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O plano do Google para revolucionar as cidades é uma aquisição em tudo, exceto no nome

O urbanismo do Google e sua pretensão de coletar e usar dados para construir alianças lucrativas com as forças poderosas que estão por trás da financeirização das cidades.

Carro auto-dirigido do Google. KeystoneUSA-ZUM/REX Shutterstock
Carro auto-dirigido do Google. KeystoneUSA-ZUM/REX Shutterstock

A edição de junho da Volume, uma das principais revistas de arquitetura e design, publicou um artigo sobre o projeto Google Urbanism. Concebido em um renomado instituto de design em Moscou, o projeto apresenta um futuro urbano plausível baseado em cidades que atuam como sítios importantes para o “extrativismo de dados” — a conversão de dados coletados de indivíduos em tecnologias de inteligência artificial, permitindo que empresas como a Alphabet, empresa-mãe do Google, atuem como fornecedoras de serviços sofisticados e abrangentes. As próprias cidades, o projeto insistiu, receberiam uma parte da receita dos dados.

As cidades certamente não se importariam, mas e a Alphabet? A empresa leva as cidades a sério. Seus executivos propuseram a ideia de pegar uma cidade com dificuldades — Detroit? — e reinventá-la em torno dos serviços da Alphabet, sem regulações irritantes bloqueando essa marcha de progresso.

Tudo isso poderia parecer contra-intuitivo há várias décadas, mas hoje, quando instituições como o Banco Mundial pregam sobre as virtudes das cidades privadas e os mandachuvas do Vale do Silício aspiram construir micronações no mar livres da burocracia convencional, não parece tão exagerado.

A Alphabet já opera muitos serviços urbanos: mapas das cidades, informações de trânsito em tempo real, Wi-Fi gratuito (em New York), carros auto-dirigidos. Em 2015, ela lançou uma unidade dedicada à cidade, Sidewalk Labs, dirigida por Daniel Doctoroff, ex-prefeito de New York e veterano de Wall Street.

Os antecedentes de Doctoroff sugerem o que — em oposição às suas formulações teóricas — presume o urbanismo do Google: usar a proeza dos dados da Alphabet para construir alianças lucrativas com outras forças poderosas que estão por trás das cidades contemporâneas, desde incorporadoras imobiliárias até investidores institucionais.

Deste ponto de vista, o urbanismo do Google não é nada revolucionário. Sim, ele se desenvolve em dados e sensores, mas eles só desempenham um papel secundário na determinação do que é construído, por quê e a que custo. Pode-se bem chamá-lo de urbanismo da Blackstone — em homenagem a um dos maiores jogadores financeiros do mercado imobiliário.

Já que Toronto recentemente escolheu a Alphabet para transformar o Quayside, uma área não desenvolvida de 5 hectares de frente para o mar, em uma maravilha digital, não demoraria muito para se descobrir se o urbanismo do Google irá transcender ou acomodar as forças predominantemente financeiras que moldam nossas cidades.

A Sildewalk Labs colocou US$ 50 milhões no projeto — principalmente para hospedar uma consulta de um ano após a qual qualquer das partes pode sair. Sua oferta vencedora de 220 páginas oferece insights fascinantes sobre seu pensamento e metodologia. “Altos custos de habitação, tempos de deslocamento, desigualdade social, mudanças climáticas e mesmo tempo frio mantendo as pessoas dentro de casa” — tal é o campo de batalha que Doctoroff descreveu numa entrevista recente.

As armas da Alphabet são impressionantes. Edifícios baratos e modulares a serem montados rapidamente; sensores que monitoram a qualidade do ar e condições de construção; semáforos adaptativos priorizando pedestres e ciclistas; sistemas de estacionamento direcionando carros para vagas disponíveis. Para não falar de robôs de entrega, redes avançadas de energia, triagem automática de resíduos e, claro, carros auto-dirigidos em toda parte.

A Alphabet essencialmente quer ser a plataforma padrão para outros serviços municipais. Cidades, ela diz, sempre foram plataformas; agora elas estão simplesmente se tornando digitais. “As maiores cidades do mundo são pólos de crescimento e inovação porque alavancaram plataformas implementadas por líderes visionários”, afirma a proposta. “Roma tinha aquedutos, Londres o metrô, Manhattan a planta ortogonal”.

Toronto, liderada pelos seus próprios líderes visionários, terá a Alphabet. Em meio a toda essa plataformoforia, poderia-se facilmente esquecer que o sistema de ruas não é tipicamente propriedade de uma entidade privada, capaz de excluir alguns e satisfazer outros. Nós gostaríamos que a Trump Inc. fosse sua proprietária? Provavelmente não. Então por que se apressar em dar seu equivalente digital à Alphabet?

Quem determina as regras pelas quais diferentes empresas obtêm acesso a ela? As cidades estariam economizando energia usando os sistemas de inteligência artificial da Alphabet ou a plataforma seria aberta para outros? Os carros auto-dirigidos seriam os da Waymo, unidade da Alphabet, ou aqueles do Uber e de qualquer outra entidade que os construa? A Alphabet apoiaria a “neutralidade da rede urbana” tão ativamente como apoia a neutralidade de rede convencional?

Na verdade, não há uma “grade digital” [digital grid]: há apenas produtos individuais da Alphabet. Sua aposta é fornecer serviços digitais legais para estabelecer monopólio completo sobre o extrativismo de dados dentro de uma cidade. O que passa pelos esforços para construir a “grade digital” pode, na verdade, ser uma tentativa de privatizar serviços municipais — uma característica fundamental do urbanismo da Blackstone, não uma saída radical dele.

O objetivo da Alphabet a longo prazo é remover barreiras para a acumulação e circulação do capital em ambientes urbanos — principalmente substituindo regras e restrições formais por metas flutuantes e baseadas em feedback. Ela afirma que, no passado, “medidas prescritivas eram necessárias para proteger a saúde humana, garantir edifícios seguros e gerenciar externalidades negativas”. Hoje, no entanto, tudo mudou e “cidades podem alcançar esses mesmos objetivos sem a ineficiência que vem com zoneamento inflexível e códigos estáticos de construção”.

Essa é uma declaração notável. Mesmo luminares neoliberais como Friedrich Hayek e Wilhelm Röpke admitiam algumas formas não-comerciais de organização social no domínio urbano. Eles viam planejamento — em oposição aos sinais do mercado — como uma necessidade prática imposta pelas limitações físicas dos espaços urbanos: não havia maneira mais barata de operar infraestrutura, construir ruas, evitar congestionamento.

Para a Alphabet, essas restrições não existem mais: fluxos de dados onipresentes e contínuos podem finalmente substituir as regras do governo com sinais do mercado. Agora tudo é permitido — a menos que alguém reclame. O espírito original por trás do Uber era bem parecido: abandone as regras, os testes e os padrões; deixe o consumidor soberano classificar os motoristas e os que estão com pouca pontuação vão logo desaparecer por conta própria. Por que não fazer isso com os proprietários? Afinal, se você tem sorte para sobreviver a um incêndio na casa que aluga, você pode sempre exercitar sua soberania de consumidor e classificá-la negativamente. Aqui, a lógica operacional é a do urbanismo da Blackstone, mesmo que as técnicas façam parte do urbanismo do Google.

O urbanismo do Google significa o fim da política, já que assume a impossibilidade de transformações sistêmicas mais amplas, como limites à mobilidade do capital e propriedade estrangeira da terra e da habitação. Em vez disso, quer mobilizar o poder da tecnologia para ajudar os residentes a “se ajustarem” a tendências globais aparentemente imutáveis como a desigualdade crescente e o aumento constante do custo da habitação (a Alphabet quer que acreditemos que ele é impulsionado pelos custos de produção, não pelo fornecimento aparentemente infinito de crédito barato).

Normalmente essas tendências significam que, para a maioria de nós, as coisas vão piorar. O lance da Alphabet, entretanto, é que as novas tecnologias podem nos ajudar a sobreviver, se não prosperar, usando o auto-rastreamento para magicamente encontrar tempo nas agendas ocupadas de pais sobrecarregados pelo trabalho; tornando a dívida do carro obsoleta à medida que a propriedade do carro se torna desnecessária; implantando inteligência artificial para reduzir os custos da energia.

O urbanismo do Google compartilha o pressuposto-chave do urbanismo da Blackstone: nossa economia altamente financializada — marcada pela estagnação dos salários reais, mercados de habitação liberalizados que impulsionam preços devido à demanda global persistentemente forte, infra-estrutura construída num modelo opaco mas altamente lucrativo de parceria publico-privada — veio para ficar. A suposta boa notícia é que a Alphabet possui sensores, redes e algoritmos para restaurar e manter nosso nível de vida anterior.

A proposta de Toronto é ainda vaga em quem pagará por essa utopia urbana. Ela reconhece que “alguma das inovações mais importantes [do projeto] são grandes projetos de capital que exigirão grandes volumes de oferta confiável para serem financiáveis”. Apesar disso, pode tornar-se o equivalente urbano da Tesla: um empreendimento impulsionado por subsídios públicos infinitos que derivam da alucinação coletiva.

O apelo da Alphabet para os investidores reside na modularidade e plasticidade dos seus espaços; não há nenhuma função atribuída permanentemente a nenhuma das suas partes. Muito similar às utopias cibernéticas iniciais de arquitetura eternamente flexível e reconfigurável, não há função permanentemente atribuída a nenhuma de suas partes. Tudo pode ser reembaralhado e rearranjado, com boutiques se transformando em galerias e terminando como pubs gastronômicos — desde que tal metamorfose digitalmente permitida produza um retorno maior.

Afinal, a Alphabet está produzindo uma cidade “onde as construções não tem uso estático”. Por exemplo, a peça central do bairro proposto em Toronto — o Loft — oferecerá uma estrutura de esqueleto que “vai permanecer flexível ao longo do seu ciclo de vida, acomodando uma combinação radical de usos (tais como residencial, varejo, escritório, hospitalidade e estacionamento) que podem responder rapidamente à demanda do mercado”.

Aqui está a promessa populista do urbanismo do Google: a Alphabet pode democratizar o espaço personalizando-o através de fluxos de dados e materiais baratos pré-fabricados. O problema é que a democratização de função da Alphabet não será acompanhada pela democratização do controle e da propriedade dos recursos urbanos. É por isso que a principal “entrada” do algoritmo de democracia da Alphabet é a “demanda do mercado” em vez da tomada de decisão comunal.

Em vez de democratizar a propriedade e o controle, a Alphabet promete participação, consulta e novas formas de rastrear a vox populi — medida automaticamente através da extensa rede sensorial da Alphabet. A empresa ainda saúda Jane Jacobs, urbanista preferida de todos, emprestando alguma credibilidade à tese de que o tipo de urbanismo de pequena escale e altamente flexível pregado por Jacobs é bastante compatível com o interesse crescente de Wall Street em imóveis e infra-estrutura.

Em muitas cidades, a demanda do mercado é precisamente o que leva à privatização do espaço público. As decisões não são mais tomadas no domínio político, mas delegadas a gerentes de ativos, grupos de capital privado e bancos de investimento que afluem em imóveis e infra-estrutura buscando retornos estáveis e decentes. O urbanismo do Google não reverteria essa tendência, mas a aceleraria.

As dimensões utópicas e quase anarquistas do urbanismo do Google seriam algo para se comemorar se a maioria dos moradores ficasse responsável pelos seus próprios espaços, edifícios e infra-estruturas. Já que não é esse o caso e tais espaços são cada vez mais propriedade de investidos privados (e muitas vezes estrangeiros), uma saída radical do sistema altamente burocrático, sufocante e restritivo por capital de zoneamento ou regulações de construções provavelmente nos dará o horror paralisante da Grenfell Tower em vez do triunfo reconfortante da prefeitura de Vermont.

Além dos investidores institucionais que compram quadras inteiras das cidades, a Alphabet entende o público real das suas cidades: os ricos globais. Para eles, a narrativa de sustentabilidade baseada em dados e estilos de vidas artesanais produzidos algoritmicamente — a Sidewalk Labs até promete “um bazar de próxima geração” reabastecido pelas comunidades locais de criadores — são apenas outra forma de justificar o aumento dos valores de suas carteiras de propriedades.

O “urbanismo como serviço” da Alphabet pode não atrair os moradores de Toronto, não importa. Como um projeto imobiliário, seu principal objetivo é impressionar os futuros moradores desaparecidos — sobretudo os milhões de milionários chineses que afluem para os mercados de habitação do Canadá. Doctoroff não se equivocou quando disse ao Globe and Mail que o empreendimento canadense da Alphabet era “primeiramente uma jogada imobiliária”.

O giro urbano da Alphabet também tem um significado político mais amplo. O cortejo da Alphabet pelos políticos do Canadá, juntamente com a guerra de ofertas que entrou em erupção sobre uma segunda sede da Amazon na América do Norte — algumas cidades ofereceram incentivos de até US$ 7 bilhões para que ela se mude para elas — sugere que, apesar da reação crescente contra o Vale do Silício, nossas classes políticas têm poucas outras indústrias positivas (e, importante, positivas em termos de dinheiro) para se basearem.

Esse é claramente o caso do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, que recentemente lançou seu país como “um ‘Vale do Silício’, além de tudo mais que o Canadá é”. Em um aspecto, ele está certamente correto: foram os fundos de pensão do Canadá que tornaram imóveis e infra-estrutura nos ativos lucrativos alternativos que são hoje.

Não tenhamos ilusões sobre o urbanismo do Google. É preciso ser ingênuo para acreditar que uma aliança urbana emergente da tecnologia com as indústrias financeiras produziria resultados prejudiciais para as últimas. O urbanismo da Blackstone vai seguir moldando nossas cidades mesmo que a Alphabet tome seus restos. “Urbanismo do Google” é uma ótima maneira de camuflar essa verdade.

(Artigo publicado em inglês pelo Guardian e traduzido por Tiago Madeira)

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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