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Mário Pedrosa: “Tenho algumas convicções”

No 36º aniversário da morte do crítico de arte e jornalista trotskista Mário Pedrosa, republicamos uma entrevista que ele deu ao Jornal do Brasil em outubro de 1977.

Mário Pedrosa em seu apartamento no Rio, em 1959. Foto: Divulgação/Luciano Martins
Mário Pedrosa em seu apartamento no Rio, em 1959. Foto: Divulgação/Luciano Martins

Depois de sete anos de exílio, Mário Pedrosa, o crítico de arte e jornalista, mas sobretudo o “animal político” da feliz definição de um amigo, está em casa. Volta, como partiu, com a idade do século. Mas não pensa em descansar. Mal chegou, já prepara a retomada de nada menos de quatro livros começados a escrever no exterior: três ensaios políticos e um sobre arte.


Jornal do Brasil, 12/10/1977

Os mesmos quadros, a velha cadeira de balanço, os amigos antigos que não param de telefonar ou tocar a campainha. De novo, os cartazes espalhados de boas-vindas: “Chegou, chegou, o peixe-voador. Sejam bem-vindos, queridos”. Mário Pedrosa está em casa. Com Mary, a mulher que o acompanha em marchas e contramarchas de sua vida, em idas e vindas intermitentes, ele descansa em seu claro apartamento em Ipanema. No sábado, às 5h30, quando seu avião aterrissou no novo aeroporto Internacional, ele sentiu as saudades que sete anos de ausência haviam provocado. Esperando-o, ansioso, um grupo grande. Era a homenagem ao “animal político”, como definiu-o carinhosamente um amigo, e ao crítico de arte respeitado em todo o mundo.

— Sempre convivi muito bem com a política e as artes. Nunca misturei setores.

Assinando artigos e escrevendo, editoriais políticos, Mário Pedrosa criou no Correio da Manhã a primeira seção de artes plásticas. No JORNAL DO BRASIL, foi responsável também por uma coluna de artes visuais:

— Hoje, o crítico de arte não tem mais importância. Naquela época sim, pois havia uma atividade cultural cada vez mais autônoma. Mas a arte perdeu a importância em face da crise mundial. Ela encobre não só o destino da civilização como da cultura humana.

Apesar do boom no nosso mercado de arte, ele não esconde a preocupação:

— Aconteceu porque havia muito dinheiro circulando. No Brasil, as artes plásticas são um reflexo pálido, retardado, da crise mundial. Cada país manifesta-a de forma diferente. Mas, veja só a Bienal de São Paulo. Não tem mais a repercussão de antes. No meu tempo, sua inauguração era notícia de primeira página dos jornais. Atualmente, seu prestígio não é o mesmo. É assim em toda a parte.

Uma crise profunda para a qual ninguém ainda encontrou soluções:

— A Revolução Russa foi o fenômeno político mais importante do século. No entanto, isto não quer dizer que o que a Rússia apresenta hoje seja importante. Outros fenômenos apareceram, como a Revolução Chinesa e a Vietnamita. Mas a crise do Terceiro Mundo, ameaçado de morrer de fome, como irá ser resolvida? Ninguém sabe. Sua população está morrendo de fome e não está satisfeita por isso.

Solução?

— Deve ser uma que mude o sistema capitalista, que cria uma desigualdade profunda entre os povos. A crise da Africa, por exemplo, até os Estados Unidos já admitem que não é possível continuar. Países em que a maioria negra não tem direitos. Há já uma guerra de raças em perspectiva. Os países brancos da Europa e Estados Unidos não estão ainda decididos a apoiar integralmente a maioria dos países negros.

Brasil?

— Existe aqui uma crise profunda também. É talvez o lugar onde há a maior confusão ideológica e conceitual. Uma grande desordem conceitual. Isto eu venho constatando pelos jornais. A crise reflete-se sempre nos grandes jornais. É uma crise de regime. É quem preside os destinos do Brasil. Houve uma imposição de fora, das Forças Armadas, que organizaram um sistema político sem clareza. Ao contrário, violentando os processos políticos do pais.

Perspectiva de abertura?

— Uma grande e profunda Constituinte. Devido à desordem conceitual. Eu sou um homem pacifista. Quero que todas as tendências e forças se reúnam numa só casa: do povo. Populares e não populares apresentando-se para uma grande concentração. Os militares querem que uma ordem democrática seja apressada. Isto só pode acontecer se as forças se unirem. A Carta aos Brasileiros mostra que há uma discordância profunda entre as instituições jurídicas e o que impera hoje, e só uma Assembléia Constituinte pode consertar.

Apesar de se considerar um otimista, Mário Pedrosa acha impossível determinar um prazo para que aconteça essa Assembléia Constituinte:

— Qual seria a medida para esse prazo? É impossível fazê-la. Mas é a solução natural. Os militares são bastante patriotas para concordarem com essa grande convocação.

Geisel?

— Está dando uma abertura que fecha a eleição.

Jovens?

— Estou vendo que há um renascimento nos meios estudantis e juvenis. É muito bom. Tenho confiança.

Mário relembra que nasceu no Engenho do Sarau, em Imbaúba. Ainda menino foi com o pai para a Paraíba. O Senador Cunha Pedrosa, antes de entrar na carreira política, foi advogado:

— Quando eu estava com 13 anos, devido à minha vagabundagem, meu pai me mandou para a Suiça. Fiquei interno num colégio em Lausanne. Com a guerra, voltei ao Brasil acompanhado por dois colegas numa viagem bastante arriscada.

Sua família mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde ele formou-se na Faculdade Nacional de Direito:

— Mas nunca exerci a profissão. Fui logo trabalhar em jornal, onde fazia um pouco de tudo. Era um tempo em que não havia muita especialização nas redações.

Mas, apesar de escrever principalmente sobre política, o interesse pelas artes já era forte:

— A música foi a primeira arte pela qual me apaixonei. Cheguei a escrever sobre ela. Fui amigo de Elsie Houston, cantora famosa, Luciano Gallet, Villa-Lobos, Guarnieri, Mário de Andrade.

A segunda ida à Europa, em 1927, aproximou-o das artes plásticas. Pouco depois tiveram início suas prisões. Foram inúmeras. Em 1932, ele lembra-se, rindo, que ficou no presídio Liberdade (na Rua da Liberdade em São Paulo) e sua mulher Mary no presídio Paraíso (no bairro Paraíso):

— Em 1937 fui para a França, estive em Munique e em seguida Estados Unidos. Em 1940, tentei voltar, mas o Filinto Muller me prendeu e lá fui eu outra vez. Voltei em 1945 para a redemocratização.

Escrevendo sempre, professor de história do Colégio Pedro II, de História da Arte da Faculdade de Arquitetura, conferências nos mais diversos países, Mário soube, em 1970, que sua prisão preventiva havia sido decretada:

— Havia um boato de que ia haver uma supressão do direito de asilo, mas mesmo assim fui para a Embaixada do Chile. Passei aí o dia da eleição de Salvador Allende. Lembro-me de que somente um diplomata torcia por ele e, nervoso, saindo a toda hora, para conferir o resultado, acabou trazendo uma garrafa de uísque que tomamos inteira.

No dia 1º de outubro, Mário foi embora. Logo que chegou ao Chile foi convidado para fazer parte do Instituto Latino Americano de Artes, além de dar aulas de História da Arte. Mas as viagens eram constantes. Jurado da Quatrienal da Índia, voltou pela Europa e assim que retornou ao Chile — ele se lembra muito bem que era outono — propuseram que organizasse o Museu de Arte Moderna do país. E ele assumiu sua direção:

— Telefonei para amigos na França, Inglaterra, Itália, Espanha, convidando-os para membros de um comitê internacional que criei. Aos artistas, pedi que doassem obras e já na primeira exposição elas ultrapassaram a casa dos mil.

Artistas amigos, admiradores — Calder mandou-lhe 1 mil dólares quando soube que estava exilado — que criaram o Museu da Solidariedade.

— O Calder, por exemplo, quando expôs no ano retrasado em Paris, pediu que escrevesse uma Introdução. E eu já havia escrito sobre ele em 1943.

Museus brasileiros, ele cita o de Arte Contemporânea, em São Paulo, que ganhou a coleção do MAM, do qual foi diretor. Quanto ao movimento de vanguarda hoje, prefere não opinar:

— Não tenho visto quase nada. Uma vez ou outra um artista passa para me ver.

Mas “percebeu” vários deles enquanto crítico. O próprio Volpi, para ele o mais importante, teve uma exposição organizada por Mário no Museu de Arte Moderna, ainda no Ministério da Educação e Cultura:

— O Portinari, eu fui o primeiro a sustentar. Não é um grande artista, mas é um homem muito importante na arte brasileira. Seu destaque deveu-se a ter sido ele o primeiro artista a cursar Belas Artes e receber um prêmio de viagem. A escola naquela época não era nada. Só academismo.

Esse homem que lançou gente, dirigiu museus, foi presidente da Associação Internacional de Críticos de Arte, organizou a II Bienal, hoje está escrevendo Arte: para quem?

— Mas estou escrevendo também alguns ensaios. Um sobre a liberação do Terceiro Mundo, outro sobre o aparecimento de Rosa de Luxemburgo e a crise mundial do imperialismo, e um sobre o Brasil: A Hora Politica do Brasil: discursos pré-constituintes.

Com a idade do século e a mesma coerência:

— É. Tenho algumas convicções.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Na quinta edição da Revista Movimento, trazemos ao público um especial sobre a crise brasileira. Nele, publicamos longa entrevista com o economista Plinio Sampaio Jr., que oferece instigante diagnóstico do fracasso da política econômica conduzida pelos governos do PT. Fecham a seção dois artigos sobre o poder das corporações no capitalismo global e a teia corrupta que estabelecem com Estados e governos. Um conjunto de artigos sobre a situação internacional aborda as dificuldades enfrentadas pelo governo Trump, a crise na Venezuela e o avanço das lutas no Peru.

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