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Trotsky em Copenhague: fotos de Robert Capa

Nascido em 22 de outubro de 1913, o húngaro Robert Capa foi um dos maiores nomes do fotojornalismo de guerra no século XX. Sua primeira cobertura consistiu na conferência do exilado Leon Trotsky em Copenhague em 1932.

Nascido em 22 de outubro de 1913, o húngaro Robert Capa foi um dos maiores nomes do fotojornalismo de guerra no século XX, tendo coberto grandes eventos como a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e a Guerra da Indochina (onde aliás morreu após pisar numa mina terrestre, sem abandonar seu inseparável instrumento de trabalho). Entretanto, o que poucos recordam é que sua primeira cobertura consistiu na conferência do exilado Leon Trotsky em Copenhague em 1932. Saiba mais dos detalhes dessa história abaixo, numa tradução da Revista Movimento de um post do blog Iconic Photos.

Em novembro de 1932, Robert Capa era apenas um rapaz num quarto escuro trabalhando em Dephot (uma famosa foto-agência daquela época). Se mentor o enviou a Copenhague para cobrir um discurso que seria dado pelo revolucionário russo exilado Leon Trotsky. Capa recorda aquela que seria sua primeira história publicada.

Os jornais publicaram uma notícia de que Trotsky falaria em Copenhague. Meus chefes ficaram animados – mas, quando eles olharam em volta, eles viram que tinham enviado todos os fotógrafos para cobrir os eventos que ocorriam na Alemanha. Somente eu estava lá. Então, eles disseram: “Vá!”.

Minha partida foi uma comédia. Eu tinha um velho passaporte e nenhum visto. Compraram-se uma passagem de primeira classe e viajei com estilo como um ministro. Quando o condutor veio inspecionar o passaporte e o visto – tirei um menu de um restaurante e dei a ele entre muitos outros papéis importantes de serem inspecionados – e ele ficou desconcertado – mas eu falei mais rápido e mais do que qualquer outro passageiro de primeira classe que ele já encontrou, a ponto de ele finalmente assentir e autorizar minha passagem.

Ninguém podia tirar fotos porque Trotsky nunca quis ser fotografado. Havia fotógrafos de todo os lugares do mundo com suas câmeras de caixa grande – nenhum poderia entrar. Eu tinha uma pequena Leica em meu bolso, então ninguém pensou que eu era fotógrafo. Quando alguns trabalhadores foram levar alguns tubos de aço à sala, eu me juntei a eles com minha pequena Leica para ver Trotsky.

Aqui devemos parar para refletir. Capa foi mais tarde um grande auto-promotor de si mesmo como um grande fotógrafo. A primeira anedota de que seus editores enviaram o humilde rapaz do quarto escuro não passava de pura fabricação; embora fosse sua primeira tarefa, ele foi assessorado por completo pela Dephot e o evento do discurso de Trotsky em Copenhague foi bem anunciado. A segunda anedota, Capa tomou emprestada de seu pai, amante de contos. Quanto a entrar escondido na sala de conferência, ele não precisava disso, uma vez que tinha o bilhete de entrada para a palestra de Trotsky. Somente em maio de 1936, ele assim o fez numa reunião em que Leon Blum (primeiro-ministro da França) estava discursando.

Este episódio sublinha a dificuldade de confiar nos próprios relatos dos fotógrafos sobre suas famosas fotos. Eles como qualquer outro ser humano recordam, escondem e distorcem. No entanto, foi ele que tirou essas fotos e as habilidades de Capa foram evidentes: ele se posicionou perto do falante e clandestinamente lançou uma série de fotografias que capturaram a energia do apaixonado orador russo e o drama do momento. Der Welt Spiegel de Berlim dedicou uma página completa às fotografias da Capa.

Manchas e fissuras na imagem abaixo (que é a mais famosa das imagens de Trotsky tiradas por Capa) foi o resultado de um dano ao negativo fotográfico. Era uma imagem rota de um homem roto, como notou a revista Time.

 

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Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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