Onde está Amarildo? Libertem Rafael Braga!
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Onde está Amarildo? Libertem Rafael Braga!

2013 e as lutas da negritude que não podem passar em branco 10 anos depois

Carla Zanella 13 jul 2023, 16:09

Foto: Agência Brasil

Junho de 2013 completou 10 anos no mês que passou. Dentre os muitos debates que surgiram naquele ano, dois ressoaram de maneira bastante emblemática, mas 10 anos depois não parecem ser lembrados da forma que deveriam.

Em 20 de junho de 2013, como fazia muitas vezes quando não tinha dinheiro da passagem para voltar para a Vila Cruzeiro, na periferia do Rio de Janeiro, Rafael Braga dormiu no centro da cidade. Coincidentemente, neste dia, uma das grandes mobilizações que ocorriam em todo o país, acontecia também no Rio de Janeiro. Rafael Braga foi preso, acusado de participar das mobilizações de maneira desordeira, portando um Pinho Sol e água sanitária. Rafael Braga ficou preso por 5 meses até ser condenado em primeira instância, sentenciado a 5 anos de prisão em regime fechado por porte de material explosivo.

Menos de um mês depois, em 13 de julho de 2013, após um arrastão nas proximidades da Favela da Rocinha, a operação da polícia militar do Rio de Janeiro, batizada de Paz Armada, prendeu entre outras pessoas, o ajudante de pedreiro Amarildo. Levado para a Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP, instalada na favela, nunca fora encontrado. A família registrou seu desaparecimento dois dias depois. Apenas em 2016, os policiais da unidade de polícia pacificadora foram condenados pela tortura e morte de Amarildo.

Além de completarem 10 anos em 2023, a conexão entre os casos é óbvia: Rafael Braga e Amarildo eram dois trabalhadores negros da periferia do Rio de Janeiro. Suas histórias, infelizmente, são o retrato da situação da negritude nas periferias brasileiras 10 anos antes e segue sendo agora.

Com os 10 anos das Manifestações de Junho de 2013, os debates acerca do que levou os brasileiros a ocuparem as ruas de forma tão expressiva naquele ano voltaram a ocorrer. Narrativas em disputa, por um lado vinculadas a algumas revistas e editoriais da militância petista, atribuem a junho de 2013 a queda da presidenta Dilma e o início do crescimento de uma onda fascista no país. A fotografia que é feita do momento rememora indicadores econômicos, mas pouco fala sobre o que era a realidade nas periferias e comunidades.

De outro lado, estão aqueles que reivindicam as manifestações de junho de 2013 como o início de uma mudança significativa no país, no qual as ruas ganham lugar de destaque na disputa política. É preciso lembrar que justamente o estopim das manifestações de 2013 fora o aumento do valor das passagens em diversas capitais do país, para muitos, hoje, 10 anos depois, algo que não mereceria a ocupação das ruas. Mas, vejam se não era justamente a falta de condições de pagar a passagem de ônibus a razão pela qual, inúmeras vezes, Rafael Braga dormia fora de casa, inclusive na rua, por não ter como ir para a sua comunidade e voltar para trabalhar no dia seguinte?

Se os casos de Rafael Braga e Amarildo representam uma foto da situação da negritude brasileira em 2013, razões não nos faltavam para a ocupação das ruas. A presença da polícia nas periferias com a intenção de controle e morte foi historicamente a realidade brasileira. Mas, em 2013, a proximidade dos grandes eventos impôs que a militarização das favelas se desse através da instalação de bases policiais, ocupando lugares nas comunidades que antes se organizavam em outra lógica, para controlar e impedir que a sede dos grandes eventos se apresentasse com o seu perfil real: pobre, negro e de comunidade. Em seu livro: UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro, a vereadora do PSOL, Marielle Franco, afirma:

“O que há acumulado é a escolha de um formato para as favelas tendo em conta a pressão imposta pelos grandes eventos como a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016, para assegurar algum nível de controle nesses territórios populares. ”

Rafael Braga, 10 anos depois, está em prisão domiciliar. Já, no caso de Amarildo, ainda nenhum dos policiais condenados foi preso e seis seguem trabalhando na corporação. A efervescência política de junho de 2013 rendeu saldos importantes para o movimento negro, mas o racismo estrutural faz com que a questão racial precise seguir se provando mesmo no local em que ela mais encontra amparo: a esquerda. Os desafios de organização da maioria do povo negro são bem expressas nesses casos emblemáticos de 2013, um jovem negro com dificuldades de pagar o valor da passagem, mas que não estava nos protestos, é justamente o único condenado pelas manifestações. A militarização das periferias, tratada por governos que se reivindicam de esquerda, para a garantia dos grandes eventos, no país que não tinha e segue não tendo hospitais, escolas, transporte, serviços públicos em geral, padrão FIFA, resultou na morte de um trabalhador negro.

Evidente que as questões raciais não eram o centro das críticas das manifestações de 2013, por outro lado, sem elas, tão pouco esses casos teriam tido condições de repercutir da forma que repercutiram, ainda que a realidade sobre casos como esses tenha mudado pouco, e que ambos os casos tenham sido pouco lembrados mesmo dentre aqueles que reivindicam as manifestações. A ocupação das ruas ajudou a politização dos espaços públicos, e isso certamente foi parte da ocupação dos parlamentos por uma juventude negra, muitos dos que tiveram seu primeiro contato com mobilizações em 2013 e que hoje disputam a política de forma institucional ou não para mudar a cara do poder brasileiro. Marielle definiu de forma objetiva o cenário que marcava 2013:

“Este cenário foi marcado, no ano de 2013, pelas manifestações que aconteceram a partir do mês de junho, não apenas no Rio de Janeiro, mas nas principais cidades brasileiras. As ruas ocupadas e a truculência das polícias acabaram por ampliar a percepção da população sobre a atuação policial por todo país. A frase ‘a polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela’, lançada pela Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, ou ‘no centro da cidade a bala é de borracha, já nas favelas a bala é de verdade’.”

Esses casos expressam as falhas brutais do estado brasileiro, que ao não oferecer serviços públicos de qualidade, era operador da necropolítica que massacrava o povo brasileiro em 2013 e segue massacrando em 2023. As manifestações daquele ano deixaram claro que o país próspero possuía duras relações com a maioria do seu povo negro e pobre, que demandavam maior presença de políticas públicas e participação política.

Relembrar esses casos para os quais ainda precisamos lutar por respostas, a partir do pensamento de Marielle Franco, uma das muitas que ocuparam as ruas em 2013, tornou-se vereadora em 2016, com a quinta maior votação do Rio de Janeiro e foi brutalmente assassinada em 2018, ajuda a compreender o quanto o estado brasileiro ainda carece de oferecer justiça para os corpos negros, cujas prisões e assassinatos, são, invariavelmente políticos. E o quanto ainda precisamos avançar na nossa organização enquanto negritude, seja para que nossas pautas sejam tratadas com a centralidade revolucionária que possuem, mas, para que nossos corpos estejam seguros ao levá-las adiantes.


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