Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O marxismo descolonial de Florestan Fernandes e a esquerda socialista do século XXI

Neste artigo cuidadoso, Maycon Bezerra trata sobre a vida e a obra intelectual e política de Florestan Fernandes, grande intelectual da Revolução Brasileira.

Florestan Fernandes se desfaz de sua gravata em manifestação durante a Assembleia Constituinte - Cia da Memória.
Florestan Fernandes se desfaz de sua gravata em manifestação durante a Assembleia Constituinte - Cia da Memória.

1 – Florestan e aspectos biográficos.

​Retomar Florestan Fernandes, um dos nossos mais importantes intelectuais, reivindicando sua sociologia crítica e militante, articulando-a de modo vivo na teoria e prática revolucionária socialista no Brasil deste início de século XXI, não é algo como prestar uma simples homenagem, é se apropriar de um referencial intelectual e político que não temos o direito de permitir que se perca. A retomada do marxismo descolonial de Florestan não apenas possibilita que se fortaleçam nossos laços concretos com a experiência histórica passada da esquerda e do movimento dos trabalhadores brasileiros, mas também disponibiliza um amplo patrimônio de reflexões e elaborações sobre problemas e questões com as quais estamos novamente – e estivemos sempre – confrontados e que nos dispensa de nisso ter de começar do zero. Florestan é um gigante em cujos ombros podemos e devemos nos erguer para visualizar melhor a situação e nossas tarefas como marxistas revolucionários.

​Florestan nasceu muito pobre. Filho de mãe solteira, portuguesa e empregada doméstica em São Paulo, começou a trabalhar ainda na infância como engraxate. Viveu a vida dos meninos de sua classe, frequente nas ruas, distante da escola. Experimentou, como elo fraco da cadeia, toda a rotineira crueldade dos setores mais privilegiados da nossa sociedade nas suas relações com o povo pobre. Como exemplo, a patroa de sua mãe negava-lhe o direito ao nome Florestan em sua casa, por ser um nome pomposo demais para um garoto qualquer, filho de empregada doméstica: chamava-o Vicente. Florestan dizia que teve que conquistar o direito de tornar-se Florestan. Até isso negam aos nossos quando podem.

Escolarizou-se já adulto e ingressou em um novo universo de oportunidades ao ser aprovado no curso de ciências sociais da USP. Ao mesmo tempo, através do jornalista e dirigente socialista Herminio Sachetta, entrava em contato com o Partido Socialista Revolucionário (PSR), uma organização trotskista que lutava na clandestinidade contra a ditadura do Estado Novo de Vargas. Foi militante e depois ainda se manteve em contato com o partido por cerca de 10 anos, até o início dos anos 50. Ainda que tenha desengajado da militância clandestina para seguir a trajetória universitária, a experiência no PSR – tal como relatada por ele mesmo – foi decisiva para a definição dos rumos que tomaria sua rota biográfica, intelectual e política.

Depois de formado, seguiu na USP como professor e ajudou a constituir e institucionalizar a sociologia no Brasil. Lecionou para nomes como Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso, dentre toda uma geração renomada. Com ousadia se lançou a construir uma matriz sociológica que não reproduzisse mecanicamente as formulações importadas da Europa ou dos Estados Unidos. A sociologia florestaniana não deve nada em complexidade, riqueza e criticidade ao que se considera vanguarda nessa área em nível internacional. Nossa sociologia acadêmica contemporânea, no entanto, marginaliza seu pensamento e contribuição inestimáveis. Soa demasiadamente como luta de classes, o que é inequívoco, para a elegância estéril dos corredores acadêmicos. Tendo sua carreira na USP interrompida pelo AI-5 e pela consequente aposentadoria compulsória que lhe impuseram em 1969, Florestan se desvencilha das limitações impostas pelo “cânone” e pela ritualística do pensamento universitário e aprofunda o caráter crítico, marxista e descolonial de sua produção intelectual, em alguma medida reconectando-se com o jovem Florestan militante do PSR, enriquecido por toda a trajetória posterior como professor e cientista social.

​Ao longo dos anos 70, Florestan seguiu produzindo e intervindo como “intelectual público”, inclusive com presença na grande imprensa. Acompanhou a retomada do movimento de massa e no início dos anos 80 se incorporou ao PT. Além de intelectual militante e propagandista ligado à ala esquerda do partido, Florestan foi eleito duas vezes deputado federal, tendo sido deputado constituinte. Foi central na articulação dos setores sociais que se organizaram para defender o princípio da educação pública na Constituinte. Também foi autor de uma proposta de emenda à Constituição dedicada ao tema da problemática racial, que terminou suprimida pela maioria parlamentar, chamada “Dos Negros”. Foi ativo política e intelectualmente até que em 1995 nos deixou, vítima de um erro médico durante um procedimento hospitalar.

2 – O Marxismo descolonial de Florestan

É possível dizer que Florestan construiu sua obra intelectual e sua trajetória prática sobre a rocha do materialismo dialético. Ainda quando esteve à frente do projeto de construção de uma sociologia original, na USP, uma sociologia teórica, interpretativa e aplicada, mas “canônica” e academicamente “enquadrada”, os fundamentos teóricos do materialismo e da dialética se encontravam presentes, mesmo que nos “bastidores” da elaboração. O marxismo está no ponto de partida mesmo do processo de formação intelectual de Florestan, através da militância trotskista no PSR. A perspectiva e a tradição crítica incorporadas no trotskismo impulsionaram Florestan a ir bem além dos limites do dogmatismo stalinista dirigido de Moscou ao PCB de seu tempo. Teoricamente, nunca aceitou o marxismo deformado pela ótica positivista da burocracia stalinista, nunca dissociou materialismo de dialética em sua compreensão do marxismo. Politicamente, nunca teve acordo com a estratégia de colocar os trabalhadores passivamente a reboque do desenvolvimentismo da “burguesia nacional”. Ainda quando julgou que a modernização burguesa da sociedade brasileira tivesse o potencial de levar o processo histórico além dos interesses restritos dos capitalistas, Florestan foi muito mais avançado e crítico em suas formulações que a direção do PCB em sua aliança subordinada e desarmada com a “burguesia nacional”.

Este artigo faz parte da 6ª edição da Revista Movimento. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A edição n.6 da Revista Movimento celebra o centenário da Revolução de Outubro com artigo de Kevin Murphy sobre as origens do stalinismo. Luciana Genro discute a continuidade da Operação Lava Jato. Alvaro Bianchi introduz a nossos leitores conceitos de Antonio Gramsci. A revista também apresenta tradução de palestra de Angela Davis. Na seção internacional, publicamos artigo de Perry Anderson sobre a resiliência do centro neoliberal europeu. Edgardo Lander trata da situação venezuelana, Pedro Fuentes e Charles Rosa abordam a questão catalã. Um instigante artigo de Maycon Bezerra sobre Florestan Fernandes, a tese do MES para o Congresso do PSOL e nossa plataforma sindical completam a edição.

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Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

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