal.”

Vemos aqui novamente a enorme distância entre a tática da Frente Única histórica e sua versão empobrecida pela Resistência. Ora, o centro da política parte da caracterização de que a “fé no reformismo foi quebrada” ou estaria sendo perante sua incapacidade de seguir na luta contra o capital, exatamente o argumento contrário do utilizado pelos camaradas quando justificam a frente com o PT por sua força no movimento de massas, e não pela possibilidades de diferenciação e deslocamentos que esta unidade permitiria. Novamente verificamos aqui o desvio mecanicista que abstrai a questão do poder e ignora este detalhe fundamental, apostando nesta tática pelo motivo contrário daquele formulado historicamente.

Vejamos agora o outro lado, nas teses sobre as posições reformistas no contexto do Congresso de 1922:

“6 – Os partidos comunistas do mundo, tendo garantido total liberdade organizacional para estender sua influência ideológica entre as massas trabalhadoras, estão agora tentando em todas as oportunidades alcançar a mais ampla e completa unidade possível dessas massas na atividade prática. Os heróis da Segunda e da Internacional de Amsterdã pregam a unidade em palavras, mas a negam em ações. Agora que os comprometedores reformistas de Amsterdã fracassaram em sua tentativa organizacional de suprimir a voz de protesto, crítica e aspirações revolucionárias, eles estão procurando uma saída para seu próprio impasse e estão trazendo divisões, confusão e sabotagem organizada para a luta das massas trabalhadoras. Uma das tarefas mais importantes que os comunistas enfrentam é expor publicamente estas novas formas de traição antigas.

7 – Entretanto, os diplomatas e líderes da Segunda e Segunda Internacional têm sido forçados, ultimamente, por sua vez, por profundos processos internos que decorrem da posição econômica geral da classe trabalhadora na Europa e América, a empurrar a questão da unidade para o primeiro plano. Embora, para os setores inexperientes dos trabalhadores que acabam de se tornar politicamente conscientes, o slogan da frente unida é uma expressão genuína de seu desejo muito real de reunir as forças da classe oprimida contra o ataque capitalista, para os líderes e diplomatas da Segunda Internacional e da Segunda e Meia, a adoção do slogan da unidade representa uma nova tentativa de enganar os trabalhadores e uma nova maneira de atraí-los para o antigo caminho da colaboração de classe.(…)”

A tese 6 reafirma a posição clássica do reformismo perante os marxistas revolucionários, podendo sua atualidade ser verificada na postura dos velhos governos petistas contra o PSOL, e declara que uma tarefa na tática da Frente Única deve ser expor publicamente “estas novas formas de antigas traições” porque estas romperam a unidade, ou seja, romperam com a luta anticapitalista. A cada movimento de traição programática dos oportunistas durante a Frente Única, a Internacional defendia a denúncia pedagógica perante os trabalhadores.

A tese 7 demonstra que os reformistas da época, que estavam contra qualquer unidade com os revolucionários, foram obrigados a empurrar “a questão da unidade para o primeiro plano”, adotando slogans de unidade em mais uma tentativa de ludibriar a classe trabalhadora. Lembremos novamente, a unidade em base à posições programáticas mínimas, não a “unidade” em abstrato. Novamente a diferença com nosso momento atual é enorme, pois Lula já fez questão de dizer aos quatro ventos que deseja uma ampla frente com a burguesia para voltar ao poder, inclusive arrastando personagens como Marcelo Freixo para fora do PSOL e Flávio Dino para fora do PCdoB. E também reafirma que seu programa não tem nenhum traço anticapitalista. Enquanto os partidos reformistas da época eram obrigados a buscar pela aparência representada por estes slogans de unidade, os oportunistas de hoje recusam qualquer unidade programática porque determinadas propostas radicais não podem atrapalhar seu arco de alianças.

Isso coloca a Resistência em uma posição insólita. Afinal, agitar a unidade estratégica com Lula sem nenhuma garantia programática ajuda ou atrapalha na construção de uma alternativa independente? Para nós a resposta esta evidente.

Voltando às teses, os comunistas tinham então a tarefa de criticar às capitulações do reformismo ao longo do desenvolvimento da Frente Única pois seu objetivo primordial era justamente desmascará-los perante os trabalhadores. Frente à capitulação oportunista, a tática da Frente Única previa a denúncia pública, sem nunca colocar a “unidade” na frente do próprio programa. Nas teses sobre a Frente Única apresentadas ao Congresso de 1922, Trotsky deixa ainda mais evidente sua posição[17]:

“1 – O objetivo do Partido Comunista é dirigir a revolução proletária. Com o fim de levar o proletariado rumo à conquista direta do poder e de obter essa conquista, o Partido Comunista deve se apoiar na imensa maioria da classe operária. Enquanto não tenha essa maioria, deve lutar para obtê-la. Não pode esperar obtê-la se não constitui uma organização independente, com um programa claro e uma severa disciplina interna. Por isso teve que se separar, além de pela via de ter sua própria organização, também ideologicamente, dos reformistas e dos centristas que não aspiram à revolução proletária, nem sabem e nem querem preparar as massas para esta revolução e se opõem a esse trabalho através de toda sua forma de atuar. Aqueles militantes do Partido Comunista que deploram essa separação em nome da unidade das forças e da unidade da frente operária mostram com isso que não compreendem nem o ABC do comunismo e que somente por circunstâncias fortuitas pertencem ao Partido Comunista.

2 – (…) Assim, portanto, a questão da frente única, tanto por sua origem como por sua essência, não é em absoluto uma questão sobre as relações entre as frações parlamentares comunista e socialista, entre os comitês centrais de um partido e outro, entre a Humanité e o Populaire [jornais do PCF e do PS, respectivamente]. O problema da frente única – apesar da divisão inevitável nessa época entre as diversas organizações políticas que se fundamentam na classe operária – surge da necessidade urgente de assegurar à classe operária a possibilidade de uma frente única na luta contra o capital.

(…)

7— A política de frente única, contudo, não traz em si mesma garantias para a unidade de fato em todas as ações. Pelo contrário, em numerosas ocasiões, pode ser que na maior parte delas, o acordo das diferentes organizações só chegará a ser cumprido pela metade ou em nada. Mas é necessário que as massas em luta possam se convencer em todas as ocasiões que a unidade de ação não fracassou por culpa de nossa intransigência formal, mas sim por culpa da ausência de uma verdadeira vontade de luta dos reformistas.”

Mais uma vez torna-se evidente a tática da Frente Única como uma possibilidade de unidade na luta contra o capital, por isso se destina ao trabalho sobre os reformistas que vacilariam nessa direção. A confusão entre esta tática e a necessária unidade de ação com os mais diversos setores sociais em cada determinado momento também é parte da confusão de fundo da Resistência. Buscam uma Frente Única para derrotar Bolsonaro quando é necessária a mais ampla unidade de ação contra a extrema-direita, e orientam sua proposta na direção de reformistas que não a desejam.

Uma consigna curiosa foi vista nas faixas da Resistência recentemente e resume perfeitamente esta confusão: “Unir a esquerda para derrotar Bolsonaro”. Ou seja, é preciso primeiro a unidade com Lula para que Bolsonaro seja derrotado. O que está subentendido é “a direita até pode derrotar Bolsonaro, mas queremos que a esquerda unida com Lula o derrube para termos um novo governo em melhores condições programáticas”. Esse raciocínio é bastante coerente com a lógica interna desse pensamento, não fosse pela questão permanente: qual programa com Lula?

Não há nenhuma dúvida que se deve votar em qualquer um contra a extrema-direita caso esta apresente risco. Nesse sentido, seria admissível votar em Lula no primeiro turno de 2022 caso houvesse o risco da vitória de Bolsonaro, e será admissível que o PSOL retire sua candidatura na hipótese improvável de um ressurgimento desse risco durante as eleições. Esta armação simples parte da necessidade de unidade de ação contra Bolsonaro e não há debate sobre ela. Mas recusar uma candidatura própria do PSOL em favor de Lula em composição com a burguesia não tem nada a ver com a tática da Frente Única, é capitulação em troca de acesso a determinados espaços mais “amplos” dos quais os camaradas ficaram tanto tempo afastados.

Por fim, vejamos o resumo feito por Nahuel Moreno sobre a tática da Frente Única:

“De todo esto se derivan una serie de características de la táctica del frente único, que podemos sintetizar así:

Se plantea cuando existe una determinada relación de fuerzas entre el partido revolucionario y el reformista, siendo aquél más débil que éste pero sin constituir una minoría insignificante del movimiento obrero.

Se plantea cuando el movimiento obrero está luchando para defenderse de una ofensiva capitalista.

Está dirigida a los partidos oportunistas con influencia mayoritaria en el movimiento obrero en la época de Lenin y Trotsky eran los socialdemócratas— cuando éstos se ven obligados a apoyar las movilizaciones parciales de los trabajadores.

Es una invitación —no una exigencia— a la lucha conjunta e inmediata alrededor de los problemas que sufren los trabajadores.” [18]

Novamente vemos aqui as mesmas condições para a realização da Frente Única, quando “os trabalhadores estão lutando contra uma ofensiva capitalista” e os oportunistas se “vêem obrigados a apoiar as mobilizações”. Aqui também a questão do programa surge como essencial na tática, afinal  toda resposta a uma ofensiva capitalista deve ter algum norte programático e, nesse caso, os oportunistas seriam obrigados a incorporar temporariamente partes desse programa para se adequar aos trabalhadores em luta. Não se trata de uma unidade de ação simplesmente democrática com os oportunistas, que deve ser feitas sempre que necessário, se trata de uma unidade contra o capital  que por sua própria natureza exponha as contradições reformistas.  

Se os oportunistas de hoje aceitassem algum programa mínimo anticapitalista, haveria a possibilidade da Frente Única. Como a questão da luta anticapitalista, do programa de ruptura, não é tema das negociações por unidade, a transposição da tática de Frente Única torna-se um esforço de autojustificação perante a capitulação ao oportunismo.  

PARTE TRÊS

Em conclusão: as consequências políticas dos erros 

Um erro metodológico pode ter consequências drásticas, e esse é o caso do erro da Resistência. Acima vimos como a tática da Frente Única foi formulada em um momento específico no qual as derrotas revolucionárias se combinavam ao movimento do oportunismo num momento histórico onde este setor sustentava momentaneamente posições de confronto ao capital, o que permitia alguma unidade programática visando a disputa do poder. A Resistência utiliza o conceito da Frente Única para fazer exatamente o oposto ao abstrair a questão do poder, reduzindo as diferenças programáticas a detalhes que não podem impedir a “unidade” e fortalecendo o oportunismo em prol de uma impossível “frente de esquerda” com o PT. Ao fazer isso, os camaradas evidentemente diminuem a proporção de suas críticas para não atrapalhar esta “unidade”, construindo um bloco político com setores burocráticos dentro e fora do PSOL. 

A adaptação aos setores do PSOL que flertam com a diluição programática no lulismo leva a Resistência a apoiar medidas burocráticas na disputa de rumos do Partido. A votação para a realização do congresso partidário, em meio a pandemia e a luta contra o governo, sem a obrigatoriedade de debates, dando mais peso para os filiados que para os militantes, foi a expressão mais aberta dessa adaptação.

Os camaradas se defendem justificando que a unidade da esquerda é necessária para derrotar o governo de extrema-direita. Formalmente faz sentido, afinal uma esquerda coesa e unificada contra o fascismo pode infringir mais dano que uma esquerda dispersa em desvios esquerdistas. Mas aí vemos a ironia da história quando nos recordamos que os próprios setores oportunistas majoritariamente não querem a derrubada do governo porque apostam exclusivamente na via eleitoral. Perante esta contradição, a tática da Frente Única de 1922 deixa claro que a tarefa é desmascarar os oportunistas que – mais uma vez – fazem o jogo da burguesia e involuntariamente colaboram com desenvolvimento da besta fascista.

Mas a Resistência faz o contrário. Frente à grandes capitulações, os camaradas reservam poucas linhas, e continuam suas baterias principais voltadas contra os “esquerdistas” que cometem o grande pecado de afirmar o programa em um momento de “unidade”. Na formulação das “três táticas”, o “quietismo” é ruim porque aposta na inação, mas quem atrapalha tudo é a “ofensiva permanente”, em uma total inversão do espírito original da tática da Frente Única.

Esta postura tem o efeito contrário do planejado porque enfraquece uma posição comunista programática, e este processo não é novo. Já nas eleições de 2018, o programa à presidência do PSOL foi corrompido no tema da dívida pública e este fato grave afastou do PSOL justamente setores da vanguarda que devíamos buscar:

Em 2018, durante a campanha eleitoral, a Auditoria da Dívida Pública ficou fortemente desapontada com a campanha presidencial do candidato do PSOL, Guilherme Boulos. Esta última, com o acordo da maioria da direção do PSOL, deixou de lado a questão do pagamento da dívida. Considerou que a continuação do pagamento da dívida já não constituía um problema real. Isto criou um verdadeiro mal-estar no PSOL, para dizer o mínimo.”[19]

Esta mudança não foi um mero detalhe, foi uma alteração profundamente regressiva na posição do PSOL em relação ao capital portador de juros, mas teve uma resposta tímida dos camaradas que não queriam prejudicar a construção da “Frente Única”. Em outro exemplo, a Resistência esteve contra fazer o debate sobre a candidatura presidencial do PSOL em 2022 argumentando que “não era o momento de debater eleições”, o mesmo que diziam os oportunistas enquanto operavam negociações eleitorais reservadas e sem qualquer afirmação programática. Quando a dinâmica das negociações com Lula e o PT obrigou o companheiro Guilherme Boulos a se colocar como candidato ao governo de SP para não ser ultrapassado por Haddad[20],a Resistência novamente foi tímida e não fez qualquer diferenciação prática, nem sobre o recuo do nosso ex-presidenciável, nem sobre o método desse recuo, muito menos sobre qualquer conteúdo programático.

Nesse processo de diluição totalmente contrário à tática da Frente Única, a Resistência hoje já assume a possibilidade de votar em Lula no primeiro turno mesmo que não exista nenhum aspecto anticapitalista em seu programa nem possibilidade de vitória de Bolsonaro na primeira volta[21]. Isso não é menor porque a Resistência assume a possibilidade de votar em Lula com qualquer programa e em qualquer aliança eleitoral, tapando os ouvidos paras todas as declarações de Lula enquanto anunciam uma Frente Única de Esquerda e se voltam aos esforços em prol desta missão impossível. Apesar das profundas diferenças de conteúdo, esta é uma postura metodológica curiosamente parecida com aquela praticada pelos camaradas por tantos anos em seu antigo partido.

No PSOL, esta alternativa oportunista se expressa não somente em um apoio automático à candidatura de Lula, mas na participação do PSOL em um possível governo petista. Correntes como Primavera Socialista e Revolução Solidária tem uma posição sobre as possibilidades da participar de governos de conciliação de classes, inspirados em experiências reformistas recentes como o Podemos espanhol ou o próprio PT. Já defendem participar das administrações de Mauá e Diadema em São Paulo e sequer se posicionam sobre participar num eventual governo Lula. Já a Resistência não, declarou firmemente que não comporia um hipotético 3º governo Lula e utiliza esta afirmação como prova de que de sua posição é justa.

Mas nossa questão fundamental é sobre qual lugar terá o PSOL na conjuntura. Se deve “pescar em águas turvas”, tal qual um pescador de ilusões, afirmando que o PT pode ser o vértice da reorganização da esquerda e de um projeto anticapitalista no país? Porque a Resistência não polemiza diretamente com Lula, lhe fazendo exigências programáticas reais? Ou polemizando com sua estratégia de levar o descontentamento das ruas para a eleição de 2022? De forma mais grave, o que fará a Resistência na hipótese de uma composição entre o PT e setores burgueses e de centro-direita?

Agitar um programa nas nuvens não seria “abster-se de apresentar suas posições”, como criticavam as teses da Internacional? É evidente que sim, mas fazer isso colocaria a Resistência em oposição direta à burocracia petista porque esta não tem espírito democrático nem quer uma frente programática, logo não aceitaria tal “divisionismo” em suas fileiras de “unidade”. Resta então o papel de “consciência de esquerda” do oportunismo, defendendo uma posição já derrotada antes de nascer para futuramente lamentar de novo os erros do passado.

Se Bolsonaro vai forte para as eleições, devemos apoiar qualquer candidato que possa derrotá-lo. Se Bolsonaro vai fraco, devemos apresentar um programa anticapitalista que dê respostas aos problemas concretos do povo, afirmando um polo e nos diferenciando do oportunismo. Apoiar um governo de conciliação de classes, com um programa capitalista sem o risco do fascismo para não cair na marginalidade é um caminho oportunista que tem tragado direções revolucionárias há mais de um século.

O PSOL é um patrimônio estratégico, ainda que minoritário, que possibilitou a unidade de setores anticapitalitas e revolucionários para atuar nas diferentes situações políticas desde sua fundação em 2004. A adesão dos companheiros que hoje são parte da Resistência ao PSOL foi um produto dessa acumulação. Os próximos passos do Partido dependem de uma luta política aberta agora, para a qual chamamos os camaradas da Resistência a tomarem parte, em prol da estratégia socialista e revolucionária cuja defesa compartilhamos.


[1]    http://www.archivo.sobhonduras.org/seca/obreros.geo/libros/pmpl_2.htm

[2]    https://esquerdaonline.com.br/2019/11/08/lula-livre-nem-quietismo-nem-ofensiva-permanente-em-defesa-da-frente-unica-de-esquerda/

[3]    https://www.marxists.org/portugues/kautsky/1918/mes/ditadura.htm

[4]    https://www.jacobinmag.com/2019/04/karl-kautsky-democratic-socialism-elections-rupture

[5]    BROUÉ, Pierre. História da Internacional Comunista. Editora Sundermann. 2007. Pgs 123,124

[6]    Idem. Pg 124

[7]    https://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/esquerdismo/index.htm#topp

[8]    https://esquerdaonline.com.br/2020/02/04/estrategia-e-tatica-para-derrotar-bolsonaro/

[9]    https://sul21.com.br/ultimas-noticiaspolitica/2020/03/pedido-de-impeachment-de-bolsonaro-alcanca-um-milhao-de-assinaturas/

[10]  https://subverta.org/2020/03/22/fortalecer-o-sus-e-garantir-direitos-fundamentais-fora-bolsonaro/

[11]  https://esquerdaonline.com.br/2020/05/20/a-importancia-do-pedido-de-impeachment-popular-de-bolsonaro/

[12]  https://esquerdaonline.com.br/2021/06/03/tres-taticas-dividem-a-esquerda-brasileira/

[13]  https://web.facebook.com/gabriel.freitascasoni/posts/4404041869646880

[14]  https://web.facebook.com/gabriel.freitascasoni/posts/4398162926901441

[15]  https://esquerdaonline.com.br/2021/05/19/em-direcao-a-tatica-da-frente-unica-operaria-o-iii-congresso-do-komintern/

[16]  https://www.marxists.org/history/international/comintern/4th-congress/united-front.htm

[17]  https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1922/02/frente.htm

[18]  http://www.nahuelmoreno.org/escritos/la-traicion-de-la-oci-1982.pdf

[19]  https://www.cadtm.org/Brasil-de-Lula-a-Bolsonaro-17922

[20]  https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/04/13/boulos-lana-pr-candidatura-para-governo-de-sp-e-cobra-unidade-da-esquerda.ghtml

[21]  https://movimentorevista.com.br/2021/07/apoio-lula-mesmo-com-a-direita-polemica-com-a-resistencia/


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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!