Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Não seremos a província do atraso

A exposição Queermuseu, que colhe referências de diversidade e representações da comunidade LGBT na arte brasileira, suscitou a revolta de grupos de ódio.

Bia Leite, "Travesti da lambada e deusa das águas", 2013.
Bia Leite, "Travesti da lambada e deusa das águas", 2013.

O que a interdição de uma exposição após críticas distorcidas e ideologicamente dirigidas na internet revela sobre nosso estado? A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi encerrada pelo Santander Cultural por conta de ação orientada pelo Movimento Brasil Livre (MBL) nas redes sociais.

A exposição colhe referências de diversidade e representações da comunidade LGBT na arte brasileira. O exército de ignorantes motivados do MBL espalhou a mentira de que se trata de apologia à pedofilia e à zoofilia. Associar homossexuais à bestialidade e pedofilia é uma antiga tática de difamação promovida por grupos de ódio.

Em entrevista à Rádio Guaíba, o próprio promotor da Infância e Juventude de Porto Alegre, Júlio Almeida, disse que não há nenhuma referência à pedofilia na exposição Queermuseu. “Pedofilia, por definição legal, é a utilização de criança e adolescente em cena de sexo explícito, reprodução de sexo explícito ou simulação de sexo explícito, ou ainda a exposição de genitália de criança e adolescente. Isso não existe na exposição. Pedofilia não acontece”, afirmou, após visitar o local.

Durante 26 dias a sociedade gaúcha não viu nenhum problema deste tipo com a exposição Queermuseu. Mais de 20 mil pessoas circularam pela exposição.

Um dos quadros alvo de repúdio é o “Cena de interior II”. Trata-se de um trabalho de Adriana Varejão que denuncia a violência e as atrocidades do período colonial brasileiro. A obra faz parte do conjunto “História às margens” e já esteve exposta durante meses no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2012 – sem gerar absolutamente nenhum alarde. Adriana Varejão é uma artista mundialmente reconhecida. Em 2011, uma de suas telas, “Parede com incisões à Fontana”, foi arrematada por R$ 3 milhões num leilão em Londres.

Mas bastou chegar no Rio Grande do Sul e cair nas mãos dos brutamontes do MBL para que seu trabalho passasse a ser divulgado como “apologia à zoofilia”. Bastou a ação midiática orquestrada do MBL para que seus seguidores saíssem do breu intelectual em que se escondem, erguendo tochas e foices exigindo o linchamento de artistas.

Uma prática semelhante à adotada por regimes nazistas e fascistas. Em 2015, uma exposição na Bélgica exibiu ao público obras que o nazismo baniu da Alemanha por considerar “arte degenerada”. Nomes como Picasso e Marc Chagall estavam na lista.

A cena de membros do MBL intimidando frequentadores da exposição remete a imagens da época da ditadura, quando o Comando de Caça aos Comunistas atacou a peça Roda Viva. Os entusiastas da interdição artística em nome da “moral cristã” causam inveja a Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, e ao CCC.

Aliás, a própria ideia de que uma expressão artística com a qual não se concorde deva ser banida agrada muito aos criminosos do autoproclamado Estado Islâmico, que destroem obras históricas em nome de uma cruzada moral.

O que fará em seguida o MBL? Irá propor a interdição do Museu do Prado, em Madri, por exibir O Jardim das Delícias Terrenas, de H. Bosch? Boicotará todas as representações do mito grego de Leda e o Cisne, reproduzidas por pintores como Leonardo Da Vinci e Paolo Veronese – que mostram o acasalamento da rainha de Esparta com Zeus, sob a forma de um animal?

O MBL encarna o espírito atrasado dos liberais na economia e medievais nos costumes. É absolutamente lamentável que o Santander Cultural tenha cedido a este tipo de pressão. Nenhum centro cultural sério em qualquer lugar do mundo teria interditado uma exposição por críticas de segmentos reacionários. Mas, como bem lembrou o vereador Roberto Robaina, não se poderia esperar muito, afinal os bancos também cederam ao nazismo.

O escândalo que significou o encerramento da exposição virou notícia nacional e internacional. A reação da classe artística e da população LGBT foi rápida e aguerrida. Um ato organizado às pressas conseguiu reunir quase 2 mil pessoas em frente ao Santander Cultural na tarde de terça-feira (12/09). Toda a vanguarda do movimento LGBT gaúcho estava presente. As centrais sindicais também divulgaram uma nota unitária em apoio à exposição.

O ato resistiu bravamente a todas as tentativas de provocação do MBL e de seus satélites. E foram muitas. O YouTuber Arthur do Val, provocador maior da direita, foi girado de São Paulo especialmente para tumultuar a manifestação. Com a firmeza que o combate ao fascismo exige, mas sem baderna generalizada, os provocadores foram expulsos do ato.

Infelizmente, ao final do protesto, a ação articulada dos capangas do MBL conseguiu tumultuar um ato que já estava dispersando. Com a covardia que lhes é característica, foram provocar os manifestantes para em seguida se refugiar atrás de um cordão policial.

O batalhão de choque da Brigada Militar se enfileirou para proteger os milicianos da direita, jogando bombas de gás contra toda a população e transformando a Praça da Alfândega num cenário de guerra. Duas pessoas foram detidas: um morador de rua, cuja identidade não foi revelada, e o jornalista Douglas Freitas. Além disso, uma fotógrafa do jornal Zero Hora foi atingida diretamente com spray de pimenta no rosto e em sua câmera ao registrar as prisões. Uma cena que remete a junho de 2013, quando nem mesmo a imprensa foi poupada da repressão.

Felizmente o ato não se resume à provocação do MBL. Foi um forte recado de luta e resistência contra os comensais da Idade Média e pelo direito a uma cultura livre. Livre de qualquer dogma religioso.

Centros culturais de São Paulo e Belo Horizonte já manifestaram interesse em receber a exposição interditada. Não nos submeteremos aos censores da província do atraso. O movimento LGBT e a classe artística estão mobilizados na defesa da liberdade e da cultura. Viva o Queermuseu!

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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