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Tolouse-Lautrec: um olhar sobre a modernidade

A exposição do artista francês no MASP revela que Toulouse-Lautrec estava atento às contradições da vida urbana na virada do século passado.

Henri de Toulouse-Lautrec "Le Moulin de la Galette", 1889.
Henri de Toulouse-Lautrec "Le Moulin de la Galette", 1889.

Está em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (MASP) a exposição Toulouse-Lautrec em vermelho dedicada à obra do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec. Diz-se no museu que se trata da maior exposição do artista já realizada no Brasil. A sensação daqueles que se aventuram em adentrar na gigantesca caixa de concreto suspensa sobre a Paulista é de estar em contato com parte daquilo que de melhor produziu a modernidade. As obras de Toulouse-Lautrec impressionam, desde as mais robustas até aquelas que, pela presença marcante do marrom original dos cartões na obra acabada, por vezes dão a impressão de terem sido deixadas por fazer. A verdade é que os quadros são todos eles marcados por uma delicadeza notável. O artista parece ter uma capacidade ímpar ao retratar os tipos humanos que o rodeavam na virada do século XIX ao XX.

Toulouse-Lautrec é conhecido como um dos mais importantes expoentes artísticos da chamada belle époque. O momento, que se estende da década de 70 do século XIX até os primeiros catorze anos do século seguinte, é marcado pelo fortíssimo desenvolvimento tecnológico decorrente do avanço das forças produtivas do capitalismo da época. Sendo assim, o idealismo liberal-burguês não demorou em cunhar a imagem do período como sendo o momento em que progresso humano alcançava o seu apogeu. Para além do progresso técnico decorrente da Segunda Revolução industrial, a época também foi marcada pela consolidação dos regimes democráticos burgueses na Europa e a constituição da moderna sociedade civil. O ethos da belle époque era permeado pela promessa de um futuro promissor e magnifico àquelas sociedades europeias que adentravam o século XX.1

Toulouse-Lautrec nasceu em 1864 numa pequena cidade no Sul da França e morreu precocemente apenas 36 anos depois em decorrência do vício em álcool que desenvolvera ao longo da vida. Seus biógrafos indicam que o alcoolismo esteve fortemente relacionado aos problemas de má formação que o autor tinha em suas pernas. O artista era membro de uma família de nobres franceses herdeira direta do Condado de Toulouse — entidade feudal que existiu entre os séculos VIII e XIII na Europa medieval. O fato é que ao longo do século XIX (momento marcado pela decadência da nobreza no país) tornou-se comum a prática, pela antiga aristocracia, de casamentos entre parentes de modo a assegurar a manutenção do patrimônio e evitar a divisão da fortuna no interior do grupo familiar. Acredita-se que esses casamentos consanguíneos estiveram na origem da doença dos membros inferiores de Toulouse-Lautrec. O próprio artista era filho de Alphonse de Toulouse-Lautrec-Monfa e Adèle Tapié de Céleyran, dois primos de primeiro grau.

Se as transformações da moderna estrutura social francesa causaram impacto direto na própria formação ontológica biológica do autor, como vimos acima, é inegável que a morfologia social da belle époque europeia também contribuiu de maneira decisiva ao desenvolvimento da obra do artista.

Toulouse-Lautrec se instala em Paris no fim do século XIX e toma para si como objeto a vida cotidiana da capital francesa do período. Na exposição em cartaz no MASP, tal escolha é visível. Os personagens tratados em suas pinturas são ora boêmios homólogos ao artista, ora cantoras de cabaré ou prostitutas. Quando se trata dessas últimas, normalmente retratadas em momentos de descontração ou descanso, seus quadros tornam-se verdadeiras lentes etnográficas que nos revelam algumas das condições de vidas dessas mulheres que trabalhavam na noite parisiense. Sua obra torna-se assim uma vitrine da pulsação e efervescência cultural positiva que significou a virada do século na Europa, ao mesmo tempo em que revelava parte das contradições intrínsecas presentes naquela sociedade. Toulouse-Lautrec em vermelho nos demonstra que enquanto hospitais-prisões estavam repletos de mulheres atingidas por doenças sexualmente transmissíveis, encarceradas por supostos transtornos psíquicos, os cabarés se enchiam de homens encartolados que vibravam com as apresentações de cantoras iluminadas à luz elétrica — talvez o fazendo sem saber se mais excitados com a música que ouviam ou se com a própria eletricidade.

Assim, Toulouse-Lautrec com o seu pós-impressionismo possivelmente se diferencia de alguns de seus predecessores impressionistas que, embriagados pelos ventos da época, adotavam muitas vezes uma perspectiva acrítica na abordagem de seus motivos (jardins floridos, alamedas encharcadas ao redor da cidade, burgueses tomando piqueniques à borda de rios…). Esses artistas parecem encarnar em suas obras a promessa liberal do período de que as revoluções industriais e francesas, ao libertar o ocidente das amarras da tradição, haviam trazido consigo a superação de todas as demais contradições e mazelas da humanidade. O otimismo das obras de artistas como Monet e Renoir (expostas na exposição permanente do museu paulista), por exemplo, são de chocar qualquer um que tenha se interessado pelo século XIX a partir do arsenal teórico que nos fornece a tradição marxista. A Paris em convulsão de O 18 Brumário de Luís Bonaparte, marcada pela disputa e conflito constante entre as classes sociais em movimento entre 1848 e 1851, não parece ser a mesma cidade daqueles que vinte anos depois a retratariam – pinceladas à mostra – como um local de afabilidade exuberante.

Felizmente, esse não é o caso de Toulouse-Lautrec. Sua obra é marcada pela tensão constante entre o prazer e o dissabor, o descanso e o trabalho, a posse e a pobreza. Ainda que seja impossível dizer que o autor tenha como motivo os ambientes operários por excelência e pinte as condições de vida das classes trabalhadoras do período, a obra de Toulouse-Lautrec é certamente marcada pelas relações que as diferentes classes sociais urbanas europeias iam estabelecendo entre si ao final do XIX e início do século XX. O gozo do burguês boêmio ao uivar de modo animalesco dentro do cabaré é posto ao lado do sofrimento da mulher que, uma vez interrompida sua jornada de trabalho no mesmo local, joga-se sobre a cama abrindo a roupa com o semblante exausto. A belle époque de Toulouse-Lautrec é viva, e com isso queremos dizer não apenas repleta de sentimentos e euforia, mas permeada de contradições.

Dizíamos que a própria condição social de Toulouse-Lautrec o influenciou diretamente em seus trabalhos. Certamente, o fato de pertencer a uma família nobre decadente do interior fez com que, uma vez instalado na capital, os impactos da vida metropolitana o tenham sensibilizado de uma maneira particular. Enquanto cidadão, ele cumpre o papel do nobre em decadência que, ao lado de outros burgueses, dedica sua vida citadina à boêmia. Por sua vez, enquanto artista, ele usufrui dessa posição privilegiada para ser um cronista participante dessa própria realidade. Seus quadros são uma narrativa de seu próprio cotidiano nos cabarés e na noite da capital francesa. De todo modo, talvez o próprio fato de Touolouse-Lautrec ser um outsider naquele meio, isto é, um nobre decadente da província que passa a habitar a cidade da burguesia ascendente, é que tenha possibilitado a ele um olhar crítico sobre a sociedade que vivia e as relações sociais se estabeleciam diante de si.

A exposição Toulouse-Lautrec em vermelho fica em cartaz no MASP até o dia 1º de Outubro e tem entrada gratuita todas as terças-feiras.


Nota do autor

Contudo, o otimismo dura pouco. Em 1914 estoura-se a Primeira Guerra mundial escancarando as contradições de um modelo de acumulação baseado na exploração de tipo imperialista. De todo modo, vale dizer que para um brasileiro não nos parece que teria sido necessário esperar até 1914 para ver afloradas as contradições do modelo de acumulação capitalista do período. Não podemos deixar de sentir um leve desconforto ao nos referirmos como bela época um período que no Brasil, por exemplo, boa parte da população vivia ainda sob as amarras do escravismo moderno. Contudo, abordar os impasses e incompatibilidades de uma historiografia produzida no centro do capitalismo que não levava em conta o que se passava na periferia fogem do escopo do artigo. Sendo assim, o autor sugere aos leitores a mesma dose de cinismo por ele adotada ao analisar o período em questão com base no caso europeu.

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