Superar o stalinismo para avançar a luta LGBT
A bancada do KKE no parlamento grego - Reprodução

Superar o stalinismo para avançar a luta LGBT

O PC da Grécia, depois de ter votado contra o casamento igualitário no parlamento em 2016, agora se opõe à lei que despatologiza as pessoas trans.

Bruno Zaidan 19 out 2017, 14:43

O stalinismo novamente cumpre um papel retrógrado na luta das LGBTs. O PC da Grécia, o KKE, depois de ter votado contra o casamento igualitário no parlamento em 2016, agora se opõe à lei que despatologiza as pessoas trans. O KKE é a seção grega do PCB no Brasil, que inclusive se encontram neste momento no encontro de partidos stalinistas na Rússia. Mas ao contrário do stalinismo colorido do PCB, que tem um mínimo de debate LGBT, o KKE cumpre seu papel histórico de freio das lutas fundamentais que acontecem.

Não reconhecem, portanto, que não existe emancipação humana sem que as LGBTs se emancipem também. Isso não vem de hoje. A revolução russa foi um motor fundamental da libertação humana, e uma de suas medidas foi descriminalizar as relações homossexuais e a transgeneridade. Sob Stálin, no entanto, as leis dos tempos czaristas ressurgiram, criminalizando a homossexualidade e impondo pena de trabalho forçado para quem cometesse o tal “delito”.

No ano em que se completam 50 anos da morte de Che Guevara, o debate sobre a LGBTfobia no regime cubano tem aparecido muito. E é preciso dizer que isso também é parte da herança nefasta do stalinismo. As leis anti-LGBT de Stálin inspiraram as UMAP (Unidades Militares de Ajuda à Produção), que na prática, para as LGBT, serviram como uma forma de humilhação e violência, com objetivo de transformar os homossexuais em “homens” por meio do trabalho forçado. Isso não significa que os avanços da revolução cubana não devam ser valorizados, mas sim que é preciso aprender com esses erros e ressaltar o papel que as LGBT tiveram enfrentando essas unidades e as derrotando, o que foi essencial para o avanço do projeto de emancipação da sociedade, embora ainda tenha muito a avançar, por óbvio.

Hoje, os stalinistas mostram que não aprenderam com isso, nem com a revolução russa e muito menos com as lutas por liberdades democráticas que vieram no pós guerra. Defendem que essas lutas não dizem respeito aos trabalhadores, e se fecham em um debate economicista que não reconhece a opressão como um mecanismo de superexploração da força de trabalho, uma visão muito limitada da realidade.

Afinal, a exploração da força de trabalho das travestis e pessoas trans, das bichas, das sapatões é parte integral da dominação capitalista. Não é à toa que 90% das travestis e pessoas trans estejam na prostituição, e às poucas que não estão sobrem apenas vagas no telemarketing, bem como muitas LGBTs acabam trabalhando em redes de fast food ou outro tipo de emprego precarizado, ou então servindo de exército de reserva.

A esquerda precisa reconhecer, formular para e ser ponta de lança na luta contra a LGBTfobia e contra esse sistema que oprime e explora a classe trabalhadora e em particular as mulheres, negras e negros e LGBTs, superando os entraves que essa velha lógica stalinista impõe. Só assim para que possamos seguir construindo um projeto de transformação global da sociedade, e não apenas uma reedição de velhas estruturas.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.