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“A maioria pró-Putin pode rapidamente tornar-se anti-Putin”

Ativista russo desvela alguns aspectos essenciais da ideologia do regime russo e explica por que o governo de Putin pode não ser tão estável quanto aparenta.

O presidente russo Vladimir Putin - Reprodução
O presidente russo Vladimir Putin - Reprodução

Como você descreveria a ideologia do regime dominante na Rússia contemporânea? Em que valores está baseado o que alguns chamam de “Putinismo”? O que está por trás da fachada deste discurso sobre “vínculos espirituais” e “nosso passado glorioso”?

Ilya Budraitskis – Tem-se convencionado a achar que desde o terceiro mandato de Putin estamos vivendo uma virada conservadora. Se nos anos 2000 o regime apresentava-se como tecnocrático, colocando-se acima da política e simplesmente assegurando a integridade do país, a estabilidade, etc., nos anos 2010 temos observado uma evolução ideológica.

A orientação conservadora pelos valores tradicionais e uma agressiva ­­­retórica anti-ocidente ­­­­­­­­­fez muitos acreditarem, inclusive os oposicionistas, que o regime russo realizou uma revolução dos valores, e agora opõe-se à ordem mundial, o que estaria exemplificado pela política dos países ocidentais. Por vezes é afirmado que estamos passando por uma reencarnação fantasmagórica do estalinismo, do soviético, do projeto imperial, a qual caracteriza-se por negar os valores do mundo contemporâneo globalizado.

A mim parece que este entendimento de uma evolução ideológica representa uma armadilha. Eu não acredito que a Rússia tenha, a partir desta virada conservadora, se transformado em um espaço isolado do resto do mundo, onde prevalecem outras leis e reinam outros valores, onde o próprio povo transformou-se em um ou outro tipo antropológico – sovki [termo depreciativo para pessoas que continuam “presas” ao passado soviético, os membros sobreviventes do “Homo Sovieticus”], zumbis, vatniki [literalmente, “casaco acolchoado”, termo depreciativo para os russos nacionalistas de classe baixa].

Apesar da tentativa de Putin em transformar a própria Rússia, no nível retórico, em uma alternativa ao mundo contemporâneo, ela continua sendo completamente parte deste mundo. Apesar da virada conservadora, a Rússia não deixou nem por um minuto de ser parte da ordem capitalista mundial que é regida pelas leis do mercado. Nesse sentido, a retórica conservadora é uma parte constitutiva importante do espírito do capitalismo russo. Esse espírito não apenas não contradiz valores de mercado básicos como os dá uma nova forma e uma nova dissimulação.

Então isso revela que não temos nenhum valor especial que nos diferencie do ocidente?

Por vezes você pode ouvir – inclusive o próprio Putin disso isso mais de uma vez – que os russos têm valores diferentes do povo ocidental, e esses valores são coletivistas, o oposto do individualismo ocidental. Mas se você realmente pensa sobre essa afirmação, que às vezes é reproduzida, vem a questão: que tipo de coletivismo isso significa? Pelas nossas experiências de vida sabemos que a Rússia é um país de agressiva desigualdade social, com uma sociedade completamente atomizada e desintegrada, em que as pessoas geralmente pensam em seus próprios interesses e tomam seus vizinhos e outros moradores de sua cidades por competidores suspeitos, dos quais só se pode esperar golpes e truques sujos, e que implicitamente ou explicitamente cobiçam o nosso lugar ao sol. Nesse sentido, a sociedade russa é ainda mais individualista que a ocidental, que possuem várias formas de organização incomparavelmente mais desenvolvidas.

Mas ainda assim há um certo sentido por trás dessa dicotomia semioficial: ela sugere que o individualismo ocidental é o desejo de levar em conta os interesses da minoria (por exemplo, os “gays vaidosos” ou os “imigrantes preguiçosos”) que reivindica algum tipo de representação explícita garantida pelo Estado em detrimento dos outros cidadãos. De acordo com a retórica da mídia russa, Estados ocidentais sustentam manifestações de individualidade às custas do contribuinte. Mas o Estado russo defenderia os interesses da maioria, que se expressa no desejo do povo em receber por seu dinheiro o produto em cultura e educação que corresponda a seus valores tradicionais. Nessa interpretação, o princípio do coletivismo é simultaneamente um princípio de mercado. O coletivo aqui não é entendido como comunidade, em que todos os membros ajudam uns aos outros, mas como a maioria de compradores que “votam” com seus rublos [unidade monetária russa] por certos valores, o domínio que o Estado assim assegura. O Estado conservador não é nem mais nem menos do que um vendedor atencioso no mercado dos valores morais e culturais. Sua lei é o desejo do cliente.

Nessa interpretação da virada conservadora, não há um “caminho russo” particular. Evidentemente, nós encontramos essa combinação de mercado com um verniz de valores conservadores em outros países. Uma simbiose de nacionalismo, conservadorismo, obscurantismo religioso e uma inflexível política pró-mercado como essa (ainda que com especificidades locais e em diferentes proporções) está espalhada por toda a Europa Oriental, por exemplo. A mesma tendência está expressa na evolução dos republicanos dos EUA na última década. Nesse sentido, a Rússia não apenas não é única, mas como é o contrário disso – é a vanguarda de algumas tendências globais ou pan-europeias.

A arquitetura do moderno campo midiático russo é construída de uma forma que os atores que não concordam com a ideologia do regime dominante são automaticamente taxados de liberais. Mas como geralmente o liberalismo russo e seus adeptos se apresentam? E como podemos descrever sua relação com o atual regime dominante?

Sim, nos últimos anos, graças à propaganda do Estado, a própria palavra “liberal” tornou-se sinônimo de inimigo interno. Evidentemente, essa figura fantasmagórica é necessária para o poder dominante. A fim de insistir na unidade orgânica entre povo e governo, é necessário apontar aqueles que estão tentando destruir essa unidade. Empregado nesse sentido de uma minoria subversiva, o termo “liberal” perdeu completamente o contato com seu significado real, com a definição política de liberalismo. Do ponto de vista do poder, qualquer um que se oponha às leis repressivas, aos ataques aos direitos humanos, ou às restrições à liberdade de expressão, é automaticamente contado entre os liberais.

O outro lado desta falsa oposição é que se todos os inimigos do sistema existente são liberais, então o próprio sistema não pode ser liberal em nenhum sentido. No entanto, com a própria noção de um inimigo liberal coletivo, assim como com a rejeição ao liberalismo pelo sistema, nós nos defrontamos com dois problemas.

Primeiro, os liberais não são de forma alguma o único movimento de oposição na Rússia. Em nenhuma hipótese é necessário ser liberal para criticar as ações do governo, inclusive a sua repressão às liberdades civis.

Segundo, a política do atual governo é baseada em parte em princípios econômicos liberais. Se nós entendermos a lógica das reformas do governo na educação, saúde e cultura, nós iremos perceber que elas correspondem largamente ao que é comumente chamado de neoliberalismo: o predomínio do princípio da lucratividade, da eficiência “econômica” acima dos interesses da sociedade.

Finalmente, temos uma confusão entre aqueles que de fato expressão adesão ao liberalismo. De fato, por “liberal”, na tradição política russa, é normalmente entendido tanto aqueles que advogam pelo livre mercado e veem a democracia política como sua simples consequência, quanto aqueles para os quais liberalismo é primeiro e acima de tudo liberdades civis e direitos humanos.

É importante separar os defensores das liberdades civis dos defensores da liberdade econômica. Essas são concepções diferentes de liberdade, que na realidade entram em conflito entre si. A designação propagandística de todos os oponentes ao regime como liberais evita, dentre outras coisas, o esclarecimento das posições tanto entre a oposição como um todo, quanto entre aqueles que se auto denominam liberias.

Eu gostaria de discutir o comentário que Alexei Navalny fez em uma entrevista com Ksenia Sobchak na TV Rain. Ele disse que para a política contemporânea russa, a dicotomia esquerda-direita basicamente não funciona. Como você responderia isso?

Por um lado, eu concordo com a posição de Navalny. Os conceitos de “direita” e “esquerda” realmente não importam se estivermos falando da falsificação institucional que se faz da política. Se nós tomarmos o espectro dos partidos parlamentares, as noções de “esquerda” e “direita” não têm muito significado. Esses partidos não são realmente de esquerda ou direita porque eles não têm muita independência política. Suas ações não são determinadas por valores ou convicções, mas pelos administradores da presidência que são neutros a quaisquer valores. Não faz muito sentido dizer que Mironov é de esquerda e Zhirinovsky é de direita: isso é verdade.

Entretanto, isso não significa que as noções gerais de “esquerda” ou “direita” não têm significado no contexto russo. Nesse ponto não posso concordar com Navalny. Se nós queremos que a política não seja mero meio cínico de manipulação, mas um espaço em que defendemos certos princípios e visões sobre o desenvolvimento do país, a auto identificação no espectro ideológico é extremamente importante. Mesmo que hoje em dia esteja representado por pequenos grupos que não estão no parlamento.

Evidentemente, na Rússia existe uma verdadeira esquerda e uma verdadeira direita. Apenas fora da política institucional. Por que Navalny nega isso é também compreensível. Seu objetivo é incluir todas as pessoas de oposição ao regime em sua própria campanha eleitoral como voluntárias. E tecnicamente não é importante para ele quem são elas – se de esquerda ou direita.

A Crimeia realmente está agrupando a sociedade russa em torno de Putin? O seu apoio de 84%, como apontam as pesquisas, é uma expressão precisa da realidade?

Um dos principais mitos de formação do regime político da Rússia moderna é o mito da identidade do país, do Estado e do povo. Um mito expresso na famosa fórmula “Rússia é Putin. Putin é Rússia.”

A característica definidora e principal dessa mítica maioria é a passividade. Assume-se que esta maioria não é capaz de organizar-se e expressar-se independentemente, de modo que sua única representação e sua única voz é Putin. E esse é o ponto forte deste mito: ele insiste que todos ou todas que estejam por si mesmos são impotentes. Portanto, nós temos que nos reconhecer, via televisão, no Putin para aceitar de forma contemplativa sua resoluta determinação, sua energia, como o lado positivo de nossa passividade e impotência. Essa filosofia pessimista, é claro, tem impacto na consciência de muitas pessoas na Rússia.

Mas sua fraqueza origina da mesma fonte de sua força – da passividade. O apoio aos que estão no poder não é medido por nada além de estudos sociológicos. Como, por exemplo, nós sabemos que o povo apoia Putin? Nós não podemos mais saber isso pelas eleições, já que a participação está diminuindo cada vez mais e seus resultados não representam a verdadeira opinião da maioria. Além disso, naturalmente, nós não podemos concluir nada sobre o apoio majoritário a Putin pelas manifestações de massas, os comícios, etc. Nós observamos que as pessoas não participam voluntariamente destas manifestações de celebração e unidade com o regime. O poder administrativo tem de trabalhar para reunir um público mais ou menos razoável para as manifestações de apoio a qualquer política de Estado.

A única forma de confirmar o apoio popular que resta é o estudo sociológico. Mas esses questionáveis estudos não revelam quais elementos da política pública as pessoas apoiam. O principal paradoxo da maioria “A Crimeia é nossa” de Putin é que as pessoas que apoiam Putin podem ao mesmo tempo ser extremamente críticas a todas as manifestações concretas do Estado que está presente em suas vidas. Ao nível de suas vidas pessoais, elas não estão satisfeitas com a atual política social, elas não gostam da polícia russa, elas não acreditam na independência dos tribunais, elas estão extremamente insatisfeitas com a situação da saúde e educação, etc. Mas ao mesmo tempo elas apoiam Putin. E estas pessoas estão entre as 86% que, de acordo com a mídia e os sociólogos pró-Kremlin, apoiam Putin.

E é muito provável que em algum momento esse descontentamento concreto e qualitativo que está relacionado à experiência da vida real das pessoas irá se dirigir à figura abstrata do líder com a qual esse Estado se associa. Portanto, é possível imaginar que em algum dia essa fantasmagórica maioria pro-Putin de 86% poderá de repente se transformar em uma maioria anti-Putin de 86%.

(Entrevista originalmente publicada no site russo www.yuga.ru. Tradução de Gustavo Rego da versão em inglês publicada pela LeftEast.)

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