Uma verdade incômoda: a mudança climática
Flamingos do zoológico de Miami são protegidos em banheiro durante a passagem do furacão Irma - Tim Chapman/Newsmakers/Getty Images

Uma verdade incômoda: a mudança climática

O furacão Irma que atingiu o Caribe e a Flórida no começo desse mês é mais um sinal inequívoco do processo de mudança climática que o mundo atravessa.

Alberto Acosta 24 set 2017, 14:24

Irma, o grande furacão que atingiu o Caribe e a Flórida, traz à memória – de novo – uma verdade incômoda: a mudança climática, inocultável para além dos discursos elaborados pelo poder e a ignorância. Fenômenos naturais cada vez maiores e mais destrutivos sacodem o mundo. Inundações e secas, frios e calores extremos, tanto quanto os recentes furacões, são notícia cotidiana em todas as esquinas do planeta. Segundo afirma a grande maioria dos cientistas, esses fenômenos naturais – como cavaleiros climáticos do apocalipse – são a consequência global do aumento das temperaturas e das variações climáticas extremas. E isto recém começa… A razão nos diz que esta cadeia de catástrofes causadas por desordens climáticas severas deveria demolir as posições negacionistas. Mas o tema não é fácil. O poder geralmente não se rege pela razão, menos ainda aquela daqueles que imaginam um mundo em paz e fraternidade. Mais comum é que a razão se atrofie ao gosto e prazer do poder.

Só pensemos em posições como as de Donald Trump, para quem a mudança climática é um “conto inventado pelos chineses”. Semelhantes leituras, às vezes caindo no ridículo, no fundo escondem os compromissos adquiridos com poderosos interesses. E neste perverso mundo onde a pós-verdade é filha da modernidade capitalista pura e dura, não faltam os “cientistas” que encontram outras explicações para estes fenômenos naturais. Tampouco faltam os que estão convencidos que os problemas se resolvem pela tecnologia e a técnica, nem os que já fazem contas das utilidades a obter remediando o destruído ou construindo obras para afrontar os próximos e inevitáveis e cada vez mais dantescos fenômenos climáticos. Sem minimizar por nada a busca de respostas científicas ao problema, é hora de politizá-lo globalmente. Não basta que alguns dias as grandes mídias priorizem a cobertura jornalística do que está sucedendo. Para completar, seu fugaz interesse geralmente combina-se com reportagens tendenciosas. Além disso, repetir uma e outra vez que “já sabemos o que está por vir” é fútil.

Urge ir mais além e revisar todos esses feitos para estabelecer as correspondentes inter-relações, suas causas e seus responsáveis, que sim existem. Não há dúvida de que vamos enfrentar novas tragédias. Devemos nos preparar, mas isso não basta. Cabe conhecer as origens e alcances destes complexos fenômenos, ao tempo que debatemos as políticas da crise que acabamos de presenciar e também aquelas políticas radicais que necessitamos para prevenir – ou ao menos para minimizar – os impactos de novas crises. E, sobretudo, há que nomear as origens e os causadores destes problemas com transparência e conectando seus principais nós: extrativismos vorazes, consumismo exacerbado, contaminação imparável, desperdícios até programados, subsídios a combustíveis fósseis, racismo ambiental, inequidades socioeconômicas… Notemos igualmente que os recursos orçamentários disponíveis para enfrentar esta avalanche em crescimento são exíguos ao comparar-se, por exemplo, com os enormes, prejudiciais e insultantes gastos em armas e segurança repressiva, causadores – por sua vez – de graves problemas sociais, políticos e inclusive ambientais. Em uma linha similar estariam os multimilionários recursos destinados aos resgates bancários. Aproveitemos o momento para propor soluções globais profundas. Há que impulsionar medidas que reduzam drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, algo factível se diminui o consumo e a extração de cada vez mais petróleo, carbono e gás; apoiando iniciativas como a proposta – do Equador – para deixar no subsolo o cru no Yasuní. Requeremos repensar integralmente nossas cidades e seus sistemas de transporte.

Igualmente necessitamos repensar o campo como provedor crucial do alimento com o qual as cidades sobrevivem. Os padrões de consumo devem mudar profundamente. Em suma, a organização das sociedades não pode seguir como até agora: com grupos relativamente reduzidos de população que consomem acima de suas capacidades – e inclusive acima de suas necessidades – enquanto o resto – quase a totalidade de habitantes do planeta – vive tratando de emular os privilegiados, em um sobre-esforço condenado à frustração permanente.

Chamar as coisas pelo seu nome nos obriga a superar conceitos fracos de conteúdo, como aquele de antropoceno, uma armadilha nada casual. Falemos sem rodeio de capitaloceno. Não negamos que a humanidade provoca os tremendos desajustes que hoje vive a Terra, mas a responsável não é qualquer humanidade, é a humanidade do capitalismo. Uma civilização que sufoca a vida tanto dos seres humanos como da natureza a fim de alimentar o poder que conhecemos como o nome de capital. E nesse empenho de chamar as coisas como são, caberia renomear os monstruosos furacões e fenômenos extremos por seus verdadeiros nomes: Chevron-Texaco em vez de Irma, British Petroleum em vez de Harvey, Exxon em vez de Maria…

Só a verdade servirá para construir nossa emancipação!

(Artigo publicado originalmente no site Rebelión. Tradução de Marcelo Martino.)


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.