Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O que Bolsonaro pensa sobre a Amazônia?

O que a passagem do deputado pela região revela sobre suas concepções sobre a formação da nação e o lugar da Amazônia neste processo?

Boneco inflável em homenagem à passagem de Bolsonaro pelo Amazonas - Fabio Maisonnave/Folhapress
Boneco inflável em homenagem à passagem de Bolsonaro pelo Amazonas - Fabio Maisonnave/Folhapress

A passagem do deputado Bolsonaro por Manaus é oportunidade para refletirmos sobre o conteúdo dos pronunciamentos deste que se referem à Amazônia. Vamos encontrar aí um amálgama de velhos constructos de colonizador, de metrópole, de quem se percebe no centro econômico e político, que inventam e reinventam a região e a gente que nela vive.

A Amazônia ainda é concebida como terras do sem fim que, nas cartilhas emboloradas de uma geopolítica do tempo da Guerra Fria que servem de fundamento para o deputado, é sintetizada pela ideia de “vazio”. Incrível que, após décadas de estudos antropológicos, de pesquisas em etnoecologia da paisagem, socioambientais etc. o discurso militarista ultrapassado ainda se ancore nesta noção para fundamentar seus espasmos ideológicos sobre o lugar da região no conjunto do Brasil!

Um aspecto que ressalta do exercício pobre de economia política de Bolsonaro, é aquele que reduz a Amazônia a uma grande reserva de minérios que desperta a cobiça internacional e coloca em cheque a soberania da nação. Em tal matéria, a alusão à soberania é uma cortina de fumaça para uma disposição subalterna no concerto das relações econômicas internacionais: “temos que nos aproximar de países democráticos e de poderio nuclear e influência no mundo, para poder explorar em parceria essa região”, afirmou em recente entrevista. Seus discurso, pois, sobre soberania é, ao fim e ao cabo, sem autodeterminação da nação.

Convém, todavia, lembrar que este discurso de Bolsonaro bebe na fonte de velha concepção de formação econômica da nação que sempre destinou à região amazônica o lugar de estoque de matéria-prima ou de acumulação de primitiva de capital. E o deputado não está só na defesa contemporânea desta velha lógica. As elites econômicas, políticas e intelectuais, nutrem ciosamente a mesma perspectiva. Parlamentares da Amazônia de diferentes partidos políticos (DEM, PR, PMDB, PT, só para citar alguns) formam uma frente que defende sistematicamente a revisão de demarcação de terras indígenas, de áreas protegidas e protocolos ambientais para favorecem a exploração de reservas minerais. É assim que Bolsonaro pode afirmar: “Eu tenho falado que um povo que tem uma terra como essa aí não pode ser pobre”.

“Povo” e “pobreza” em enunciados sobre a Amazônia e a redenção econômica da sociedade brasileira, são apenas recursos retóricos na boca de Bolsonaro. A gente que vive na Amazônia é o obstáculo à exploração da região. Se, na Ditadura Militar o elemento indígena era visto como agente de subversão, pois não se deixava sequestrar pela lógica da apropriação privada da relação com a terra, com o ambiente, na invenção atual realizada pelo deputado, o indígena é taquigrafado como “massa de manobra” de ONGs ambientalistas, de movimentos indigenistas e similares, e que um possível governo seu promoverá a redenção. O indígena é o obstáculo entre as reservas minerais e a empresa exploradora: onde há terra indígena demarcada, há um impedimento ao acesso à riqueza. Pode-se inferir, assim, quem serão os alvos quando disse, em Manaus, que tem a intenção de “dar carta branca para policial matar”, pois é a gente de marcados traços indígenas que tem sido morta em chacinas na periferia da capital do Amazonas.

Não há nenhuma novidade nos argumentos de Bolsonaro em relação à Amazônia. Dos primeiros cronistas que por ela passaram, no início da Colonização, até o deputado que se inventou como candidato à Presidência da República, a Amazônia só cabe como lugar periférico e de gente que só pode ser aceita em condição subalternizada. Por fim, o que se tem, efetivamente, nessa concepção dualista é uma nação que ficou pela metade, cujo destino permanece atrelado a uma sinistra dupla determinação: não ter autodeterminação no conjunto do desenvolvimento capitalista mundial e cultivar um ódio-pânico de índios, negros, caboclos e demais subalternos da sociedade brasileira.

Com Bolsonaro não há Amazônia e nem uma nação. Da indigência intelectual deste tipo de discurso político, só ficamos com a desertificação do real.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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