Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“O Partido Democrata esteve muito próximo dos interesses financeiros”

Em entrevista, Bernie Sanders discute o atual momento político estadunidense e sua proposta de seguridade social universal.

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O senador independente de Vermont, Bernie Sanders não relaxa sua pressão sobre o Partido Democrata. Em 13 de setembro ele enviou uma proposta de leio visando instaurar uma seguridade social universal nos Estados Unidos, apoiada por um terço dos democratas do Senado, dos quais boa parte são candidatos potenciais à eleição presidencial de 2020.

Gilles Paris – Qual é o objetivo de sua proposta de lei que a maioria republicana do Congresso jamais apoiaria?

Bernie Sanders – Ela mostra a direção que esse país deve seguir. É preciso começar por alguma coisa. É verdade, os republicanos não vão fazer nada, mas a única maneira de fazer as coisas mudarem é que as pessoas se mobilizem. É uma lei muito próxima das pessoas. O objetivo é que as pessoas a agarrem.

Você estaria disposto a mudanças mais graduais?

Não, alguns as desejariam, mas a direção que nós queremos dar é a da seguridade social para todos, como na França.

Um estudo da Kaiser Family Foundation mostrou em julho que existe uma maioria a seu favor, mas que ainda existem forte reticencias, notavelmente sobre o custo e sobre o papel que o Estado teria…

As pessoas sabem muita pouca coisa sobre a maneira com a qual você pode financiar a seguridade social, ou como os outros países fazem isso. E as mídias estadunidenses não as informam sobre esse assunto.

Nos Estados Unidos atualmente os gastos de saúde por pessoa é duas vezes maior que na França, maior do que qualquer outro país na terra, isso por causa das taxas destinadas às companhias de seguro privadas.

Quanto ao papel do Estado, existe certamente pessoas como os irmãos Koch, a segunda fortuna do país, que querem eliminar toda forma de governo, incluindo a educação pública. A sua influência e seus financiamentos políticos fizeram que essa se tornasse a ideologia do Partido Republicano, mas se você perguntar às pessoas sobre a saúde e se você perguntar a elas qual programa elas apreciam mais, elas vão responder que é o Medicare [programa público destinado aos idosos e deficientes]. Então, no fundo, eu não acho que as pessoas desconfiam do governo apesar das campanhas maciças e do desejo de privatizar boa parte de nossa economia.

No seu livro você aborda vários assuntos, o meio ambiente, a justiça, a economia, mas pouco sobre a estratégia, qual é a sua?

Eu sou um independente, mas eu trabalhei muito estreitamente com os democratas desde que eu fui eleito ao Congresso, há vinte e sete anos. O que eu quero é fazer que um número significativo de pessoas se engaje na política, pela base. A participação eleitoral nos Estados Unidos é muito fraca, as pessoas são muito desiludidas, elas não sabem como o sistema funciona, mas nós tivemos bons resultados ao longo dos últimos meses. Os jovens se engajam como nunca antes no passado, esse é o nosso objetivo: aumentar a participação, e dos jovens em particular. Se conseguirmos isso, acabaremos por transformar a política americana. O Partido Republicano multiplica os obstáculos para impedir o voto, para torná-lo mais complicado, porque ele sabe bem que sua política que visa suprimir os impostos para os ricos e suprimir os programas de saúde é muito impopular. Os republicanos ganham as eleições impedindo as pessoas de votarem, nós queremos fazer exatamente o contrário.

Mas você foi atacado no Partido Democrata durante boa parte de sua carreira política, como impor a ele suas ideias sem tomar o seu controle?

Atualmente, o apoio ao Partido Democrata, como ao Partido Republicano aliás, não para de diminuir. Houve muita frustração na opinião pública. Eu quero fazer entrar muitos independentes para promover ideias progressistas. O objetivo é transformar o Partido Democrata em partido progressista. Durante anos ele esteve muito próximo de pessoas muito ricas e dos interesses financeiros. É um partido que perdeu o contato com a classe operária, e que pagou o preço político. É um partido que se enfraqueceu. O seu modelo não funciona, é evidente, é por isso que é preciso transformá-lo.

Você e Donald Trump desenvolveram durante a campanha de 2016 temas às vezes similares. Vocês dois são agentes de uma mudança política?

A diferença entre ele e eu é que eu tento dizer a verdade, enquanto ele é um mentiroso patológico. Ele falou de seguridade social para todos e ele quer suprimi-la de milhões de estadunidenses. Ele falou em fechar a torneira de Washington, e ele fez vir para perto dele ainda mais bilionários e milionários em sua administração. Ele fez campanha com um programa de mudança, mas depois de sua eleição o programa se tornou aquele da classe dirigente do país. Eu acho que é preciso mudanças radicais em uma sociedade cada vez mais dominada por uma oligarquia.

Você leu o livro de Hillary Clinton em que ela critica o senhor?

Eu li alguns extratos, nós fizemos campanha um contra o outro, agora nós trabalhamos duro sobre os assuntos que nos são caros, eu não acho que reviver a campanha de 2016 trará algo de positivo a quem quer que seja. O que precisamos é se concentrar em ganhar as eleições de 2018 e recuperar a Casa Branca em 2020, é o que me importa no momento.

Nada de se aposentar?

Me aposentar? Você está brincando? Acabamo de nos aquecer!

(Entrevista realizada e publicada pelo jornal francês Le Monde. Tradução de Pedro Micussi.)

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Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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