Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

20 anos de “Sobrevivendo no Inferno” e a força cultural da periferia.

Neste artigo, Wallace Salgado reconstrói a paisagem social sobre a qual os Racionais MC's se constituiu enquanto grupo e a maneira como ela foi refletida em suas letras.

Os Racionais MC's em foto de 2001 - KLAUS MITTELDORF
Os Racionais MC's em foto de 2001 - KLAUS MITTELDORF

“Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor.
O homem me deu a favela, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta.
Eu? Eu tenho uma bíblia véia, uma pistola automática e um sentimento de revolta.
Eu tô tentando sobreviver no inferno”.

No final de 1997, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay lançavam seu quinto álbum de estúdio, “Sobrevivendo no Inferno”, a partir daquele momento o rap e a música brasileira nunca mais seriam os mesmos.

Para entendermos melhor o impacto cultural e sociológico que essa obra causou no país, precisamos entender em qual contexto social e político vivia o Brasil, a América Latina e o mundo nos anos 90. A década foi considerada os anos dourados do neoliberalismo no mundo, a queda das burocracias do Leste Europeu e a consequente restauração do capitalismo, acelerou a globalização e um consenso liberal, além de consolidar a nova fase do capitalismo mundial que vinha desde o final da década de 70, e 80, que significou o desmonte do Estado social mundo afora, a financeirização da economia e uma concentração de renda ainda maior. Mas o que isso tem a ver com o disco dos Racionais? A tragédia social do neoliberalismo resultou no boom da população carcerária mundial, na explosão da violência urbana na América Latina e uma brutalização da violência estatal sob a capa da guerra às drogas. Segundo a pesquisa “Crime e violência na sociedade brasileira contemporânea. Jornal de Psicologia” do pesquisador Sérgio Adorno: “No município do Rio de Janeiro, cresceram os homicídios dolosos, entre 1985 (33,35 registros/cem mil habitantes) e 1989 (59,16 registros/cem mil habitantes). No município de São Paulo, os homicídios evoluíram de 48,69 registros/cem mil habitantes, em 1991, para 55,77 registros/cem mil habitantes, em 1996, na Região Metropolitana”. Naquela década bombaram na televisão brasileira programas sensacionalistas policialescos, os cartéis dominavam inúmeros países latino-americanos como os carteis de Cali e Medelín, as favelas cariocas estavam dominadas pelo narcotráfico enquanto o povo favelado se encontravam no fogo cruzado entre polícia e traficantes, os EUA privatizavam seus presídios, os conflitos no Oriente Médio começavam se intensificar com a intervenção do imperialismo enquanto o fundamentalismo islâmico ganhava força.

Todo Estado mínimo precisa de um Estado máximo de repressão, aqui essa repressão se dava dentro de uma estrutura racista que atingia o povo preto, pobre e periférico. Cinco anos antes do lançamento do álbum, o país presenciou a chacina do Carandiru, quando a PM de São Paulo, a mando do então governador Fleury, matou mais de 111 homens durante a rebelião do presídio do Carandiru, na zona norte de São Paulo, numa das maiores violações de direitos humanos da nossa história. Era sobre tudo isso que os Racionais cantavam o grito de resistência da periferia, as crônicas das tragédias que atingiam o povo preto e periférico. A chacina do Carandiru foi tema da principal música do álbum, “Diário de Um Detento”.

“Cada detento uma mãe, uma crença/ Cada crime uma sentença/ Cada sentença um motivo, uma história de lágrima/ sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio/ sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo/ Misture bem essa química/ Pronto: eis um novo detento”, a química carregada de uma história de séculos de escravatura, exclusão e segregação social, racismo institucional combinado com o momento econômico de conflagração dos conflitos de classe e racial, o papel de controle social cumprido pelos presídios era e ainda é de transformar os muros da cadeia em masmorras do esquecimento, para guardar “o que o sistema não quis” e esconder “o que a novela não diz”.

Mas se foram anos de tragédias, foram também anos de resistência, a cultura da periferia se fortalecia como instrumento de expressão e crítica social, em Pernambuco o Manguebeat saía dos manguezais e arrebatava a música popular brasileira com Chico Science & Nação Zumbi misturando maracatu, frevo e outras músicas regionais com o rock, rap e eletrônica, na Bahia a axé music de Carlinhos Brown e sua Timbalada, Margaret Menezes, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Olodum e etc, na região Norte a lambada que nos anos 80 bombou e o melody que viria bombar no Brasil na década seguinte eram forte expressão da música popular nortista, no Rio de Janeiro os bailes funk tomavam as favelas e os subúrbios com as músicas de Cidinho e Doca “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci” e em São Paulo, o hip hop que nasceu nos ghettos americanos desembarcava no país para ganhar sua versão nacional como uma autêntica expressão cultural das periferias com o papel de música de protestos, naquela época Racionais, Thaíde, Rappin Hood, Facção Central, Trilha Sonora do Gueto, Realidade Cruel e dentre outros se destacavam. A resistência cultural e social também foi cantada na obra com a “Fórmula Mágica da Paz”, “É… sonho é sonho, deixa quieto./ Sexto sentido é um dom, eu tô esperto./ Morrer é um fator, mas conforme for,/ Tem no bolso, na agulha e mais 5 no tambor.// Joga o jogo, vamos lá, caiu a 8 eu mato a par./ Eu não preciso de muito pra sentir-me capaz/ De encontrar a Fórmula Mágica Da Paz”, o hip hop foi se fortalecendo como uma das únicas alternativas de cultura e lazer em meio ao total abandono do Estado nas bordas da cidade, de um modelo de cidade partida, onde a bolha concentra seu poder e riqueza e empurra para as bordas os trabalhadores, o povo pobre em geral, esse é o significado do rap pra quem cresceu na periferia de São Paulo e da região metropolitana, como eu nasceria 2 meses depois do lançamento desse disco. “Sobrevivendo no Inferno” ainda canta sobre fé (na época do boom das igrejas neopentecostais), drogas, luta de classes e racismo como em “Capítulo 4, Versículo 3″, ” Ilumina minha alma, louvado seja o meu senhor/ Que não deixa o mano aqui desandar/ E nem senta o dedo em nenhum pilantra/ Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei./ Racionais capítulo 4 versículo 3″, além de uma bela homenagem à black music e à Jorge Ben Jor com “Jorge da Capadócia”, completando a lista com “Mágico de Oz”, ” Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”, “Periferia é Periferia”, “Gêneses” e entre outros clássicos dessa obra prima. Em termos comerciais foi um tremendo sucesso, alcançou a marca de um 1,500,000 de cópias vendidas, apesar de ter sido lançado por uma gravadora independente. “Diário de Um Detento” foi uma das as mais tocadas de 1998 e seu clipe recebeu vários prêmios VMB (Video Music Brasil) da MTV.

Duas décadas se passaram e o álbum continua sendo fundamental para se entender o Brasil contemporâneo, sobretudo numa conjuntura onde as contradições são aguçadas por uma crise econômica, social e política. É uma crônica, a partir do ponto de vista dos debaixo, sobre racismo, luta de classes, repressão estatal, periferia e resistência, uma obra definitiva que merece estar em qualquer lista de melhores discos de todos tempos da música popular brasileira.

Refletir sobre o conteúdo de uma obra como essa no fim de um ano que começou com um surto de chacinas em vários presídios, foi marcado pelos vários tiroteios que voltaram a atingir as favelas cariocas, como os que ocorreram nas favelas da Rocinha e do Jacarezinho, no cenário de alto desemprego e constantes ataques do poder branco e burguês aos direitos do povo, é exercitar o conteúdo crítico e intelectual que a periferia contribui com a sua cultura, sua produção, esse é o valor que o álbum nos coloca e provoca. Por que, em 20 anos, mesmo com políticas e compensatórias e governos ditos progressitas não conseguimos superar nenhum dos problemas relatados? Qual é a raiz desses problemas? Não existe dúvida que a periferia, sobretudo a juventude, entendeu a mensagem do disco, mas está na hora das classes médias, dos políticos, da mídia e da sociedade como um todo pararem novamente para ouvir o que os Racionais tinham e ainda tem a dizer, já a ação deixa com a gente.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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