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A marcha contra o indulto de Fujimori e a nova situação política do Peru

As recentes mobilizações no Peru demonstram para o governo e à direita peruana que o povo não se calará diante das tentativas de perdão ao ditador Fujimori.

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Dezenas de milhares de peruanas e peruanos tomaram as ruas de Lima na última sexta-feira, 7 de julho, contra um possível indulto, anunciado recentemente pelo presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK), ao ex-ditador Alberto Fujimori. A Marcha, que teve como principal consigna “o indulto é um insulto”, contou com grande presença da juventude, das mulheres e das mais diversas organizações sindicais, sociais e políticas do país. Em meio a um conjunto de greves que ocorrem no Peru, a Marcha incrementa um cenário de grande polarização social que tende a se impor abrindo uma nova situação política no país.

A burguesia busca um acordo nacional contra o povo​​

O indulto a Fujimori tornou-se uma pauta do país após grande pressão da bancada fujimorista no Congresso da Repúbloca. A bancada, que é a maior do Congresso, aproveitou-se da debilidade do governo de PPK para coloca-lo contra as cordas.

Após escândalos e interpelações do Congresso, três ministros renunciaram de seus cargos desde novembro até o momento. Mariano González (Defesa) por nepotismo e Jaime Saavedra (Educação) por mau uso do dinheiro público na compra de computadores. Além deles, mais recentemente foi a vez de Martín Vizcarra, que ocupa também o posto de vice-presidente da República, ao renunciar ao cargo de Ministro dos Transportes e Comunicação após o vazamento de graves denúncias relacionadas ao contrato de construção do Aeroporto de Chincheros, na região de Cusco.

Entretanto, mais que revelar as tensões entre o governo e o fujimorismo, a tática da ingovernabilidade visa produzir um grande “acordo nacional” entre o governo e sua oposição de direita. O país, que vinha sustentando índices de crescimento no período recente, começa a dar sinais de estagnação econômica. A queda no preço das exportações de metais nos últimos anos – cuja extração é o maior aporte do PIB peruano – diminuiu consideravelmente as reservas e aumentou o endividamento público do país. O desastre socioambiental dos “huaicos” destruiu cidades inteiras, especialmente no norte peruano, e pressionou a inflação para cima. Os escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava-Jato paralisaram muitas das obras públicas em curso, especialmente aquelas que estavam a cargo da Odebrecht e suas sócias, e a instabilidade política diminuiu a taxa de investimentos públicos e privados. Logo, a burguesia peruana começa a clamar por um “acordo nacional”. Sendo assim, o bloco fujimorista usa o indulto do ex-ditador como uma espécie de pré-requisito para que eles possam participar do acordo junto ao governo. A reunião do dia 11 de julho entre Keiko Fujimori e PPK deu início a essa tentativa.

Os meios de comunicação, os setores empresariais e os partidos da ordem clamam pelo acordo nacional que tem como objetivo quatro grandes eixos:

  1. Retomar as taxas de investimento privado e o emprego especialmente nos obras de reconstrução das cidades afetadas pelos desastres ambientais, nas obras interrompidas pelos casos de corrupção e nos preparativos para os Jogos Pan-americanos de 2019;
  2. Buscar a estabilidade do regime político. Para isso, pretende-se entregar a Controladoria Geral da República ao economista Nelson Shack Yalt, que trabalhou no governo de Fujimori, instalar um gabinete “suprapartidário” e negociar a presidência do Congresso com as demais forças políticas, já que que o partido do governo abdicou de disputá-la;
  3. Implementar uma agenda neoliberal mais intensa que inclua a reforma trabalhista e um ajuste fiscal que permita a retomada do investimento público nas áreas de maior interesse para a burguesia;
  4. Realizar uma reforma política que dificulte a possibilidade do Movimiento Nuevo Perú de conseguir a sua inscrição eleitoral, bloqueando, portanto, o crescimento de uma alternativa em torno de Verónika Mendoza para 2021.

Contudo, não é tão fácil lograr este acordo. Em primeiro lugar, pelas próprias disputas no interior do fujimorismo que envolvem a liderança do partido Fuerza Popular e do Congresso. Em segundo, porque ainda que possa significar a salvação do governo e dos negócios da burguesia que o apoia, o acordo também representa uma ferida mortal para Kuczynsky, já que foi eleito contra a candidatura de Keiko se apresentando como o “menos pior” e negando qualquer possibilidade de conceder o indulto a Fujimori. Por fim, porque necessariamente o acordo terá que enfrentar uma crescente onda de protestos e uma maior polarização social.

Onda de greves e mobilizações e a luta contra o indulto

Nos últimos meses, o país tem visto o crescimento de greves e protestos que incrementam a indignação da população com a situação política. A greve pela reposição salarial dos professores de Cusco, uma promessa eleitoral de PPK, já dura um mês. Em Andahuaylas, uma greve geral contra a corrupção dos governos regional e nacional reivindicando investimento em serviços públicos fez a cidade parar totalmente durante catorze dias. A greve dos médicos, que vai completar uma semana, tem crescido no interior do país. A Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru (CGTP), por sua vez, vem convocando uma mobilização nacional contra a reforma trabalhista para o dia 19 deste mês.

Além disso, lutas democráticas também se fortalecem, como foi o caso da Marcha do Orgulho LGTBi do dia 1º de julho que levou às ruas mais de 30 mil pessoas, fazendo dela a maior da história do país segundo seus organizadores.

Neste ínterim, a luta contra o indulto de Fujimori incrementa um cenário de grandes mobilizações. As dezenas de milhares de pessoas que estiveram nas ruas no dia 7 deram um pontapé inicial numa luta que tende a crescer. O governo, que pretendia anunciar o indulto em discurso marcado para o mesmo dia das comemorações da Independência peruana, em 28 de julho, já anunciou que não o fará. De forma tragicômica em um claro recuo frente à força da mobilização, o presidente afirmou não se tratar de um indulto, mas de um “perdão médico” que leva em consideração o suposto agravamento da situação de saúde de Fujimori. Kuczynski anunciou também que o tema do indulto será discutido até o fim do ano – o que revela uma vitória parcial da Marcha. O que podemos ter certeza é que a luta em torno desse tema está apenas começando e que a demonstração de 7 de julho ajuda o fortalecimento da opinião pública contrária à ofensiva dos meios de comunicação, das corporações e da casta política.

Novas oportunidades para a construção de uma alternativa: afirmação do Movimiento Nuevo Perú (MNP)

Não à toa a maior coluna das organizações políticas da Marcha contra o indulto foi a do MNP. Ela contou com a presença de cerca de mil companheiros, entre eles os parlamentares do movimento e Verónika Mendoza. A coluna atraiu os olhos da imprensa e mostrou grande força. Além disso, no encerramento do ato, Verónika fez um contundente discurso no qual denunciou a tentativa de indulto a Fujimori por parte do governo e a impunidade “dos que roubam e matam”.

Certamente, o alinhamento do governo ao fujimorismo abre um espaço político para o crescimento de uma alternativa, já que deixa órfã de representação a base que votou em PPK contra o retorno do fujimorismo. Nas últimas pesquisas de opinião, Verónika atingiu a marca de 30% de aprovação popular. Finalmente, o impulso da campanha de assinaturas para legalizar o partido, a partir de uma caravana que vem sendo realizada no interior do país, afirma cada vez mais a necessidade de construção dessa ferramenta política.

(Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal de la Izquierda)

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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