Sobre a guerra colonial de Putin na Ucrânia: uma tentativa de relançar o império russo
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Sobre a guerra colonial de Putin na Ucrânia: uma tentativa de relançar o império russo

O historiador Yves Cohen analisa a agressão de Putin contra a Ucrânia.

Yves Cohen 20 maio 2022, 09:08

Amigos me pediram para comentar uma entrevista com o professor americano, John Mearsheimer no New Yorker de 1º de março de 2022 (“Why John Mearsheimer Blames the U.S. for the Crisis in Ukraine”, https://www.newyorker.com/news/q-and-a/why-john-mearsheimer-blames-the-us-for-the-crisis-in-ukraine).

Basicamente, Mearsheimer diz que a situação atual é inteiramente culpa dos EUA e que Putin não tinha nada de agressor antes de 2014. Claro, Putin não precisava ser agressivo, pois havia na Ucrânia um presidente pró-russo, Yanukovich. Mas Mearsheimer não quer enxergar duas coisas fundamentais: 1) a visão imperial de Putin, que é muito anterior a 2014 e 2) a revolta popular Maïdan de novembro de 2013 até fevereiro de 2014, que foi pró-europeia.

Ao se focar unicamente no modelo da política de grande potência dos Estados Unidos, Mearsheimer negligência: 1) a política imperial russa que Putin retoma explicitamente em seu grande artigo de 12 de julho de 2021 e depois em seu famoso discurso de 21 de fevereiro deste ano, três dias antes do lançar seus aviões e tanques; 2) a reação popular dos ucranianos. Para ele, como para muitas pessoas que consideram apenas as ações da OTAN, a política mundial é so um jogo entre grandes potências: pequenos países são peças de tabuleiro cuja política não tem significado e os povos são atores ainda menos interessantes a considerar. Em ambos os casos é um erro gigantesco que deveria afastar do discurso de Putin especialmente as pessoas de esquerda, cujos sentimentos antiamericanos ele lisonjeia. Não se pode falar sobre a situação sem considerar suas especificidades, sem considerar o papel da nostalgia imperial russa nem o papel da revolta popular ucraniana.

Mearsheimer diz que este é apenas um jogo de grandes potências e não uma política imperialista por parte da Rússia. Enquanto precisamente, entre todas essas grandes potências, a Rússia é um velho império, um dos poucos no mundo, junto com a China e a Índia, que sobrevive em uma configuração imperial em grande parte baseada na colonização pela continuidade territorial, e não na colonização externa como a maioria dos impérios europeus.

Putin não aceita a soberania da Ucrânia porque a Ucrânia é a terra dos Pequenos Russos, um território que foi a origem da Rússia no século X (Rússia de Kiev), mesmo antes da fundação de Moscou.

Em 21 de fevereiro 2022, Putin manifestou o seu desacordo com Lenin. De fato, Lenin “fez” a Ucrânia, um país que ainda não tinha existido na história! Ele reconheceu a aspiração nacional ucraniana. A Ucrânia se tornou uma das repúblicas da URSS com o mesmo status de república que a Rússia e todas as outras repúblicas, como as do Cáucaso e da Ásia Central. Um escândalo para Putin.

E ele também discorda dos resultados da desagregação da URSS em 1991 porque, ainda mais que Lenin, ela deu independência e soberania a todos esses países. A perda da terra dos Pequenos Russos é insuportável para Putin. Ele governou durante vinte e três anos, mais do que a média dos czares. Ele quer oferecer à Rússia uma forma de restauração, mesmo se, e aqui concordo com Mearsheimer, não tem uma vontade de anexação pura e simples.

E, também como é possível negligenciar Maïdan, do qual Mearsheimer não diz uma palavra!? O levante foi desencadeado precisamente com a retirada pelo Presidente Yanukovich de um projeto de acordo entre a Ucrânia e a União Europeia que ele mesmo havia preparado. Em novembro de 2013, houve um chamado para uma manifestação na Praça Maïdan, em Kiev, contra esta retirada. Foi aí que tudo começou, não vou contar de novo a história. Após três meses de ocupação da praça, uma ocupação popular, horizontal, inventiva, convivial, organizando sua autodefesa, e após 120 mortes, Yanukovich fugiu da Ucrânia. Não fugindo de uma força armada, mas dos manifestantes da praça que não recuavam frente aos atiradores enviados pela Rússia, enquanto havia manifestantes com fuzis vindos de várias regiões da Ucrânia. Além disso, parece que houve grandes discordâncias com sua política dentro dos próprios órgãos da repressão. O movimento da Praça Maïdan foi um dos mais belos de toda a série de “democracias das praças” dos anos 2010.

No dia seguinte à fuga de Yanukovich, Putin capturou a Crimeia e lançou hostilidades contra Kiev no Donbass, que ele transforma em uma guerra interna ucraniana projetada para formar um abscesso purulente para manter a atmosfera bélica e o medo. Maïdan e a fuga de Yanukovich reacendem a febrilidade imperialista da Rússia, que perdeu um presidente pró-russo. Estas terríveis medidas têm vários objetivos: punir a Ucrânia por ter expulsado o presidente pró-russo e por tê-lo feito graças a um movimento pró-europeu profundo e irrepressível; fazer o povo russo entender que não haverá nenhum Maïdan na Rússia; advertir da decisão de não abandonar o projeto imperial russo.

Sobre o Maïdan, muitas pessoas à esquerda falam de “golpe”. Isto é pura intoxicação pela propaganda russa. É o povo da Ucrânia que queria a saída de Yanukovich e que a Ucrânia se aproximasse da Europa. Os Estados Unidos não tiveram nada a ver com isso. Pelo menos não desta vez. Porque já houve a “Revolução Laranja” em 2004 na Ucrânia, duas semanas de manifestações contra a manipulação eleitoral e a favor da instalação de direitos democráticos. Naquela época, havia financiamentos americanos e também europeus para formar os ucranianos à democracia. Mas não foi o caso depois. Nas duas semanas de investigação que fiz em Kiev no início de 2015 sobre Maïdan, conheci uma pessoa que havia sido paga diretamente pelos americanos antes de 2004. Ela me explicou que não tinha sido mais o caso depois. Esta atividade reduzida é talvez o resultado do grande erro cometido pela OTAN em 2008.

Após o fim da União Soviética e do bloco soviético europeu em 1991, a OTAN integrou toda uma série de países da Europa Oriental, incluindo Hungria, Polônia, República Tcheca, Romênia, Bulgária e os Estados bálticos. Deve-se lembrar que a Rússia (Iéltsin na época) manifestou seu acordo em particular com a entrada da Polônia e da Hungria e também deixou os três países bálticos entrarem sem nenhum problema, mesmo que sua única fronteira terrestre seja com a Rússia! Vale lembrar que a Suécia e a Finlândia, que são países neutros, são membros da União Europeia. A UE não é uma aliança militar (o que a OTAN é tão somente), embora inclua uma estipulação de solidariedade diante das agressões armadas. Deve-se notar também que nenhum desses novos membros da OTAN tem bombas nucleares em seu solo, o que muitas vezes é esquecido, embora a propaganda russa tenha suscitado receios de que a Ucrânia as tenha. Mas em 2008, houve a Cúpula de Bucareste e a OTAN convocou diretamente a Ucrânia e a Geórgia a aderirem. Isto foi um erro estratégico. Foi um choque para a Rússia, que reagiu muito fortemente. Desde então, ou seja, durante catorze anos a OTAN nunca renovou este convite e tem mostrado constante cautela em relação à entrada destes dois países, apesar de seus repetidos pedidos.

Assim, a Rússia está cometendo uma agressão destrutiva à Ucrânia, que é um país que não faz parte da OTAN, que a OTAN não quer integrar, que estava longe de ter bombas atômicas da OTAN em seu território e que não é agressivo (nem mesmo com as províncias separatistas, apesar do que diz a propaganda de Putin). E, na guerra, os bombardeios russos fizeram até mesmo que as populações de etnia russa, ou simplesmente de língua russa do leste da Ucrânia, como em Kharkiv e arredores, se colocaram contra a Rússia.

Portanto, concordo com Mearsheimer que Putin não está procurando anexar a Ucrânia e integrá-la à Rússia. Com certeza, ele quer perenizar o status de independência das regiões separatistas e também estendê-las às dimensões das regiões formais ucranianas de Luhansk e Donetsk, muito maiores do que as duas regiões atualmente envolvidas. Além deste ponto, fundamental porque assim a Rússia se apossa de parte do território da Ucrânia, seu plano era colocar um governo vassalo à frente do resto da Ucrânia, livrando-se de Zelensky e do governo democraticamente eleito (e isto para evitar ter que ocupar toda a Ucrânia). Ele encontrou a extraordinária resistência do povo ucraniano, que considero um exemplo para o mundo. Se ele não conseguir matar Zelensky, ele não conseguirá instalar um governo fantoche. E se Putin conseguir, os ucranianos não vão parar de lutar contra ele nem por um minuto. Putin será capaz de parar a tempo? Desde 2000, ele nunca parou a menos que encontrasse uma força que realmente quisesse o parar. E isso nunca aconteceu. A resposta ocidental atual não é essa força. Será que a população ucraniana será essa força? Ou ele vai decidir exterminá-la de verdade? Isto me parece impossível. Será que Putin conseguirá encontrar um meio-termo? Mas tal solução não pode corresponder a seus objetivos imperiais, aos quais ele está tão apegado quanto a sua vida. Eles são sua razão de viver e de envelhecer tranquilamente em seus palácios, que nem um czar da Rússia.

Mearsheimer quer que a Ucrânia se curve frente à Putin. Na entrevista que li, ele diz: “A estratégia estrategicamente sensata para a Ucrânia é quebrar as suas relações estreitas com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos, e tentar acomodar os russos”.

Este individuo, um respeitável professor americano, não vê que a vontade popular é diferente. Os ucranianos estão prontos a morrer para não desistir do seu país e mesmo de duas regiões, se o preço for a domesticação para o Kremlin. Esta é uma guerra colonial. Contra um dos imperialismos mais ferozes da história (basta olhar os genocídios dos povos caucasianos no século XIX, e as duas guerras recentes contra a Chechénia com as suas ações genocidas, sendo a segunda liderada por Putin que tinha acabado de suceder a Iéltsin).


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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