Privatização dos Correios: enquanto reforça o discurso golpista, Bolsonaro amplia o entreguismo

Privatização dos Correios: enquanto reforça o discurso golpista, Bolsonaro amplia o entreguismo

Enquanto Guedes agrada os “mercados” com a entrega dos Correios, Bolsonaro segue as ameaças de golpe e suas negociatas com a escória parlamentar.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 5 ago 2021, 21:27

Na última segunda-feira (2), o ministro Fábio Faria fez um pronunciamento em cadeia nacional para desinformar o país: segundo o ministro, que tem sido uma espécie de porta-voz de Bolsonaro, a privatização dos Correios (ECT) seria a última chance de sobrevivência da companhia. Pintando um quadro sombrio, o pronunciamento mentiroso apenas antecipava a votação da privatização na Câmara, para a qual trabalharam Paulo Guedes e Arthur Lira nos últimos meses. Hoje (5), com 286 votos favoráveis e 173 contrários, a privatização foi aprovada pelos deputados e segue para votação no Senado.

A privatização dos Correios é mais um crime do governo Bolsonaro contra o Brasil. Estabelecidos no país desde o século XVII, os serviços postais foram organizados na ECT desde 1969. A empresa secular tem cumprido historicamente um papel de destaque na integração nacional, no desenvolvimento econômico e no acesso às comunicações no país. Com seus 90 mil trabalhadores, são os Correios os únicos que levam aos rincões mais distantes do país itens essenciais, documentos e encomendas.

Mas a entrega dos Correios atende aos interesses do financismo, desesperado pela manutenção dos lucros de seus trilhões de dólares imobilizados pela crise, em busca de ativos baratos e rentáveis. Desse modo, Guedes pretende agradar os “mercados” enquanto Bolsonaro segue suas ameaças diárias de golpe e mantém suas negociatas com a escória parlamentar.

O governo da pilhagem e da destruição nacional sob os aplausos de um Congresso venal

Bolsonaro e Guedes pretendem liquidar um patrimônio construído por gerações de brasileiras e brasileiros. A proposta de privatização é escandalosa. O governo argumenta que a empresa necessita de investimentos em digitalização que requereriam aportes do Tesouro. Trata-se de uma mentira descarada, já que é a ECT quem repassa recursos à União, sua controladora. Como mostrou reportagem do portal UOL, nos últimos 20 anos, a ECT só teve um breve período de prejuízos entre 2013 e 2016. Nestas duas décadas, em valores atualizados, a empresa lucrou R$ 12,4 bilhões e repassou à União R$ 9 bilhões em dividendos. Somente em 2020, a empresa lucrou R$ 1,6 bilhão. Além de ser uma empresa lucrativa, os Correios prestam um serviço essencial e subsidiam tarifas sociais e a manutenção de agências e serviços postais em áreas longínquas.

Então, por que privatizar a ECT agora? Nos últimos anos, tem-se assistido a um processo de concentração de capitais e digitalização no varejo, muito acelerado durante a pandemia da Covid-19. Gigantes corporações transnacionais passaram a concentrar serviços de comércio e logística, quebrando pequenos negócios locais e gerando desemprego e superexploração do trabalho. Jeff Bezos, controlador da Amazon, por exemplo, tornou-se o maior bilionário do planeta e agora se dedica a aplicar parcela de seu patrimônio em viagens espaciais enquanto sua empresa amplia o domínio sobre o varejo em diversos países do mundo.

No Brasil, outras grandes empresas de capital aberto ampliaram sua atuação no comércio eletrônico e se interessam pela consolidação do setor de entregas e logística, no qual os Correios cumprem um papel decisivo. Trata-se de um setor estratégico e uma área fundamental para a acumulação capitalista. Privatizar os Correios será um passo decisivo no aumento do desemprego e precarização do trabalho não apenas no setor postal e de logística, mas poderá ser uma alavanca fundamental da consolidação de todo o setor de comércio e serviços, o que mais emprega, num cenário de alto desemprego e empobrecimento do povo brasileiro.

Como se não fosse o bastante, a privatização é uma negociata típica: o projeto aprovado pela Câmara prevê estabilidade por apenas 18 meses para as dezenas de milhares de trabalhadores da empresa, mas o comprador terá cinco anos de exploração exclusiva dos serviços prestados pela ECT. Ou seja, o projeto cria um monopólio privado dos serviços enquanto dá liberdade para o comprador demitir e reestruturar a companhia. Trata-se de um crime contra o povo brasileiro e os trabalhadores que constroem diariamente os Correios.

Basta de golpe e entreguismo! Fora, Bolsonaro!

Não é por acaso que a aprovação da privatização ocorra num momento em que Bolsonaro encontra-se em crescente isolamento, fustigado pelas investigações da Covid-19, que escancaram a política genocida do governo no enfrentamento à pandemia e a corrupção descarada nas negociações de vacinas num Ministério da Saúde ocupado por militares, pastores, lobistas e picaretas de todo tipo. A situação agravou-se nos últimos dias com a escalada da retórica golpista de Bolsonaro, agora alvo de investigação no TSE e no STF.

A privatização de empresas estatais, a entrega da política monetária à banca com a “independência” do Banco Central, a desregulação de setores econômicos, a legalização da grilagem, o estímulo à ampliação da fronteira agrícola, à mineração e ao uso de pesticidas, entre tantas outras mazelas deste governo, são elementos do programa de destruição nacional de Guedes e Bolsonaro: abrindo oportunidade de negócios e transferindo propriedade pública, pretendem receber o apoio da burguesia brasileira e transnacional para uma aventura golpista, enquanto alimentam sua base parlamentar venal e sua escória de arrivistas. É hora de dar um basta à destruição dos direitos de nosso povo e à escalada golpista de Bolsonaro! A mobilização contra a privatização dos Correios precisa ganhar força, unindo-se à luta nas ruas pelo fora, Bolsonaro para exigir que o Senado barre este crime contra o país e que a Câmara instale imediatamente o impeachment deste governo genocida, corrupto e golpista!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!