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Índia, 70, e a passagem de outra ilusão

Na semana em que se completa 70 anos da independência da Índia, ensaísta indiano discute a destruição do imaginário de libertação e igualdade dos fundadores do país.

Indianos se banham na região de Pandurpur - Reprodução
Indianos se banham na região de Pandurpur - Reprodução

O dia 15 de Agosto de 1947 merece ser lembrado, de acordo com o escritor afro-americano W.E.B du Bois, “como a maior data histórica” da história moderna. Foi o dia em qul a Índia se tornou independente do domínio Britânico, e Du Bois acreditava que o evento era de “maior significância” do que até mesmo o estabelecimento da democracia na Grã Bretanha, a emancipação dos escravos nos Estados Unidos ou a Revolução Russa. A época em que “enquanto o homem branco, pela cor de sua pele, podia dominar as pessoas de cor” estava finalmente chegando ao fim.

Não é muito lembrado atualmente que a liberdade da Índia anunciou a liberação, de Tuskegee a Jakarta, da maioria da população mundial das degradações do imperialismo racista. O primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, afirmou que não houve nada “mais horrível” na história humana do que os dias em que milhões de africanos “foram levados embora em conveses de navios como escravos para a América e outras partes do mundo.” Como ele disse em um discurso ressonante em 15 de agosto de 1947, a Índia fez, muito tempo atrás, um “encontro com o destino”, e agora, abrindo um novo horizonte da emancipação humana, “nós devemos resgatar nossa promessa”.

Mas a Índia, que completou 70 anos essa semana, parece ter perdido o seu compromisso com a história. Um país inaugurado por lutadores da liberdade secular é atualmente comandando por supremacistas raciais e religiosos. Mais perturbador ainda do que essa mutação são as continuidades entre estas encarnações precoces de virtude pós-colonial e o seus aparentes traidores de hoje.

Du Bois teria tido o coração partido ao ler a declaração coletiva de mais de 40 governantes africanos publicada em abril que denunciava ataques “xenófobos e raciais” a africanos e indianos e pedia ao Conselho de Direitos Humanos da ONU investigações. O aumento de crimes de ódio contra africanos é parte de uma tendência sinistra que vem aumentando desde que o nacionalista hindu Narendra Modi chegou ao poder em 2014.

Outra dessas manifestações sangrentas foi o linchamento de muçulmanos suspeitos de comer e estocar carne. Outras incluem ainda ataques a casais que demonstraram afeto em público e ameaças de estupro em redes sociais a mulheres realizadas por um exército de chacota de supremacistas hindus. O frenesi mafioso na Índia é hoje martelado por âncoras televisivos jingoístas e reivindicado, normalmente no twitter, por antigos políticos, homens de negócio, generais do exército e estrelas de Bollywood.

Nacionalistas hindus também vieram junto justificar a ocupação militar da região majoritariamente mulçumana de Kashmir, como também uma caçada nacional por inimigos: uma categoria crescente e em constante mutação que inclui escritores, intelectuais liberais, cineastas que trabalham com atores paquistaneses e cidadãos ordinários que não se levantam quando o hino nacional é executado em cinemas. A nova ordem mundial – justa, pacífica, igual – que os lideres indianos prometeram na independência enquanto denunciavam a violência, a ganância e a hipocrisia de seus antigos mestres ocidentais não está a vista.

De volta a 1947, Du Bois tinha boas razões para esperar que a Índia ofereceria uma alternativa superior à modernidade destrutiva do oeste. Seu herói, Mohandas K. Gandhi tinha vivido em três continentes no momento em que a primeira fase da globalização terminou violentamente com a Primeira Guerra Mundial. Gandhi experienciou de modo íntimo como os imperialistas e capitalistas ocidentais misturaram desigualdades econômicas com hierarquias raciais, como Du Bois escreveu: “uma nova escravidão industrial de trabalhadores negros, marrons e amarelos na África e na Ásia.” Gandhi estava determinado em não deixar a Índia pós-colonial replicar as injustiças construídas na civilização moderna ou, como ele colocou, “a regra inglesa sem o homem inglês”.

Dessa perspectiva, Gandhi pode parecer ter escolhido o seu protegido imprudentemente: Nehru era o descendente de uma família rica de Brâmanes anglófilos. Mas Nehru recebeu sua própria educação em matéria de desigualdades globais através de pessoas que ele conheceu por redes da esquerda internacional. Em uma gama abrangente de questões, os dois homens compartilharam uma retórica que expressava a preferência pela solidariedade, a compaixão e o diálogo ao invés da violência.

Gandhi clamava para “entender o anseios de um judeu retornar à Palestina”, mas alertava os sionistas para não fazerem isso “sob a sombra da arma britânica”. Já em 1948, Nehru, então primeiro-ministro eleito, sacrificou os laços comerciais lucrativos que a Índia tinha com a África do Sul em protesto contra o apartheid. Em 1947, a Índia votou na ONU contra a repartição da Palestina porque, Nehru explicava a Albert Einstein, os sionistas tinham “falhado em ganhar a boa vontade dos árabes”. Desconfiado dos motivos norte-americanos, Nehru desprezou um potencial acordo recompensador com os Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Mas líderes indianos muito raramente praticaram domesticamente o que eles proclamavam internacionalmente. Embora comprometidos com os procedimentos parlamentares, Nehru nunca abandonou o estado colonial criado pela Grã Bretanha e sua maquinaria de repressão. O poder bruto da polícia e do exército indiano foi usado em 1948 para anexar o principesco estado de Hyderabad à União Indiana. Quase 40 mil mulçumanos foram mortos, e o episódio continua sendo o único grande massacre na história da Índia independente.

Nehru compartilhava com nacionalistas hindus uma fé mística na continuidade essencial da Índia de uma antiga civilização em direção a uma nação moderna. Determinado em aguardar até Caxemira, por exemplo, ele abandonou sua promessa em organizar um referendo para decidir o contestado estatuto político da região. Em 1953, ele depôs um político popular (e seu amigo) da Caxemira e mandou-o para a prisão, inaugurando um longo reinado de líderes fantoches que continuaram a se enriquecer sob a longa sombra da arma indiana.

Já em 1958, o regime de Nehru introduziu o Ato dos Poderes Especiais das Forças Armadas, o precursor de uma legislação repressiva que hoje sanciona assassinatos, torturas e estupros por soldados indianos na Índia central e em províncias fronteiriças. Foi sob Nehru que as tropas indianas e paramilitares foram utilizadas contra indígenas nos estados do nordeste indiano nos anos de 1950 e 1960. Foi Nehru quem em 1961 tornou crime questionar a integridade territorial da Índia, punível com aprisionamento.

Ainda aos olhos do mundo, a Índia manteve o seu status excepcional por décadas, enquanto muitos experimentos pós-coloniais promissores com democracia se degeneraram em autoritarismo, quando não em governos militares. A política democrática do país parecia estável. Mas assim o era somente porque ela estava reduzida ao domínio de um só partido, o Congresso, que era por sua vez dominado por uma só família – os Nehrus. E longe de ser socialista ou distribucionista, as políticas econômicas de Nehru aumentaram os monopólios capitalistas indianos. Sua prioridade foi a indústria pesada e a formação de politécnicos de elite, o que impediu maiores investimentos em educação primaria, saúde e reforma agrária

A dependência do Congresso à casta reacionária dos hindus também minou qualquer possibilidade de políticas emancipatórias aos dalits até o começo dos anos de 1990. (Eram os membros da casta hindu, incidentemente, que foram os primeiros na história da república a banir o abatimento de vacas em muitos estados nos anos 50). Nos anos 80 – depois de Nehru ter sido substituído por sua filha, Indira Gandhi, no comando do Congresso e do país – foi que o partido escolheu a supremacia hindu, e a hostilidade a mulçumanos e sikhs, como a rota mais curta para o sucesso eleitoral. Foi uma estratégia nojenta e perigosa, que acabou por encorajar extremistas nos dois lados. Muito mais pessoas morreram no massacre anti-sikh conduzido pelo congresso em 1984 do que em 2002 no massacre de mulçumanos em Gujarat, no qual Modi é acusado de ter supervisionado enquanto ministro-chefe desse estado.

Os grupos de linchamento indianos de hoje em dia representam a última e mais horrível expressão dessas ideologias políticas cínicas. Enquanto a pura brutalidade do populismo de Modi se revela, a memória de um Nehru aristocrata vai sacralizando-se, especialmente entre políticos e comentaristas advindos das castas indianas anglófanas superiores. Mas Modi também transformou esse legado de grandes promessas em seu próprio beneficio político.

Nehru e seus seguidores articularam uma influente ideologia do excepcionalismo indiano, reivindicando prestigio moral e significância geopolítica para a peculiar, massiva e diversa democracia da Índia. Contudo, muitas dessas justas noções também cheiravam à santidade da casta superior e à privilégio de classe. Modi mobilizou efetivamente esses indianos que se sentiram por muito tempo marginalizados e humilhados pela elite que se beneficiava com Nehru em um grande banco de votos de ressentimento.

A fala virtuosa de unidade na diversidade e de secularismo foi substituída por um nacionalismo hindu descarado: as velhas máscaras e luvas esfarrapadas foram mostradas. O estado, colonizado por um movimento ideológico, está emergindo de maneira triunfante sobre a sociedade. Com a ajuda da mídia, ele está assumindo extraordinários poderes de controle – falando ás pessoas o que elas devem comer em suas casas e como elas devem se comportar público, e quais pessoas devem ser linchadas.

O comando de Modi representa a mais devastadora, e talvez final, derrota da nobre ambição da Índia pós-colonial em criar uma ordem mundial moral. Mostra que o imperialismo racista que Du Bois desprezava pode ressurgir mesmo entre suas antigas vítimas: pode haver a lei inglesa sem o homem inglês. A reivindicação indiana pelo seu excepcionalismo parece ter sido tão infundada como o excepcionalismo norte-americano.

Então, alguém pode lamentar esse dia 15 de agosto remarcando o fim do encontro da Índia com seu destino ou, mais precisamente, o colapso de nossas ideias exaltadas sobre nós mesmos. Mas uma avaliação sóbria do mal-estar da Índia pode também ser estimulante. Para isso, confirma-se que o mundo como conhecemos, moldado pelos beneficiários do imperialismo ocidental ou mesmo do nacionalismo anti-imperialista, está ruindo, e que no oriente, assim como no ocidente, todos nós estamos sendo chamados para novas lutas por liberdade, igualdade e dignidade.

O livro mais recente de Pankaj Mishra chama-se “Age of Anger: A Historý of the Present” (Idade da Raiva: Uma História do Presente).

(Artigo originalmente publicado no The New York Times. Tradução de Pedro Micussi.)

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Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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