Crise, corrupção e resiliência: o que há de novo no escândalo do MEC
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Crise, corrupção e resiliência: o que há de novo no escândalo do MEC

A prisão de Milton Ribeiro desorganiza a estratégia de Bolsonaro.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 27 jun 2022, 19:35

O ex-ministro da educação Milton Ribeiro foi preso, na última quarta-feira (22/6), com outras quatro pessoas acusadas de corrupção no MEC, especialmente na liberação indevida de verbas do bilionário FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Na operação, também foram presos os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, além de Helder Bartolomeu, genro de Moura, e Luciano Musse, que era assessor do MEC na gestão de Ribeiro. Para a Polícia Federal, “não deixam dúvidas da façanha criminosa”, no funcionamento de tipo “gabinete paralelo” para benefício material dos pastores dentro do MEC.

Nos dias seguintes à prisão de Ribeiro – que, na sequência, foi solto e autorizado a responder em liberdade pelo desembargador Ney Bello –, foram revelados áudios de telefonemas nos quais o ex-ministro afirma ter sido avisado com antecedência da operação por Bolsonaro. A fala de Ribeiro aponta uma clara interferência do presidente no curso das investigações, um salto no escândalo de corrupção oriundo no Ministério da Educação.

A mais recente crise do governo acontece num momento muito especial da conjuntura política. A situação combina a preparação para a disputa eleitoral com a tensão causada pela crise econômica e social, expressa na fome e na disparada dos preços de alimentos e combustíveis. Tudo isso a menos de cem dias do pleito de outubro. Na semana da prisão, foi divulgada a nova pesquisa Datafolha, com Lula liderando as intenções de voto, com 47%, e Bolsonaro com 28%, mantendo a possibilidade de vitória do ex-presidente no primeiro turno e aumentando a pressão sobre o governo.

Uma nova crise para Bolsonaro contornar: corrupção e desmonte do MEC

A prisão de Milton Ribeiro desorganiza a estratégia de Bolsonaro. Trata-se de mais uma crise em meio às dificuldades da pré-campanha, além do agravamento da precariedade geral das condições de vida do povo. A prisão de Milton e dos pastores, somada à possível interferência de Bolsonaro na PF, atinge em cheio um dos setores que compõem o bloco bolsonarista: as cúpulas das igrejas evangélicas. Foi um golpe duro, sentido pelos setores mais reacionários que atuam entre os presbiterianos, denominação da qual Ribeiro faz parte e com cuja estrutura dirigente tem relação. Os desdobramentos da investigação, ao longo da semana, devem revelar o tamanho do atrito entre os três componentes envolvidos: Bolsonaro, que chegou a afirmar que colocava a “cara no fogo” por Milton Ribeiro, o centrão e os representantes políticos da cúpula de igrejas evangélicas reacionárias, verdadeiros “mercadores da fé”.

O segundo problema para Bolsonaro é que o escândalo da corrupção do MEC e dos pastores reaparece quando o governo buscava formas para lidar com a crise da disparada dos preços e dos combustíveis. Sua estratégia é ampliar os benefícios para compensar a crise econômica (aumento no “auxílio Brasil”, vale-gás e alguma medida para os caminhoneiros), além de empurrar a responsabilidade da crise para a Petrobras. Assim poderia assumir mais a iniciativa discursiva e convocar seus apoiadores para um esforço eleitoral concentrado para viabilizar um segundo turno contra Lula.

Em suas últimas declarações, Bolsonaro tem mostrado seu desconforto e repetiu a tática de quando vê seu nome, o de familiares e de membros do governo envolvidos em escândalos: estimulou sua base a reagir com discursos golpistas, como em Santa Catarina no fim de semana, e seu advogado Wassef busca criar uma blindagem similiar à do caso das “rachadinhas”. O governo também sofre um revés em seu discurso: tal como no caso de Fabrício Queiroz e nas revelações do “gabinete paralelo” na Saúde (também organizado por pastores) pela CPI da Covid, o fantasma da corrupção volta a assombrar Bolsonaro – desta vez, em outra área sensível, a educação.

Tudo isso reforça a necessidade de se descontruir o discurso do governo, totalmente desmoralizado pelo aparelhamento das instituições de controle e pelas acusações diretas contra a família do presidente. Há ainda mais espaço para atacar o governo, em particular em setores populares influenciados pelo bolsonarismo e pelo falso discurso anticorrupção. Ao mesmo tempo, amplia-se o espaço para debater o desmonte da educação e do próprio MEC promovido pelo governo, como vem sendo apontado desde a mobilização do “tsunami da educação” e nas lutas atuais contra a nova rodada de cortes.

É possível vencer a “resiliência” de Bolsonaro

Muitos se perguntam por que, dentre tantos escândalos e horrores, Bolsonaro ainda conserva apoio de cerca de 30% do eleitorado. Por que não há uma rebelião que se volte contra o governo? Afinal, abundam notícias estarrecedoras, como o assassinato de Dom Phillips e Bruno Rodrigues, a constante violência contra as mulheres, o genocídio contra a juventude negra da periferia, como na chacina da Vila Cruzeiro, e o assassinato a sangue frio de Genivaldo Santos por policiais rodoviários.

A indignação ainda não encontrou um vetor centralizado para se expressar. A proximidade do cenário eleitoral e a política das direções apelam para jogar todas as expectativas para o voto em outubro. Acreditamos ser fundamental enfrentar Bolsonaro com toda força, ampliando nosso trabalho de base e enraizamento, fazendo uma campanha eleitoral com centro na sua derrota já no primeiro turno. Para vencer sua suposta “resiliência”, é necessário apostar na organização popular, organizando nos territórios, nas universidades, escolas, bairros, locais de trabalho e moradia. E dialogar com setores que ainda tem dúvidas, num processo como foi o “vira-voto” no segundo turno de 2018, com muito mais vigor.

As candidaturas do MES e da esquerda do PSOL estão a serviço dessa batalha. A defesa da educação, a luta contra a inflação e uma nova política de preços da Petrobras devem ser parte de nossa agitação desde já. É possível enfrentar o bolsonarismo nas mobilizações nas ruas, derrotar Bolsonaro nas urnas e fazê-lo pagar por seus crimes.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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