“É a economia, Bolsonaro”!

“É a economia, Bolsonaro”!

A fome e o empobrecimento marcam o país enquanto Bolsonaro tenta aprovar benesses eleitoreiras para garantir um segundo turno com ameaças golpistas.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 8 jul 2022, 21:07

A famosa frase sobre a determinação econômica no humor eleitoral, atribuída a James Carville, coordenador da campanha de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, pode ser replicada, com razão, para a atual situação do Brasil. Acrescenta-se que Bolsonaro é exatamente um “estúpido” e seu despreparo é a marca permanente do governo.

A situação econômica – marcada pela fome, inflação, altos índices de desemprego e de informalidade – é o principal flagelo do povo brasileiro. A fome é um problema real e crescente. Os preços disparam nos supermercados e comércios do país.  Os trabalhadores que estão empregados não conseguem chegar ao final do mês e nem fechar suas contas. Por isso, Bolsonaro joga toda sua força para aprovar um expediente de exceção: sua PEC emergencial para garantir as condições de oferecer benesses eleitoreiras, que pouco farão para reduzir o agravamento das condições de vida, mas serão a base para um discurso eleitoral que possa garanti-lo num segundo turno e, na sequência, avançar na linha de suas ameaças golpistas.

A volta ao mapa da fome da ONU

Um relatório das Nações Unidas, acerca dos países que passam por situação de insegurança alimentar, foi divulgado nesta semana e mostra que o capitalismo deixa 828 milhões de habitantes do planeta passando fome. O novo mapa da fome mundial, difundido pela FAO, coloca o Brasil como o “campeão” da América Latina, quinto lugar em termos mundiais. Uma triste e revoltante marca.

Os dados absolutos são estarrecedores: mais de 61 milhões de brasileiros estão numa situação de insegurança alimentar, com grandes dificuldades para se alimentar, 15,4 milhões estão numa situação considerada “gravíssima”, sem condições básicas de fazer uma refeição por dia, ao menos. A localização do Brasil no mapa da fome é um dos sintomas mais agudos da decadência do país. A desigualdade histórica amplia-se, somada à desindustrialização e aos efeitos perversos da reforma trabalhista, que não apenas precarizou contratos e a representação sindical, como abriu ainda mais espaço para a informalidade, para o aumento das jornadas e para o aparecimento de novas modalidades de trabalho sem direitos apresentados como “empreendedorismo” ou “parceria”, em particular para as transnacionais da economia digital.

Uma série de dados escancara o empobrecimento da classe trabalhadora, como a queda da renda em 8% enquanto dispara a inflação, além do aumento da cesta básica em média de 30%. A inflação acelerou em junho, atingindo 11,89% no acumulado em 12 meses, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta sexta-feira (8) pelo IBGE. Bolsonaro representa um passo adiante na destruição nacional e na regressão neocolonial em curso.

Bolsonaro enxuga gelo: eleitoralismo e crise estrutural

A forma com que Bolsonaro responde à grave crise social não resolverá nenhum problema geral. Sua estratégia é apenas eleitoreira. Tal como no caso do chamado “orçamento secreto” e na redução do ICMS para os combustíveis, o presidente, ameaçado de perder no primeiro turno, usa todas as armas para evitar um caos social imediato. Mais do que qualquer outra coisa, Bolsonaro quer chegar vivo politicamente em outubro para tumultuar um eventual segundo turno, com constrangimentos ao STF e ameaças golpistas.

Por isso, o governo pretende agora aprovar um pacote de bondades por meio de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para ampliar o auxílio-Brasil em R$ 200,00 e distribuir outros benefícios reduzidos para categorias como caminhoneiros e trabalhadores de aplicativos. Isso está longe de resolver qualquer problema do povo brasileiro. A cesta básica custa mais do que o valor total do auxílio aumentado: os R$ 600,00 do auxílio não alcançam sequer o preço médio de uma cesta básica no país – R$ 715,00, o que corresponde a cerca de 60% do salário-mínimo, o maior percentual da série histórica em relação ao salário pago, conforme levantamento do DIEESE.

A crítica que os liberais fazem da “PEC kamikaze” não leva em conta as necessidades reais do povo. Sua prédica fiscalista apenas quer colocar as contas em ordem e deixar o Brasil como polo atraente para investimentos e para o capital financeiro. Contudo, as operações eleitoreiras de Bolsonaro apenas resultam numa acumulação de problemas para o próximo período. O cenário internacional é recessivo. Nesta semana, o dólar disparou e o jogo de empurra para o poder público local levará a uma baixa na arrecadação de milhares de municípios e dos estados, além do que já foi tirado dos governos estaduais com a redução do ICMS. A conta dos juros e da dívida pública vai se multiplicar e, com a inflação corroendo o salário, haverá um cenário tétrico para 2023. A crise na Argentina apenas indica o caminho que as economias dependentes devem trilhar, com sinais de falência diante da vulnerabilidade em relação ao FMI.

Três tarefas imediatas para enfrentar a crise social

A primeira tarefa é construir a unidade entre as lutas e derrotar Bolsonaro no primeiro turno. Isso é todo um plano, que passa pelo voto em Lula, apesar de sua política. Seria uma mudança de qualidade uma derrota da extrema-direita já no primeiro turno, um gesto de força do povo brasileiro que ecoaria pelo mundo inteiro. Nesse sentido, a presença de nossas parlamentares nacionais nas lutas é um ponto de apoio importante. Sâmia, Vivi e Fernanda ganharam destaque nas manchetes da semana por sua presença parlamentar nas lutas das mulheres, contra a impunidade para os assassinos de Dom e Bruno e aprovando medidas em defesa da educação.

A segunda tarefa é construir um calendário unitário para enfrentar as ameaças golpistas de Bolsonaro, de seu candidato a vice Braga Netto e dos bolsonaristas que querem levantar a cabeça. Para isso, é preciso organizar um plano de lutas coordenado, com diferentes forças e setores, levando em conta a necessidade de colocar o povo na rua e preparar a autodefesa das organizações da classe de forma séria. Começam a ser discutidos calendários como um forte dia de luta estudantil em 11 de agosto e uma resposta ao 7 de setembro golpista de Bolsonaro. A terceira tarefa, por fim, apresentar uma saída de fôlego e um plano econômico alternativo, que passa por questões concretas como a taxação das grandes fortunas; o fim da PPI e a reestatização da Petrobrás como um pilar estratégico, 100% pública e sob controle e gestão da maioria social; um plano de empregos dignos, com direitos consagrados para os trabalhadores; o combate à especulação e o controle de preços para enfrentar a inflação; uma reforma agrária radical capaz de reorganizar por completo a produção alimentar brasileira; a auditoria da dívida pública, entre outras bandeiras. Para enfrentar a grave crise econômica e social, é preciso construir uma esquerda independente e anticapitalista, com peso de massas e com capacidade de vocalizar nacionalmente a necessidade de uma mudança no governo e no modelo de desenvolvimento no país.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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