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Emmanuel Macron não é seu amigo

Emmanuel Macron é um amante do Vale do Silício e odeia os sindicatos. Um centrista da terceira onda, ele não é um baluarte contra a extrema-direita.

Emmanuel Macron em maio - Jeso Carneiro / Flickr
Emmanuel Macron em maio - Jeso Carneiro / Flickr
Jacobin

Se você vive em alguma parte da realidade, reconhece que o mundo atual está testemunhando o ressurgimento do liberalismo e da tolerância graças a uma determinada trupe de líderes americanos e europeus.

Hillary Clinton está liderando a “resistência”, enquanto o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e a chanceler alemã, Angela Merkel, estão na linha de frente lutando contra a invasão da barbárie de direita. (Não se preocupe, é claro que Merkel é uma conservadora que se opõe ao casamento gay e passou anos levando a Grécia à pobreza e que Trudeau combina a política energética de Donald Trump com a política de venda de armas de Donald Trump.)

O último recruta para esta linha de supostos “amigos do mundo real” é o líder francês Emmanuel Macron, que na corrida presidencial de maio ganhou de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (que não é mais anti semita, ela insiste). Desde então, Macron tem sido objeto de admiração de liberais do mundo inteiro, tendo especialistas e observadores que veneram sua coragem de enfrentar Trump e Vladimir Putin, além de rejeitar a xenofobia a la Le Pen.

Como Trudeau e Obama, Macron é jovem, bonito e carismático. E, assim como Clinton (e particularmente Trudeau), ele abraçou mostras simbólicas do liberalismo social, ao mesmo tempo que se posicionou explicitamente como um obstáculo contra a extrema direita. Tudo isso ajudou a tornar turvos os elementos mais desconcertantes de suas crenças, em particular o seu firme apoio às reformas econômicas que podem levar a França a um tipo de livre-mercado ainda mais profundo.

Nesse sentido, podemos pensar em Macron como uma versão atualizada e francesa de Bill Clinton e Tony Blair, com uma quantia da nova geração de terceira via. Ele se coloca conscientemente como o “outsider” que romperá com a política comum em defesa da decência e da democracia – e ele fez tudo ao serviço da implementação de uma agenda econômica de direita.

O “Insider”

“A França está paralisada devido às tendências da elite de se auto-servir”, Macron disse em um comício em abril. “E eu vou contar um segredo: eu sei porque já fui parte dela.”

Macron está certo em certa medida: de fato ele fez parte da elite, mas é difícil sustentar que ele saiu. Em 2004, Macron se formou na École Nationale d’Administration (ENA), uma universidade de elite para funcionários públicos.

Nos Estados Unidos existe a Ivy League. No Reino Unido tem Oxbridge e Eton. Mas ninguém dá crédito para a ENA, que já formou quatro presidentes franceses e oito de seus últimos dezesseis primeiros-ministros – sem citar os diversos funcionários públicos e ministros (muitos dos ministros de Macron se formaram na ENA). Em 2012, quatro presidenciáveis tinham sido formados pela ENA.

Depois de se formar, Macron naturalmente entrou para o governo, ganhando um cargo de elite reservado para os melhores graduados na Inspeção Geral de Finanças, órgão fiscalizador do Ministério da Economia. Em 2007, o governo de Nicolas Sarkozy o escalou para trabalhar na “Comissão Attali”, um painel de reforma econômica cujo relatório final ele ajudou a redigir.

No mundo incestuoso de governos e negócios, os contatos que Macron fez no governo se mostraram úteis para trilhar sua carreira na iniciativa privada. Sendo um filósofo formado sem experiência no ramo financeiro, Macron conseguiu um emprego na Rothschild, um dos principais bancos da França. De acordo com o Financial Times, foi o amigo e inspetor financeiro Alain Minc que conseguiu uma entrevista para ele.

Os contatos de Macron no governo atuaram no lugar de sua falta de conhecimento financeiro, levando-o para as alturas. Como disse o Wall Street Journal, ele foi recomendado como um danseur mondain, “uma pessoa única com muitos contatos”, de acordo com um membro da equipe, que poderia usar seus contatos para conseguir trabalho para a empresa. O acordo que fez a fortuna de Macron – a compra de uma filial da farmacêutica Pfizer por $12 bilhões em 2012 – foi facilitada pelo fato do presidente da Nestlé ter participado da “Comissão Attali”.

Enquanto estava na Rothschild, Macron trabalhou na vitoriosa campanha presidencial de François Hollande de 2012, pela qual ele foi premiado por Hollande com o cargo de secretário-geral adjunto. Dois anos depois, ele foi indicado como Ministro da Economia, e nesse período ele fazia questão de assegurar que havia publicidade para si próprio (algo pelo qual Hollande o provocava individualmente). Então, em 2016, sentindo uma oportunidade, ele lançou um novo grupo político chamado En Marche, um esforço transparente para estabelecer as bases para uma campanha presidencial. Hollande e seu grupo interno viram isso como um tapa na cara, mas era completamente previsível para aqueles que conheciam Macron.

“Ele sempre quis fazer parte da política, ser eleito” disse Gaspard Gantzer, um assessor de Hollande que estudou na ENA com Macron. “Ele falava disso o tempo todo”. Quando um colega de classe da ENA perguntou a ele como se via em trinta anos, ele respondeu “como presidente da República”.

A vida adulta de Macron se baseou naquilo que é, em essência, uma fábrica de políticos. Servir oito anos no governo, trabalhar quatro anos para um banco multinacional com bons contatos em que ele regularmente aprofundava seus contatos com o governo – tudo antes de se tornar presidente. Se o establishment tentou “matá-lo”, o fez com carinho.

“Ao mesmo tempo”

Durante a campanha, não era segredo que Macron queria ser um “Obama francês”. Ele demonstrava isso publicamente. Macron fez uma campanha estilo Obama, que exaltava positividade, esperança, otimismo e unidade, tentando se apresentar perante algum tipo de cenário de zona fantasma fora do espectro ideológico.

“Eu quero ganhar um voto de confiança”, ele disse à revista Time. “Quero convencer os franceses que um projeto positivo e progressista é a melhor saída para nossos desafios”.

Os seus adversários reclamaram que ele monopolizava as capas de revistas brilhantes com um discurso vazio. Ele criticava Le Pen por sua retórica de ódio, se distanciava orgulhosamente de Trump (“eu não quero construir um muro… Vocês se lembrar da Linha Maginot?” ele brincava) e cautelosamente evitava proclamar políticas específicas (quando perguntaram qual seria sua resposta para a crise dos refugiados, ele respondeu, sem entrar em detalhes “eu almejo um asilo político que seja humano e eficiente”).

Ele dizia que seu movimento não era “nem de direita nem de esquerda” e ganhou uma reputação por usar incessantemente a frase “ao mesmo tempo”.

No entanto, para seus aliados, isso não era prova de seu vazio, mas sim de seu intelecto. De fato, uma outra característica notável da marca Macron é de que ele é um tipo de Jimmy Neutron francês, um garoto gênio cuja inteligência formidável é incompreensível para meros mortais. Suas declarações de “ambos os lados” não era uma forma calculada de evitar tomar lado, mas um reflexo de sua “ preferência pelo pensamento complexo”, afirmou a Le Monde.

“Emmanuel Macron nunca foi uma criança como as outras”, disse a jornalista Anne Fulda, que escreveu a biografia Emmanuel Macron: Um Jovem Perfeito. Ao explicar como ela se apaixonou por ele, sua esposa diz que ela foi “completamente subjugada pela inteligência desse jovem” cuja “mente é tão cheia e perfeita” e cujas “capacidades são completamente além das de qualquer ser humano normal”. Em particular, ela disse a um amigo que se sentia “trabalhando com Mozart”.

Em seu livro, Macron descreve como costumava passar horas estudando história, geografia e gramática com sua avó desde os cinco anos de idade; um de seus professores disse que Macron “tinha um alto nível de inteligência, acima da média, com a capacidade de absorver e interpretar conceitos complexos e contraditórios, integrando-os com suas próprias ideias”.

Este perfil o acompanhou até a presidência: Macron ignorou o costume de quatro décadas de realizar uma conferência no Dia da Bastilha, porque o seu “processo de pensamento complexo presta mal” a este formato. Alguns desses pensamentos complexos? Que o antissionismo é uma “reinvenção do antissemitismo” e que os problemas na África são “civilizatórios”.

Não à esquerda, mas à direita

Deixemos de lado o intelecto aparentemente demagogo de Macron e sua crença em estar acima das preocupações político-ideológico dos mortais. O que ele realmente defende? Um programa convencional de terceira via, aparentemente.

Apesar de ser ex-membro do Partido Socialista, Macron passou a última década tentando fazer a França se mover para a direita. A “Comissão Attali” informou que ele ajudou a elaborar uma proposta de “ampla liberalização da economia”, nas palavras da The Economist. As suas recomendações incluíam desregulamentar profissões como taxistas e farmacêuticos, além de reduzir as taxas de previdência social pagas pelos trabalhadores ao passo em que aumentava impostos.

Antes de ser nomeado, Sarkozy tentou convencer Macron a se juntar à sua equipe. Porém, Macron, sempre oportunista, deixou explícito que apostava que Hollande seria presidente em 2012. Um ex-conselheiro de Sarkozy percebeu que apesar de Macron se declarar de centro-esquerda, “intelectualmente eu não vejo bem nada que nos distancia, pelo menos em assuntos econômicos”. Posteriormente o jornal conservador Le Figaro o classificou em primeiro lugar em sua lista dos “cem líderes do amanhã”.

No entanto, seria no governo Hollande que Macron ganharia a reputação de cópia de Tony Blair e pressionaria o presidente a adotar medidas econômicas de direita. Não é segredo que Macron via as políticas trabalhistas francesas como um obstáculo a ser desmantelado. Ele reclamava que “acumular direitos trabalhistas é uma armadilha que se acaba se tornando um obstáculo para os desempregados”. Ele disse que a França precisa “mudar o modelo social recheado de proteções formais para afrouxar o que estrangula a economia” e argumentou que “ao proteger demais, nós acabamos deixando de proteger”. Ele reconheceu que as reformas “provavelmente serão dolorosas”, mas que “a França sairá vitoriosa.”

Dessa forma ele persuadiu Hollande a abandonar a proposta de cobrar um imposto de 75% sobre aqueles que ganham mais de €1 milhão, dizendo que isso faria a França se tornar uma “Cuba sem sol”. Em seu primeiro dia, ele causou um tumulto ao insinuar que poderia deixar as empresas alterarem a jornada de trabalho de 35 horas por semana. Ele quis alterar os benefícios dos desempregados, irritando os sindicatos.

Ele ajudou a convencer Hollande a adotar o “Pacto de Responsabilidade” em 2012, que negociou uma redução de €50 bilhões nos gastos públicos ao passo que estabelecia um desconto de €40 bilhões em impostos para as empresas. Para tentar evitar uma “década perdida”, Macron e sua cúmplice alemã também divulgaram um relatório em 2014 pedindo um “New Deal”.

Mas não era o “New Deal” do seu avô. O relatório alertava que “a tamanha ineficiência do governo” era “um problema que precisava ser resolvido”. O relatório pedia a flexibilização da jornada de 35 horas semanais, tornando os contratos abertos mais atrativos e contratos fixos menos atrativos, alterando a frequência de negociação salarial, vinculando o salário mínimo à produtividade ao invés da inflação e permitindo que as empresas pudessem introduzir a “flexibilização” em tempos de “maior competitividade” e não somente durante uma recessão.

Essas iniciativas culminaram na “Lei Macron” de 2015. Entre outras coisas, a nova legislação desregulamentou certas indústrias, permitindo o trabalho aos domingos e facilitando a demissão de trabalhadores. Quando protestos de massas ocuparam as ruas, os apoiadores levaram a lei ao parlamento – não uma, mas duas vezes – usando um mecanismo constitucional questionável.

As controversas medidas faziam parte de uma visão mais ampla de economia de Macron. Em 2014 ele explicou que “nós não retornaremos aos Trinta Gloriosos” – os anos de ouro na França pós Segunda Guerra Mundial – “com os mesmos empregos e as mesmas empresas”. Ao contrário disso, “as pessoas jovens vão vivenciar de dez a vinte mudanças em seus trabalhos, elas vão trabalhar mais, os seus salários não vão aumentar, não o tempo todo.”

Esta é uma visão de uma economia uberizada, uma visão que pessoas como Macron consideram excitante e inovadora, enquanto outros – digamos, os trabalhadores – podem ver como distópica e horripilante. É compatível com a ideologia de Macron. Ele lamenta que empreendedores frequentemente tenham “uma vida mais dura que os empregados” porque “podem perder tudo e têm poucas garantias”. A versão do Macron sobre a esquerda se vincula a “recriar as condições de investir, produzir e inovar.”

Macron disse que quer que a França “pense e aja como uma startup” e que sua inspiração é o Vale do Silício – um lugar que cria abusos no trabalho de forma desenfreada, desigualdades insustentáveis e péssimas condições de trabalho na mesma medida em que cria inovação e “positividade”.

Não é de se admirar que Macron tenha uma relação ruim com os trabalhadores. Durante a sua campanha, em um subúrbio controlado pelos comunistas, os sindicalistas jogaram um ovo nele e mandaram ele “se ferrar”. Ao visitar uma fábrica que estava demitindo muitas pessoas, uma mulher gritou para Macron que lamentava não ter trabalho. Macron respondeu que era “importante não sentir raiva e estar aberto a novas perspectivas”.

Em outro acidente mais infame, durante uma visita a uma escola de Lunel, Macron entrou em uma briga com manifestantes que protestavam contra as reformas trabalhistas do governo socialista. Macron disse a um professor de 70 anos que, se ele estava preocupado em ficar desempregado, ele devia abrir o seu próprio negócio. Quando um desempregado de 21 anos disse a Macron que não tinha condições de comprar um terno bonito como o dele, ele respondeu que “a melhor forma de comprar um terno é trabalhando por um”.

Macronismo em ação

Fazer campanha é uma coisa, governar é outra. Então vamos lá: o que Macron fez desde que chegou à presidência?

Mantendo seu compromisso com o neoliberalismo e com um modo de fazer política a partir de compromissos ao invés de laços partidários e ideológicos, Macron montou uma equipe de governo com 50% de mulheres, além de dividi-lo entre direita e esquerda. De forma orquestrada, no entanto, tanto seu Ministro da Economia como seu Ministro de Contas Públicas estão bem à direita. De acordo com o Telegraph, o primeiro quer a “privatização dos escritórios da França, o fim de empregos subsidiados e o corte de direitos sociais.”

Algumas das propostas de Macron não são tão ruins, como limitar a 12 o número de alunos nas salas de aula de “zonas de educação prioritária” e dar um vale de €500 para jovens de 18 anos comprarem livros ou terem qualquer outro tipo de acesso à cultura. Ele também quer acabar, até 2040, com a venda de carros a petróleo e diesel e introduzir representações proporcionais no parlamento.

Outras não são tão boas. Apenas 16 dias após assumir a presidência, Macron começou uma consulta sobre reformas trabalhistas. Sua intenção era ir ainda mais longe que as reformas anteriores, incluindo retomar pontos que haviam sido descartados na Lei Macron de 2015 e propostas de seu “New Deal” de 2014. As medidas incluíam limitar o pagamentos por demissões sem justa causa, permitir que acordos internos se sobreponham à lei, reduzir o tempo em que os trabalhadores enfrentam redundância no processo produtivo e facilitar que empresas demitam trabalhadores por “razões econômicas”.

Aqui uma das propostas mais regressivas de Macron em relação a impostos: um corte orçamentário de €64,5 bilhões em cinco anos, de forma que as autoridades municipais tenham que cortar €13 bilhões – isso representa, respectivamente, €4,5 bilhões e €3 bilhões a mais do que ele prometeu durante a campanha. Ele também planeja reduzir os impostos locais sobre unidades domésticas, fazendo os governos municipais sangrarem.

Em um de seus momentos mais francos, o governo de Macron admitiu que suas políticas não são exatamente progressistas. Quando o Financial Times sugeriu ao Primeiro Ministro Edouard Philippe que a política para a economia estava à direita, ao contrário do que Macron dizia durante a campanha, ele riu e respondeu “Sim. O que você esperava?”

Possíveis medidas futuras incluem reduzir imposto sobre imóveis (preço:€10 bilhões) e, na esperança de atrair bancos para a França que devem deixar Londres devido ao Brexit, remover o maior saldo de impostos sobre a folha de pagamento de banqueiros, o que significa uma redução de até 50%, e estabelecer o direito de excluir os impostos sobre imóveis estrangeiros e ativos por oito anos. O imposto sobre as empresas também seria reduzido em 25% até 2022.

Com um conjunto de políticas econômicas que faz o mundo financeiro babar, alguém pode ter esperança que o resto do programa de Macron é ao menos tragável. Mas assim como o discurso dos demais que se colocam como uma alternativa, a política de Macron só vai longe quando abandona o reino da retórica.

Assim como Trudeau, Macron se dizia feminista, dizia que queria que o cargo de Primeiro Ministro fosse ocupado por uma mulher e pediu que mais candidatas mulheres se juntassem ao seu partido. Porém, como bem escreveu Pauline Bock do New Statesman’s, Macron escolheu um homem como Primeiro Ministro, escolheu um homem como porta-voz enquanto havia duas mulheres como possibilidade, além do fato de a paridade de gênero em disputas eleitorais já ser uma lei na França. Pior que tudo isso, os seus cortes orçamentários vão atingir de forma mais profunda as mulheres refugiadas e todos os tipos de programas no qual as mulheres francesas dependem.

E em relação aos direitos LGBTs? Macron foi elogiado e aplaudido por desafiar Vladimir Putin sobre a Síria, propaganda russa e direitos gays. Sem objeções aqui. Mas o que acontece quando essas críticas devem ser levadas a um Estado que não é o atual bicho-papão do Ocidente? Como, por exemplo, a Arábia Saudita, um estado violentamente repressivo, misógino e homofóbico.

Macron disse que “seria um erro mostrar apoio excessivo a Arábia Saudita, como já fizemos no passado”. No entanto, como Ministro da Economia, ele apoiou a linha do partido quando Hollande cobria o regime. Macron foi uma das diversas autoridades importantes que se reuniram com o príncipe herdeiro quando ele visitou Paris para receber a Legião de Honra em 2016 – uma reunião que Macron não colocou em sua agenda pública.

Quando questionado sobre as vendas de armas para aquele país durante a campanha, Macron descartou a questão, dizendo que “a França não vendeu muito para a Arábia Saudita”. Mas fato é que os sauditas se constituíram como o principal cliente de arma de fogo da França na última década, estando o Catar em um segundo lugar relativamente distante. A França autorizou US$18 bilhões em licenças de armas para a Arábia Saudita em 2015 e o fornecimento de armas ao país foi celebrado pelo governo, mesmo que alimentando a guerra terrível dos sauditas no Iêmen. A decisão de Macron de minimizar o problema é uma reação peculiar de alguém que declarou em seu discurso inaugural que “a França sempre se certificará de estar do lado dos. . . direitos humanos.”

Quando Macron não está fazendo promessas vazias em defesa dos direitos humanos, Macron está ocupado abraçando os militares. Sua posse foi carregado de simbolismo militar para mostrar sua “profunda empatia pelos defensores da liberdade”. Após ser criticado pelos militares devido aos cortes no orçamento da defesa, ele rapidamente retrocedeu e prometeu aumentar os gastos militares nos anos subseqüentes, elevando-o para 2% economia em 2025 – em contraposição aos atuais 1,7% – ainda que tenha cortado gastos públicos em outras áreas.

Para quem é um suposto ideal do liberalismo internacional, Macron também provou ser um defensor bastante pobre dos direitos democráticos liberais. Macron anunciou que acabaria com o estado de emergência em que a França está desde 2015 ao mesmo tempo em que prometeu novas leis antiterroristas que permitiriam que as autoridades fechassem os locais de culto e assegurassem as áreas que considera de risco, sem a permissão dos tribunais. Macron também tornar permanentes algumas das leis de emergência, inclusive aquelas que capacitam as autoridades a colocar as pessoas em prisão domiciliar, solicitar buscas domiciliares e proibir as reuniões públicas sem aprovação de juiz. (Estas leis já foram usadas contra centenas de militantes, ambientalistas e ativistas dos direitos trabalhistas).

Os gestos antidemocráticos fazem parte da trajetória de Macron. Em julho de 2015, ele lamentou que a derrubada da monarquia após a Revolução Francesa deixou um “vazio emocional, imaginário e coletivo” que o presidente francês deveria preencher. Quando no poder, de forma conveniente, Macron não só declarou seu desejo de passar suas reformas econômicas impopulares por decreto, ao invés de por vias parlamentares, mas também que quer cortar o número de legisladores por um terço, ameaçando colocá-lo sob referendo, se o parlamento não concordar.

Em um longo discurso de uma hora, Macron disse a deputados que o processo legislativo seria simplificado uma vez que “o ritmo da concepção das leis deve atender às demandas da sociedade” em áreas onde uma resposta rápida é particularmente necessária, destacando a segurança e, entre todas as demais coisas, direitos autorais digitais. Ele classificou a “proliferação legislativa” como uma “doença”, sugerindo que o parlamento deveria assumir um papel mais “de supervisão” enquanto o Executivo deveria atuar e advertir contra transformar a vulnerabilidade da nação em uma “enfermaria permanente de Estado”.

Dada a forma como Macron foi eleito, talvez o ponto mais irritante seja sua política referente à imigração. Macron se apresentou conscientemente como o candidato anti-Le Pen. Recentemente, seu governo revelou planos para encurtar o processo de pedido de asilo de um ano para seis meses e criar mais lugares para os que procuram de asilo. Em junho, um porta-voz do governo anunciou que Macron havia mandado que as autoridades locais mostrassem “mais flexibilidade” e “humanidade” em relação aos imigrantes. E em julho, a polícia levou milhares de imigrantes que dormiam no chão duro para abrigos temporários.

No entanto, Macron também nomeou Gérard Collomb como Ministro do Interior, que adotou uma linha dura contra refugiados. Ele descartou a criação de um novo centro de acolhimento de imigrantes em Calais porque “nós não queremos criar um ponto de encontro onde os números podem inflar”, enviou mais 150 policiais para evitar que imigrantes levantassem novas tendas e prometeu enviar mais policiais para evitar que a área se torne uma “úlcera”, apenas um dia após a ordem de Macron para “mais humanidade”. Collomb se referiu aos imigrantes como “enigmáticos” e sua posição foi louvada pela Generation Identity, um grupo juvenil de extrema direita que ofereceu seus serviços ao ministro.

As forças francesas de segurança também continuaram seu tratamento severo aos imigrantes sob o comando de Macron. Grupos humanitários acusaram a polícia de bater nos imigrantes em Calais, colocando gás em seus sacos de dormir e em seus cantis para torná-los inutilizáveis e impedindo que grupos de ajuda distribuíssem água e alimentos. Acusações semelhantes foram posteriormente repetidas pela Justiça Nacional, levando atores franceses de alto perfil e políticos a recorrerem a Macron. Segundo o Médicos Sem Fronteiras e um grupo de ativistas franceses LGBT, esse assédio continuou após a ordem de Macron. E em resposta à sua conversa de que não ouviu “o suficiente sobre o pedido de ajuda da Itália referente à crise da imigração”, as autoridades italianas afirmam que não há diferença substancial entre a abordagem de Macron e Hollande em relação à manter a fronteira fechada.

Imagine a relutância dos liberais se uma figura mais nociva atendessem às mesmas políticas – buscando minar o poder da lei, reduzir os impostos sobre os ricos e enfraquecer as proteções dos trabalhadores por decreto executivo, assediar imigrantes e sistematizar permanentemente medidas emergenciais antiterroristas.

Um mandato para resistir

A auto-representação de Macron como corajoso e um outsider que desafia a ortodoxia foi sempre uma farsa. Sua trajetória prévia e suas atitudes na presidência evidenciam que ele é um político convencional de “terceira via”, cuja vontade de conquistar vacas sagradas e desafiar as estruturas de poder apenas se mantém se estas vacas sagradas e estas estruturas de poder são os sindicatos e os direitos dos trabalhadores. Basta analisar a rapidez com que Macron se corrigiu quando o exército francês se colocou contra o corte de gastos.

A maioria da imprensa ao menos reconhece essa realidade, se referindo a ele como um “centrista”. No entanto, o que é incompreensível é como, apesar do seu histórico, sua imagem continua sendo a de um líder dos direitos dmocráticos e liberais em muitos círculos.

A maior preocupação é que Macron, impulsionado pela dormência global e seu suposto mandato eleitoral, conseguirá implementar sua agenda com sucesso. Em relação ao seu mandato, Macron está certo em um ponto – ele bateu Le Pen por 32 pontos – mas errado em outro, muito mais significativo: as eleições francesas tiveram a menor participação na história, mergulhando abaixo dos 50% pela primeira vez, sugerindo que a população francesa não estava muito feliz com os candidatos e que muitos votaram em Macron simplesmente como uma forma de impedir o neofascismo francês. A aprovação da Macron já caiu dez pontos.

Macron está apostando que suas políticas farão com que o desemprego caia para 7% até 2022. Talvez caia. Mas, historicamente, reduzir os empregos do setor público e restringir os gastos públicos ao privar o governo de dinheiro cortando impostos sobre os ricos não teve um bom retorno.

Com a ausência de uma oposição de massas, Macron provavelmente irá exacerbar a desigualdade e a insegurança econômica que ajudaram no crescimento de Le Pen – só que, dessa vez, ela também herdaria as leis antiterroristas que Macron planeja dar andamento.

Então Macron não é algo a se comemorar. Ele pode ter bloqueado temporariamente a extrema direita de tomar o poder na França, mas ele está fazendo tudo o que pode para trazê-la de volta com tudo.

(Artigo publicado pela revista norte-americana Jacobin. Tradução de Adria Meira)

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