Por uma “quarta via”
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Por uma “quarta via”

Ex-presidente da UNE analisa cenário e possibilidades eleitorais para 2022.

Jean Marc von der Weid 7 out 2021, 15:12

São passados vinte dias sem que Bolsonaro apronte uma provocação às instituições republicanas e à democracia. Deve ser um recorde no comportamento do energúmeno, que provocou três crises por mês, em média, desde que tomou posse. Ele não deixou de afrontar as vítimas da pandemia, declarando que os mortos “apenas partiram” alguns dias antes de sua hora. Não deixou de envergonhar os brasileiros e brasileiras, agora em performance mundial na sede da ONU e na cidade de Nova Iorque. Seu governo continua passando a boiada para facilitar as agressões ao meio ambiente, sempre alcançando novos recordes de desmatamento e de queimadas. Mas as ameaças de golpe recuaram das manchetes depois da carta de arrego pós 7 de setembro, ditada ou escrita por (logo quem!) Temer, o golpista mais bem sucedido em tempos recentes.

O rescaldo dos atropelos do dia da Independência foi o desgaste do mito com a sua tropa mais aguerrida, que deve estar botando as barbas de molho e refletindo se acompanhar os arreganhos do chefe não é se arriscar a ficar sozinha na chuva ou pendurada na brocha enquanto ele adia as suas manobras golpistas. O eleitorado raiz (os fanáticos) vai se estreitando com a piora constante das condições de vida e, segundo algumas pesquisas, está limitada a 11 ou 12% dos votantes. Os que continuam apostando, apesar de terem algumas restrições, em Bolsonaro, seguem caindo lentamente, ficando nos 22 a 25%, mais pela rejeição a tudo mais do que por uma aprovação firme do energúmeno. Entretanto, estes números ainda levam Bolsonaro para o segundo turno contra Lula, já que a tão procurada “terceira via” ou “nem/nem”, continua patinando nos números ridículos de Ciro, Dória, Mandeta, Moro, etc. Todos somados não chegam a 20% e, obviamente, pelo menos até agora, não têm perspectiva de se juntarem. Ao contrário, continua a busca por novos nomes com Eduardo Leite, Pacheco e Simone Tebet.

Devemos considerar que o perigo de golpe está descartado? Segundo alguns analistas nunca houve perigo de golpe porque a mídia, a opinião pública, o empresariado, o congresso e as forças armadas estariam contra o golpe. Já analisei esta posição em outros artigos e não vou repetir aqui. Basta lembrar que Bolsonaro não se pauta pela lógica e pelos mecanismos dos golpes do passado e aposta estritamente em dois fatores: caos social e apoio do segmento armado (forças armadas, polícias, milícias). Se vai ter sucesso é uma outra questão, mas os estragos que pode provocar nas suas tentativas são assustadores.

Outros analistas passaram a considerar que o golpe foi neutralizado pelo acordo promovido por Temer, envolvendo o Congresso (Lira e Pacheco), o Supremo Tribunal Federal e a mídia. Supondo que este acordo existiu, Bolsonaro passará a se comportar (alguns afirmam que ele deixaria de concorrer em 2022) como um bom menino, o STF congelará o cerco ao energúmeno e sua família e a mídia suspenderá a campanha pelo impeachment. Em troca Bolsonaro teria garantida a sua “imunidade” e a de sua famiglia depois de sair da presidência.

Alguns analistas afirmam até que Bolsonaro voltou a ser o preferido do “andar de cima” para barrar Lula em 2022. A meu ver nada disso se sustenta. Se o bloco acima citado tivesse esse poder todo ele cobraria a renúncia do energúmeno em troca da intocabilidade penal, promessa difícil de cumprir. Acontece que Bolsonaro teria que ser outro que não ele para confiar na promessa deste acordão. Embora típico das saídas “por cima” dos impasses políticos e institucionais brasileiros, nas condições atuais este esquema é bem mais difícil de implementar. Quem segura, por exemplo, a ofensiva da CPI da covid? Por outro lado, os “donos do PIB” não estão dispostos a aguentar mais ano e tanto de Bolsonaro fazendo uma trapalhada atrás da outra na economia, nas relações internacionais e em tudo mais. Por outro lado, o apoio do Centrão garante que não seja colocado em pauta o impeachment enquanto os fundos dos “orçamentos secretos” e outros mais continuem irrigando a horta dos eminentes deputados e senadores. Mas como as velhas raposas do Planalto sempre dizem, carrega-se o defunto até a cova, mas ninguém pula dentro dela para acompanhá-lo.

Bolsonaro nos garante que há “chance zero” para um golpe e que “agora confia nas urnas eletrônicas”. É para acreditar? Acho isto tão crível quanto o escorpião na fábula famosa em que ele ferra o sapo e se afoga junto com ele, apesar das promessas. Bolsonaro vê a cada dia o seu apoio eleitoral ser fritado por ele mesmo e sabe que as chances de reverter este quadro estão bloqueadas pelas perspectivas da economia, da inflação, do desemprego e subemprego, da insegurança alimentar, do endividamento da população, do custo dos combustíveis e dos alimentos, da alta do dólar, da ruína da pesquisa, cultura e educação e … podia continuar a lista por muitas linhas mais e não chegar ao fim das más notícias. Ele sabe que tem que fidelizar o seu voto raiz e aterrorizar a direita não fanática com a ameaça dos “comunistas” do PT e do malvado ogro Lula. Isto lhe permitiria uma sobrevida até o segundo turno, mas salvo mudanças improváveis ele levaria uma surra de Lula no placar final.

Por estas razões, Bolsonaro continua namorando o golpe. Como ele mesmo disse aos seus apoiadores, o enfrentamento com o STF e, se for o caso, com o Congresso, foi só adiado, esperando a situação favorável. E, como já escrevi em outros artigos, a conjuntura para o golpe depende de uma série de circunstâncias e a primeira delas é o caos social. Vamos e venhamos, com o extraordinário sofrimento a que o povo brasileiro vem sendo submetido pelo desgoverno de Bolsonaro, o caos social é uma possibilidade bem real nos próximos quase 500 dias em que todos padeceremos até a posse do sucessor do energúmeno.

Penso que o golpe ficou mais difícil para ele depois do fiasco da sua manobra provocadora no 7 de Setembro, mas os fatores de ameaça continuam existindo. O setor armado da população é majoritariamente bolsonarista e uma parte, pelo menos, mantém a sua fidelidade ao candidato a ditador. Bolsonaro hesitou em provocar um confronto direto no dia da Independência por não ter segurança sobre a postura de uma parte do generalato (almirantes e brigadeiros parecem fiéis ao energúmeno, mas têm, literalmente, menos bala na agulha). Bolsonaro também não tem segurança sobre a obediência do corpo de oficiais de nível médio aos seus (Bolsonaro) comandos, no caso de haver oposição nos níveis superiores. Para quem acha que os generais vão enfrentá-lo e que a hierarquia e disciplina vão prevalecer a mensagem do comandante do Exército apelando para que seus subordinados não se deixem influenciar pelas redes sociais indica que ele teme que isto esteja ocorrendo. Em algum momento Bolsonaro vai ter que arriscar, forçando a mão dos generais e instigando os coronéis, capitães e tenentes a romper, se necessário, a hierarquia. Ou vai ficar nas bazófias, nas provocações e nas mentiradas até cair de maduro.   

Uma avaliação quase unânime é que sem as ruas pressionando muito não será possível mover os obstáculos políticos ao afastamento imediato de Bolsonaro. Depois de queimar a largada no dia sete e no dia doze a oposição convoca para uma jornada de lutas com “toda a força” no dia 2 de outubro. Será capaz de colocar nas ruas os milhões necessários para sacudir a República? A meu ver, não. Torço para estar errado, mas a convocação para a próxima manifestação não rompeu com as limitações já verificadas nos melhores momentos da oposição de esquerda no mês de junho. A marca da próxima manifestação não é diferente das anteriores, pelo menos não o suficiente. É verdade que a frente convocadora se abriu um pouco mais para integrar o centro esquerda, mas este já vinha participando das manifestações mesmo sem uma posição formal no time dos donos da bola. O centro e o centro direita continuam fora de um acordo unificador para a convocação. Estão chamados a participar, mas não tiveram lugar na mesa onde os atos são definidos. E, se não tivermos lideranças conhecidas chamando à participação, com Lula, Fernando Henrique, Ciro, Mandeta, Tebet, Dória, e tutti quanti na linha de frente, a sopa de letrinhas dos partidos e organizações sociais não conseguirá ter apelo amplo entre o povão não organizado.

Isto nos leva a uma constatação terrível. Estamos em um empate com Bolsonaro. Ele não consegue provocar as condições para o golpe e a oposição não consegue transformar a rejeição à Bolsonaro em massa na rua para pressionar Lira, os deputados, em especial os do centrão, e o PGR, Aras.

Teremos que aguentar 500 dias de destruição do país para nos livrarmos de Bolsonaro nas eleições? O preço será gigantesco e a conta vai ser paga por gerações de brasileiros. E o que vai ocorrer se a vitória provável de Lula for confirmada? Supondo que ele seja empossado, como vai governar? Lula vai ter saudades da “herança maldita” deixada por Fernando Henrique pois o peso das múltiplas crises que vão se acumular até 2023 vai tornar o governo inviável. Esta inviabilidade se dará por duas razões: o estado da nação, do povo brasileiro e do próprio espaço físico em que vivemos e a composição do governo eleito para derrotar Bolsonaro. Lula está procurando compor não só com todos os que partilharam do seu governo anterior, inclusive o Centrão, mas até com ex-bolsonaristas de carteirinha, golpistas que derrubaram Dilma e toda a caterva que ele puder arrebanhar para ganhar a eleição.

Com esta frente amplíssima, justificável para derrotar o que se chamava no passado de inimigo principal, Lula vai ter enormes dificuldades de fazer o mínimo para começar a sanear o desastre. Com que programa vai Lula para o governo? Basicamente, o que o PT vem dizendo é que com Lula no governo os bons tempos voltarão, mas não é verdade, não necessariamente. As condições são totalmente distintas. Deixemos de lado tudo o que criticamos nos governos do Lula e nos de Dilma (e não foi pouco, falando de um ponto de vista de esquerda) e aceitemos, para derrotar Bolsonaro, que Lula venda o milagre da volta ao passado mítico. Mas é pouco provável que o PT e os partidos de esquerda e centro esquerda consigam uma representação forte o suficiente no Congresso para não ficarem reféns de Cunhas e Liras e do Centrão. Estes partidos terão de fazer campanha diluídos na grande frente anti-Bolsonaro e não poderão se diferenciar muito para garantir a vitória. Teremos um Congresso ruim que vai deixar o governo Lula travado, muito mais do que nos governos anteriores.

O quadro eleitoral Lula x Bolsonaro é o pior possível para o processo de reconstrução do país porque ao invés de termos um debate programático sobre a forma de reconstruir o Brasil teremos uma montanha de promessas irreais e um monte de compromissos com forças contraditórias, senão antagônicas. O pragmatismo se justifica para afastar a ameaça Bolsonaro, mas ele não facilita a governança necessária depois.

Afastar Bolsonaro antes das eleições permitirá o surgimento de uma terceira via mais viável (sem trocadilho), a afirmação de um candidato liberal de centro direita. Vai ficar mais difícil para Lula ganhar a eleição? Sem dúvida. Por outro lado, vai ser possível ao PT e às forças que se compuserem com ele, traçar um programa realista, mas com a radicalidade necessária para enfrentar as crises deixadas pelo desgoverno do energúmeno. Como eu duvido que a campanha de Lula vá mais longe do que propor a volta a um passado purificado e edulcorado pela roupagem da propaganda prefiro que surja uma quarta via.

Precisamos de uma candidatura de esquerda, ou à esquerda da candidatura do Lula. Uma candidatura que apresente um programa viável, mas com toda a radicalidade que o estado do Brasil vai exigir. Não tenho ilusões sobre a possiblidade de uma tal alternativa se viabilizar eleitoralmente, mas ela cumpre um papel importante para apontar ao maior número possível de brasileiros que certas coisas vão ter que ser feitas. Se necessário um segundo turno, esta quarta via se somará aos votos de Lula, mas negociando pontos essenciais de um programa. Mas nunca esqueçamos que a quarta via, como a terceira, só poderá existir se Bolsonaro for afastado do governo e das eleições.

Para resumir, sonho com uma alternativa programática e temo a alternativa pragmática, a não ser que seja a única possível para derrotar Bolsonaro.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!