Revista Movimento Movimento (100 anos da Revolução Russa) Movimento (100 anos da Revolução Russa): crítica, teoria e ação

A Revolução de 1517

Há 500 anos, Martinho Lutero lançava a Reforma Protestante desencadeando uma revolta contra a ordem medieval tardia que foi muito além das suas intenções.

A afixação das 95 Teses de Lutero, Julius Hübner, 1878.
A afixação das 95 Teses de Lutero, Julius Hübner, 1878.
Jacobin

Em 31 de outubro de 1517, um monge agostiniano chamado Martinho Lutero provavelmente não pregou suas Noventa e Cinco Teses numa porta de igreja em Wittenberg.

Nas histórias iniciais, os acólitos de Lutero mitologizaram sua rebelião. As proposições teológicas que criticavam o pensamento e a prática da Igreja Católica foram direto para o povo: impressas em cartazes, feitas para serem coladas ou pregadas nas portas da igreja para que os fiéis pudessem acompanhar a disputa.

Claramente esses debates densos e acadêmicos estavam em latim, e poucos podiam compreendê-los.

Na realidade, Lutero enviou as Teses com uma carta de apresentação para os seus superiores na igreja, apresentando suas preocupações por dentro dos canais oficiais. Esta história verdadeira fornece uma imagem mais instrutiva da Reforma, da crise da sociedade europeia que a sustentou e as fissuras de classe nas quais surgiu.

A rebelião controlada de Lutero se espalhou por toda a Europa, quebrando o poder da Igreja Católica, acelerando o declínio da cristandade e facilitando o que ele mesmo considerou uma rebelião de classe indesejada contra a ordem medieval tardia. No 500º aniversário das Teses, devemos penetrar pelas principais interpretações da Reforma e encontrar uma disputa ideológica sequestrada pelas forças da história.

Vida Medieval Tardia

É quase impossível conceber, a partir de uma perspectiva moderna, a importância da igreja e da religiosidade para a vida europeia medieval.

O pensamento e a prática religiosa influenciaram vastas áreas da vida social, impactando profundamente a consciência dos adeptos. De fato, o estado moderno acabaria por absorver muitas das funções da igreja. No período medieval, o pensamento moral, social e o que chamaríamos hoje de político, tudo ocorria quase exclusivamente dentro das instituições religiosas. Terry Eagleton argumentou que tal força hegemônica não poderia existir na sociedade moderna e que as sociedades capitalistas lutaram em vão para preencher o vácuo deixado pela religião.

Em 1300, a maioria da Europa via o Papa como sua figura espiritual. Sua influência se estendia da Rússia ao leste até a extremidade sul da península espanhola no oeste, onde somente Granada permanecia sob controle muçulmano. Em meio a essa área, ficavam comunidades judaicas isoladas e tradições pagãs quase mortas, sujeitas a ocasionais tentativas de conversão ou perseguição.

A igreja era vasta, mas também era íntima. O batismo inaugurava os cristãos na comunidade como bebês. Ao longo das suas vidas, os fiéis recebiam a graça de Deus — a salvação do inferno e um lugar no céu — através dos sacramentos da igreja: a confissão anual dos pecados seguida pela Eucaristia, quando o sacerdote transforma o pão no corpo de Cristo. Na morte, os católicos recebiam o sacramento da extrema unção.

A igreja intervia até na vida após a morte. Os sacerdotes faziam missas e orações pelas almas dos mortos. Poderosos membros leigos eram enterrados nos santuários dos sacerdotes, salas em geral fechadas para a congregação. E, cada vez mais, a igreja vendia indulgências para os fiéis, permitindo a eles que comprassem para seus parentes mortos o alívio do purgatório e o despacho pro céu.

A igreja consistia de uma imensa rede de sacerdotes, monges, freiras, estudantes, administradores, bispos e outros funcionários. A vasta influência ideológica da instituição, sua enorme riqueza e sua habilidade de legitimar poderes terrestres tornaram-a um viveiro de corrupção e intriga. Os críticos e reformistas fariam muito dos sacerdotes preguiçosos e ignorantes, da venda de indulgências, da captação de recursos cínica e do sermão hipócrita.

Sob o Império Romano Cristianizado, a igreja se tornou uma espécie de burocracia sombra. Ela mais ou menos manteve essa função ao longo do período medieval, mantendo a sociedade unida por todo o continente. Mas, no século XIV, os pólos locais de autoridade, elementos sociais e classes divergentes e crises catastróficas estavam testando esse adesivo.

A crise econômica convulsionou a Europa no final do período medieval. Por volta de 1300, uma população rural em crescimento superava a capacidade tradicional da rede feudal. Os preços de comida aumentaram com a escassez de grãos e os camponeses deslocados fugiram de seus papéis agrícolas tradicionais para as cidades, onde trabalhavam como trabalhadores assalariados. O aumento na disponibilidade de trabalhadores reduziu os salários.

O clima mudou, tornando-se mais frio e úmido, contribuindo para a fome em grandes extensões da Europa Ocidental entre 1315 e 1317, matando entre 10% e 15% da população.

Quando a Peste Negra devastou uma Europa já debilitada entre 1347 e 1352, matou cerca de um terço da população. O choque psicológico, a impotência das autoridades diante da crise e um persistente senso de precariedade da própria vida — especialmente depois que a praga retornou brevemente na década de 1360 — abastecia a dissidência religiosa e o pensamento milenário.

Parecia que a civilização tinha atingido seu limite. A pobreza e a fome floresciam.

Essas crises mudaram os padrões da vida econômica e social. Entre 1375 e 1400, por volta de um quarto das aldeias nos territórios de língua alemã deixaram de existir, uma vez que o colapso dos preços dos produtos agrícolas obrigava os trabalhadores rurais ao trabalho assalariado. A natureza recuperou a terra que os agricultores de terras haviam limpado para o cultivo nos séculos anteriores.

À medida que as cidades aumentavam em influência, também aumentava o poder dos príncipes regionais sobre o Imperador Romano-Germânico, o governante titular de grande parte da cristandade.

Novas camadas de habitantes da cidade, com rendimentos descartáveis e um crescente senso de independência intelectual das autoridades da igreja, lançavam seu peso econômico e social atrás de tendências filosóficas, culturais e religiosas que os ajudaram a descrever seu mundo em mudança. O humanismo, que exigia um retorno ao estudo da antiguidade e suas ideias, ganhou influência, assim como movimentos de reforma religiosa.

Esse caos e a sensação de influência de classe ajudaram a promover uma rebelião generalizada contra a igreja e seus governantes.

Heresias

A Igreja Católica enfrentou desafios heréticos ao longo de sua história, às vezes de vozes solitárias, às vezes de seitas que racharam. As autoridades leigas liquidaram muitos desses grupos a pedido da igreja. À medida que a Europa se movia para o período medieval tardio, tais heresias aumentaram em sofisticação e alcance.

Por exemplo, os Fraticelli, inspirados pelo novo interesse pelo Livro das Revelações, desafiou o materialismo da igreja e seu fracasso em aderir à doutrina da pobreza. Alguns chegaram a acusar o Papa de ser o Anticristo predito nas Revelações.

Enquanto isso, o declínio das cruzadas na Terra Santa produziu um tipo diferente de conflito entre soldados camponeses e autoridades religiosas e leigas. Divinamente inspirada pela Virgem Maria, a Cruzada dos Pastores de 1251 organizou dezenas de milhares de camponeses que se opuseram ao abandono das cruzadas e se opuseram à riqueza da elite clerical, levando a assaltos violentos às ordens religiosas.

Um século depois, pelo menos 20 membros do clero participaram da Revolta dos Camponeses de 1381. O enorme levantamento no sul da Inglaterra teve vários afluentes e ocorreu no contexto da crise geral, mas também assumiu a forma de uma luta dentro das instituições religiosas. Membros empobrecidos do baixo clero atacaram abadias ricas, que também atraíam a raiva dos camponeses por causa de suas práticas duras como proprietárias.

Mas, de longe, o movimento mais significativo a desafiar a igreja foi a Revolução Hussita, que de muitas maneiras estabeleceu um marco para a Reforma de Lutero.

Jan Hus, um sacerdote que fez campanha contra a corrupção religiosa, foi executado em 1415, pouco mais de cem anos antes das 95 Teses aparecerem. Repetidas tentativas das autoridades leigas de destruir seu movimento o levaram a derrota militar. Os hussitas sobreviventes dividiram-se em facções radicalizadas e mais moderadas; os radicais estabeleceram comunas nas montanhas que visionavam uma futura sociedade sem classes.

Esses e muitos outros movimentos compartilhavam características que a Reforma Protestante reviveria.

Tipicamente, os movimentos reformistas radicais se opunham à riqueza clerical e à corrupção. Eles usavam leituras independentes do evangelho para estabelecer sua autoridade, tornando-os fundamentalistas no verdadeiro sentido da palavra: eles evitavam o pensamento e a prática religiosa tradicionais para retornar aos elementos essenciais do culto. Eles frequentemente criavam clérigos rebeldes, que quebravam com a hierarquia da igreja e continuavam a fornecer liderança intelectual a militantes das classes sociais mais baixas.

Crucialmente, esses movimentos tenderam a se dividir em asas moderadas e radicais. Começando com uma demanda de reformar ou abolir certas práticas ou rituais da igreja, segmentos dessas organizações em certo momento se radicalizavam em cultos milenaristas que exigiam a destruição da ordem social existente.

As autoridades clericais e leigas geralmente retaliavam com execuções e massacres, que às vezes deixavam para trás pequenos círculos subterrâneos, muito fracos para pregar a um público mais amplo.

Contra as Indulgências

No contexto do declínio medieval tardio e da revolta religiosa, a questão é menos por quê a Reforma de Lutero ocorreu, mas por que ela foi bem-sucedida. Como rompeu o muro da repressão anteriormente impenetrável imposto pela igreja, o poder de classe e o crescente estado-nação?

As 95 Teses abrem com um ataque à venda de indulgências, que cresceu em importância depois que o Papa Bonifácio VIII emitiu a primeira indulgência do Jubileu em 1300. O Papa Clemente VI concedeu à prática autoridade teológica em 1343, em um decreto que declarava explicitamente que o fiel pode negociar “uma quantidade ou valor fixo de dinheiro” para a “intercessão” da Igreja em nome de parentes mortos no purgatório.

Essa comercialização, que viu as autoridades da igreja levarem a venda de indulgências a cidades e aldeias remotas, pertencia à crescente rede de instituições financeiras e governamentais que ligavam Roma a potências e interesses locais emergentes. Uma parcela do dinheiro arrecadado — muitas vezes dos pobres e recentemente despojados — voltava para o Vaticano enquanto outra permanecia com as autoridades locais.

A retórica emotiva do discurso de vendas do dominicano Johannes Tetzel enfureceu Lutero. Tetzel chegou à cidade de Magdeburg em agosto de 1517, fazendo afirmações ultrajantes sobre o poder das indulgências e atormentando seu público com contos sobre os sofrimentos de seus parentes mortos no purgatório.

Roma tinha investido grande importância no sucesso de Tetzel, pois ele estava arrecadando fundos para a construção da Basílica de São Pedro. Outra parte de suas vendas iriam para o arcebispo Albrecht de Mainz para pagar dívidas para a família bancária Fugger.

Os Fuggers, parte da prática emergente de finanças e bancos, desprezavam a muitos — não menos a Lutero. Ele havia visto as casas financeiras empilharem dívidas em pequenos negócios de mineração, incluindo o de seu pai, na casa em que morou na infância em Mansfeld.

Ao atacar esse nexo de poder religioso e financeiro, as Teses de Lutero insultaram a hierarquia da igreja e seus legalistas. Seus argumentos não só ameaçavam as indulgências; eles também questionavam a autoridade da Igreja e sua capacidade de repartir graça aos fiéis.

Trabalhos e Fé

O próprio Lutero parece não ter acreditado que a publicação das Teses lançou a Reforma. Em vez disso, considerou os quatro anos que se seguiram como mais importantes. De 1517 a 1521, sua crítica da igreja se desenvolveu através de uma série de confrontações e exposições.

Em certo momento, a oposição às indulgências e à corrupção tomaria um lugar secundário no pensamento de Lutero, mas essa rebelião inicial indicou a forma final de sua crítica. No coração do pensamento de Lutero, havia uma visão dissidente da graça. Ele afirmou que a fé — não os trabalhos — influenciavam a decisão de Deus de transmitir graça, uma reivindicação que debilitava todo o edifício da igreja.

As ideias de Lutero eventualmente se tornaram sinônimo da noção de sola scriptura — a ideia de que a Bíblia era a fonte mais importante para o pensamento cristão. Essa crença sustentou sua rejeição de muitas tradições católicas que se desenvolveram ao longo de centenas de anos.

Ele enviou as Teses primeiro para o seu superior, Albrecht de Mainz, que então as passou para Roma. No início de 1518, alguns membros da hierarquia romana já estavam pedindo que Lutero fosse silenciado. Enquanto isso, seu trabalho começou a circular nos principais centros do pensamento humanista alemão, como Nuremberg. Em meses, leitores em toda a Europa encontrariam sua escrita com entusiasmo confuso, mas crescente.

A maioria dos historiadores não atribui a Lutero a impressão das Teses em alemão, mas ele publicou sim “Um sermão sobre a indulgência e a graça” na língua vernácula e assegurou que se espalhasse entre intelectuais das cidades que tinham riqueza e posição social para desfrutar de um grau de independência da igreja e da aristocracia.

Quando a igreja acusou Lutero de heresia em agosto de 1518 e convocou-o para Roma, Frederico III, Eleitor da Saxônia, intercedeu para mantê-lo em terras alemãs, onde ele continuou a debater críticas e enfrentar o exame por funcionários do Papa.

Quando Lutero encontrou um legalista da igreja para uma disputa no verão de 1519 em Leipzig, a Ordem Agostiniana o largou e ele denunciou abertamente a autoridade do Papa. Enquanto isso, seu renome crescia tanto entre adeptos como entre adversários. Seus textos — e aqueles que o atacavam — eram igualmente suscetíveis a serem queimados em público.

O confronto final ocorreu em 1521, na Dieta de Worms. A assembleia representou uma tentativa de reorganizar as relações entre o imperador e os príncipes. A maioria dos participantes esperava que ela resultasse em mais autonomia para o último, sinalizando o enfraquecimento do Sacro Império Romano.

Roma continuava a exigir que Lutero aparecesse, e Frederico III continuava a contestar. Em vez de ir ao Vaticano, Lutero encontrou seus acusadores em terras alemãs, desta vez diante de uma audiência de autoridades tanto leigas como religiosas. As apostas estavam altas em ambos os lados: a igreja temia a capacidade de Lutero de expôr sua nova visão em frente à aristocracia alemã, e Lutero temia que ele enfrentasse o mesmo destino de Jan Hus, que foi convidado para o Concílio de Constança com promessas de salvo conduto e depois foi queimado num post.

De fato, no debate em Leipzig, Lutero já tinha aceitado suas semelhanças teológicas com Hus — um movimento que escandalizou os legalistas católicos.

Exigido que renegasse seus escritos em Worms, Lutero se recusou. A morte que ele agora achava provável foi evitada quando os homens de Frederico o abduziram. Ele passou quase um ano no Castelo de Wartburg, onde formalizou seus pontos de vista, produziu muitos de seus textos mais duradouros e traduziu o Novo Testamento para o alemão.

A Reforma Radical

Enquanto Lutero definhava, as fúrias da dissidência religiosa chegaram ao seu reduto em Wittenberg. Acólitos como Andreas Karlstadt foram muito além das ideias originais de Lutero, pedindo a destruição de estátuas e imagens religiosas. Karlstadt abandonou as roupas religiosas e começou a se vestir como um pobre camponês. Ele realizou missas em alemão e se casou, incitando a ira da igreja.

Quando Lutero finalmente emergiu de Wartburg, ele se tornou uma força de contenção dentro do movimento cada vez mais diversificado da Reforma. Ele pediu para terminar muitas das mudanças mais agressivas e introduziu um ritmo de mudança mais gradual.

Mas a Reforma já havia provado ser capaz de estourar quaisquer limites. Uma vez que a autoridade da igreja e a doutrina oficial caíram, poucos parâmetros limitaram onde o pensamento da Reforma podia chegar. Sola scriptura ofereceu pouca restrição porque leitores podiam interpretar e reinterpretar a Bíblia quase sem limites.

Em Wittenberg, Lutero advertiu contra os perigos de “insurreição e rebelião”. Ele entendia que a reforma teológica poderia se transformar numa revolta contra toda autoridade — uma conclusão razoável considerando a integração completa da religião na vida social medieval.

Os Profetas de Zwickau, que apareceram em Wittenberg no final de 1521, apenas reforçaram a determinação de Lutero de eliminar o novo radicalismo. O grupo pregava a igualdade dos homens e o retorno apocalíptico de Cristo, ideias que o próprio Lutero rejeitou.

O potencial radical da reforma atingiu o seu apogeu quando combinado com as exigências das classes baixas e médias, que estavam lutando para sobreviver na desordem da economia medieval tardia.

Entre 1524 e 1525, centenas de milhares de camponeses, fazendeiros pequenos e médios e outras camadas pobres e médias das cidades se ergueram contra a ordem feudal. Seu programa, pensado para ser inspirado ou mesmo escrito por pregadores radicais — incluindo Thomas Muntzer, uma vez associado aos profetas de Zwickau — exigia o fim de muitas das práticas extrativas da igreja, incluindo a servidão, o alicerce da economia rural que amarrou os camponeses à aristocracia e ofereceu-lhes poucos direitos.

O intenso radicalismo e a violência do movimento horrorizaram os príncipes alemães e uniu brevemente os interesses católicos e protestantes. Lutero primeiro pediu reconciliação e compromisso, em seguida apoiou firmemente a ordem dominante.

Em 1525, ele escreveu seu infame folheto “Contra as hordas ladras e assassinas dos camponeses”. Sua circulação coincidiu com uma perversa repressão levada a cabo pelos exércitos dos príncipes, que acredita-se que matou aproximadamente 100 mil revolucionários.

Lutero denunciou o levante nos termos mais absolutos. Ele insistiu que os cristãos permanecessem fiéis aos seus superiores e resistissem a qualquer injustiça pacificamente enquanto dessem a aristocracia uma licença completa para derrotar o movimento com violência, “assim como é preciso matar um cão louco”.

Lutero e o Estado

Os movimentos de dissidência religiosa por muito atraíram elementos de classe diversos, particularmente membros das classes médias e baixas, mas essa composição os deixou vulneráveis à repressão de cima.

De fato, o sucesso de Lutero dependia do apoio que ele obteve de algumas das camadas da elite da sociedade, especialmente dos príncipes. Ainda, a defesa de Lutero da supressão do levante representou os limites de um movimento dependente da sua proteção.

Frederico III manteve Lutero vivo e os príncipes que queriam maior autonomia em suas terras e o acesso à propriedade da igreja adotaram suas posições mais moderadas. O movimento ganhou tanto impulso que muitos governantes se sentiram obrigados a se juntar a ele para moldar seu resultado, o que fizeram contendo seus efeitos radicais.

Tanto quanto as elites ajudaram a proteger a Reforma da Igreja Católica e do Sacro Império Romano, eles também limitaram seu radicalismo, popularidade e crescimento.

Os governantes católicos permaneceram no controle do sul da Alemanha, bem como na maior parte da Europa do Sul e Ocidental. As minorias protestantes enfrentaram perseguição em todo o continente — principalmente os Huguenotes na França. A mensagem da Reforma — ou versões dela — ganhou mais tração onde os governantes locais tinham mais a ganhar com independência.

Em uma Europa dividida e devastada pela guerra, as próprias ambições de Lutero para a reforma religiosa diminuíram. Seu movimento continuou a se fragmentar em inúmeras facções, às vezes devido a diferenças locais, mas frequentemente ao longo de linhas de classe ou radicalismo.

O Significado da Reforma Hoje

Se tornou clichê entender a Reforma como evidência da engenhosidade ocidental — as dores de nascimento da sociedade democrática, livre e pluralista. Outra visão afirma que a Reforma desempenhou um papel essencial no desenvolvimento do capitalismo em toda a Europa, uma visão frequentemente atribuída incorretamente à Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber. Histórias que recapitulam essas ideias estão retornando às livrarias para celebrar o quinto centenário das Teses de Lutero.

Porém, o desenvolvimento histórico real seguiu um caminho muito mais complexo, contraditório e sangrento.

Caracterizar o protestantismo como a semente do iluminismo ou da tradição liberal clássica ignora suas formas muitas vezes dogmáticas e seu desinteresse relativo na vida intelectual fora da teologia. Na verdade, no próprio período da Reforma, muitos intelectuais humanistas católicos, como Desiderius Erasmus, rejeitaram o movimento por sua rígida inflexibilidade.

No entanto, podemos encontrar ilhas de verdade nessas histórias simplificadas e ideológicas. A Reforma ajudou a promover tradições radicais e dissidentes, algumas das quais foram expurgadas nos próprios dias de Lutero. Mas as tensões da Reforma viveram para ajudar a moldar os movimentos revolucionários burgueses nos Países Baixos em 1566 e a Revolução Inglesa em 1640.

Alguns dos estados ainda dentro da esfera de influência da Igreja Católica continham minorias protestantes substanciais e reativas. Esses movimentos, muitas vezes influenciados pelas ideias de John Calvin, ajudaram a introduzir ideias que se tornariam centrais para os futuros movimentos radicais. Incapazes de formar nações separadas com base no poder dos governantes locais, alguns calvinistas defendiam a derrubada do estado.

Ao avançar a ruptura da ordem tardia medieval, prejudicando o controle ideológico da igreja e, em alguns casos, argumentando contra a permanência do poder da classe ou do estado, a Reforma ajudou a promover impulsos radicais na Europa.

Esse é o presente de Lutero para nós, ainda que seja um que ele nunca teria oferecido.

(Publicado originalmente na Jacobin e traduzido por Tiago Madeira para a Revista Movimento)

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