Um ministro a menos no governo Bolsonaro

Um ministro a menos no governo Bolsonaro

Milton Ribeiro cai num escândalo de corrupção envolvendo pastores no MEC, desnudando as fissuras na base bolsonarista e suas dificuldades eleitorais.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 29 mar 2022, 17:45

Na última semana, o escândalo no MEC terminou com um final desfavorável para o governo Bolsonaro. Ofuscando seu evento de pré-lançamento no PL, quando celebrava uma recuperação parcial nas pesquisas, o escândalo, que envolveu o agora ex-ministro Milton Ribeiro, foi batizado de “bolsolão do MEC” de forma irreverente nas redes sociais. Na segunda-feira (28), Ribeiro anunciou sua demissão.

A crise se instalou a partir do vazamento de áudios que revelaram favorecimento ilegal em repasses do FNDE, além de tráfico de influência nas decisões ministeriais conduzido por pastores evangélicos “atendendo a pedido de Bolsonaro”, de acordo com o ex-ministro. As reportagens revelaram até mesmo a solicitação de 1 kg de ouro (o equivalente a R$ 300 mil) como propina na transação entre representantes do ministério, o pastor Arilton Moura e o prefeito da cidade de Luis Domingues no Maranhão.

O lobby e a corrupção envolvem um importante grupo de pastores que são parte fundamental da sustentação do governo e do bolsonarismo. O escândalo desnudou, novamente, a existência de “gabinetes paralelos” que atuam para aparelhar as instituições por fora do controle público. Trata-se de modelo semelhante ao revelado pela CPI da Covid-19 no “gabinete paralelo” do Ministério da Saúde, que orquestrava a sabotagem de medidas de combate à pandemia, além da negociação de vacinas a preços superfaturados em troca de pedidos de propina por pastores evangélicos, militares e policiais atuantes no esquema. Isso mostra que, além de reacionário, antinacional e antipopular, o bolsonarismo tem o despreparo como principal característica.

Com os holofotes na demissão de Milton Ribeiro, Bolsonaro mais uma vez buscou mudar as atenções públicas ao anunciar a substituição de Silva e Luna no comando da Petrobrás. A nova crise reforça a principal disputa do ano: a necessidade de derrotar Bolsonaro nas ruas, na opinião pública e, por consequência, nas urnas.

Pastor Milton Ribeiro, mercador da fé e da educação

A crise do MEC acontece num momento importante, em que o governo tenta lidar com as consequências da crise dos combustíveis e quando ocorre o realinhamento político-eleitoral pela “janela” de migração de deputados. Bolsonaro gostaria de atravessar esse momento com maior tranquilidade, concentrando-se num discurso capaz de reunir sua base, que oscila entre os mais sólidos e os que o apoiam sem tanta certeza, como em setores essenciais como os caminhoneiros. Mais grave ainda é que a crise do MEC envolve protagonistas do núcleo duro do bolsonarismo entre igrejas e políticos evangélicos.

Ribeiro era uma das pontes do governo com um setor que precisa ser disputado pela oposição. É preciso separar a massa de fieis da cúpula das igrejas e suas lideranças reacionárias e corruptas, que devem ser enfrentadas. Aparelhar e disputar a educação para angariar apoio a pautas conservadoras e coesionar sua base social é o objetivo desse setor, que comemorou a escolha de Milton Ribeiro para a chefia do MEC, assim como celebrou o ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça no STF.

Ao oferecer posições importantes no aparelho de Estado a esse setor, o bolsonarismo garantiu, de uma só vez, o apoio de parcelas religiosas mais conservadoras e a articulação das máquinas de comunicação das grandes igrejas neopentecostais, permitindo-lhe tergiversar sobre a agenda econômica que incomoda parte de sua base social, como muitos caminhoneiros, motoristas e trabalhadores de aplicativos, entre outros. No entanto, além dos elementos supostamente “ideológicos”, o modo de operação das cúpulas dessas igrejas, como revelam os últimos escândalos, é notoriamente corrupto, o que abre uma nova contradição no discurso moralista de Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, a tentativa do bolsonarismo de censurar a manifestação de artistas no festival Lollapalooza demonstra que existe um ambiente democrático no país para afirmar: Bolsonaro nunca mais! A repercussão negativa da tentativa de censura obrigou o PL a recuar. A queda de Milton Ribeiro ocorre, assim, numa cenário em que o bolsonarismo não consegue oferecer boas notícias, gerando instabilidade na troca no comando da Petrobrás – de resto, entregue a mais um lobista neoliberal –, que uma parte do bolsonarismo queria preparar cuidadosamente para sua agitação eleitoral.

Colocar a educação no centro da agenda

Além do debilitamento de Bolsonaro, que deve ser sempre aproveitado e intensificado, há outro efeito importante da crise do MEC: ampliaram-se as possibilidades para colocar a crise da educação, bem como a da saúde, no centro da discussão nacional. Em 2019, foi a luta pela educação, junto à defesa da ciência, do conhecimento e da cultura, que fez recuar a primeira onda de ataques do governo às universidades nas mobilizações que ficaram conhecidas como “tsunami da educação”.

Duas tarefas, como temos apontado, devem caminhar juntas e, no terreno da educação, não pode ser diferente: a aposta na mobilização e a necessária construção programática. Em 9 de abril haverá um ato unitário e devemos apostar num calendário de lutas aproveitando o retorno presencial de escolas e universidades. Há lutas importantes contra a corrosão salarial e a precarização do nível de vida do povo, como a greve dos garis e do BRT no Rio de Janeiro e a greve do município de Guarulhos.

É a hora também de retomar lutas fundamentais, como o investimento de 10% do PIB na educação pública, laica e de qualidade como parte do movimento “Bolsonaro nunca mais”.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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