Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A esquerda e o trotskismo em debate

Há um tempo a esquerda em geral, e o trotskismo em particular, são motivo de análise, artigos e diversas opiniões no campo do jornalismo político e da pesquisa.

Os fatos de dezembro contra o ajuste macrista e a cumplicidade do Partido Justicialista (PJ), com a visibilidade notória na rua das forças trotskistas – entre elas nosso partido, o MST – motivaram uma nova modificação na preocupação do regime político imperante, entre seus executores, cúmplices e escribas. Nosso país tem uma rica história trotskista, da qual somos uma corrente fundadora1 e desde o Argentinazo de 2001 até hoje, o trotskismo em diversas vertentes seguiu avançando até colocar esta corrente na primeira linha das expressões da esquerda argentina. Neste contexto, distintos meios vêm escrevendo sobre a ação e o peso do trotskismo. E vale como exemplo do interesse e a preocupação que suscita o tema, a coluna de opinião publicada dias atrás no Clarín, de autoria de Marcos Novaro, sob o chamativo título “La izquierda, en problemas”. Artigo que reflete mais os problemas do governo – e seus meios para compreender a dinâmica do processo ascendente que podemos adquirir desde a esquerda – que os problemas reais existentes na esquerda, não abordados pelo autor e que devem ser enfrentado criticamente pela enorme militância que compomos as organizações da esquerda em geral e do trotskismo em particular.

Esquerda, trotskismo e PJ

Por um lado Novaro, corretamente, marca o antagonismo entre o PJ em crise e a velha direção sindical com o trotskismo, de quem o autor diz: “Quem, se não eles, podem conduzir o gremialismo alternativo, “democrático” e honesto, que hoje faz falta? Se sempre denunciaram as práticas opacas e a inconsequência da burocracia sindical, quem mais poderia se beneficiar de sua queda em desgraça?”. A vida real dentro de sindicatos e nas lutas em curso tanto operárias, como na juventude e no movimento de mulheres marca essa possibilidade; são milhares as e os trabalhadores e jovens que encontram no trotskismo uma via de organização política e de luta consequente. Até aqui, a hipótese e a análise têm um ângulo verdadeiro.

Mais ao mesmo tempo o autor se mete por um caminho equivocado, ao pretender aconselhar o trotskismo quando diz: “Uma pena, se depois de haver resistido ao menos em parte a cooptação K, que a esquerda argentina tenha sido deixada levar ainda mais extensamente a esta onda de antimacrismo virulento”. Trazendo à luz uma mescla de antikirchneirismo intempestivo, com certos desejos que não sejamos tão duros frente a Macri e seu governo.

Na realidade, a posição correta da esquerda e do trotskismo é convocar a mais ampla unidade na rua contra todas as políticas macristas. Não se trata de “ficar com os K” como crê Novaro, mas de convocar sem sectarismo a toda classe operária e ao povo em geral para construir um verdadeiro e unitário plano de luta que freie e derrote o ajuste macrista. E dentro desse chamado político, logicamente nos dirigimos também à base social que soube apoiar o projeto kirchnerista que nós não compartilhamos, mas que leva em seu seio honestas e honestos companheiros, militantes e eleitores que hoje veem com certa decepção o presente e o futuro dentro do PJ. Somos unitários na luta com essas bases e críticos de suas direçõs que não pensam romper com o pejotismo, preparando assim novas frustrações. E somos “virulentos antimacristas” porque é o que nos cabe frente um projeto de entrega, ajuste e repressão selvagem. Toda outra posição seria de cumplicidade, e para essa posição já há demasiados atores políticos e sindicais em nosso país.

Os reais problemas da esquerda

Está claro que na esquerda, e no trotskismo como principal corrente político-ideológico de nosso país, há problemas a resolver e desafios a superar. Aqueles que desde seu próprio seio não veem esta necessidade nem a assumem criticamente, crendo que tudo vai bem, estão fora da realidade. Mas esses problemas não são os que reflete o analista de Clarín nem outros de similar enfoque, e sim os problemas e atrasos para converter a esquerda em opção de poder político e social em nosso país. Novaro diz que os trotskistas somos “uma simpática curiosidade enquanto somos marginais”. E agrega em tom de pergunta: “Mas se tornassem mais relevantes, não passariam a ser mais prejudiciais à democracia?”.

Na pergunta que preocupa o autor, está o centro dos problemas que a esquerda tem que resolver. Porque tanto temor de um salto qualitativo na influência e no crescimento político do trotskismo, confirmam precisamente que é possível conseguir isso. Não há mandatos divinos que o impeçam. Trata-se então de ver como tentar fazer isso e com quem.

E aqui radica o essencial que pretendemos defender; na medida que não haja um salto na unidade na luta política e nas lutas sociais de grande parte da esquerda, é praticamente impossível dar um salto de qualidade. A negativa das forças da FIT de avançar a uma unidade maior com Izquierda al Frente (MST-Nuevo MAS) e com outras forças de esquerda, atua como um obstáculo ao próprio crescimento da esquerda. E mantém o FIT como cooperativa eleitoral, sem se propor a um papel verdadeiramente progressista que ajude a contornar todo esse regime e esse sistema antidemocrático e decadente.

Este problema central, nós do MST queremos ajudar a resolver. Para isso construímos nosso partido e Izquierda al Frente, e estamos abertos a ampliar essa unidade que viemos construindo. Para isso seguimos também, apesar das críticas que temos, propondo à FIT que reveja seu fechamento e abramos em comum um debate profundo e democráticos entre as duas frentes que há na esquerda argentina. Só a sua abertura causaria tal efeito político que, seguramente, novos analistas de meios hegemônicos, dedicariam artigos e páginas para tratar de entender o fenômeno. Se um caminho assim fosse transitado, seria também um canal de organização e motivação para milhares e milhares de simpatizantes e amigos da esquerda. E atrairia muito mais ainda, às e aos desencantados de velhas experiências do peronismo. À par que fortaleceria todo o processo de luta e de nova direção sindical. Parece incrível, mas há ainda na FIT uma tendência marcada para impedir este processo. A pergunta é: até quando? É necessário deixar de ser, ainda que inconscientemente, funcional ao regime atual obstaculizando a unidade da esquerda que faz falta. Os passos comuns em apoio às lutas em curso, a convocatória para encontros do sindicalismo classista junto com Posadas e outras iniciativas, bem pudessem ajudar a mudar essa tendência de divisão. Já veremos se é assim ou não.

Entretanto, seguimos convidando o ativismo e os milhares de simpatizantes da esquerda a ser parte deste debate e a somar-se, os que quiserem, a nosso projeto político. Lutemos juntos por uma perspectiva unitária anticapitalista, socialista e de classe. Vêm tempos de confrontação e a esquerda e o trotskismo estaremos à prova. O problema mais importante da esquerda e o trotskismo é mudar a cultura da divisão e animar-nos a forjar um grande movimento político unitário que impulsione a mobilização em todos os terrenos. Essa é nossa proposta.


Nota

1A corrente encabeçada por Nahuel Moreno, da qual provém o MST, é a corrente mais antiga e forjadora do trotskismo argentino e latino-americano.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista