Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Amazônia sob ameaça da Hydro

A população local não se cala perante os danos ambientais advindos da exploração de tipo capitalista na região.

JOÃO RAMID/FLICKR/CREATIVE COMMONS
JOÃO RAMID/FLICKR/CREATIVE COMMONS

No último dia 17 de fevereiro, um grande desastre tecnológico 1 assolou centenas de famílias do município de Barcarena, no Pará: rejeitos do processo de refino da bauxita vazaram, da bacia da empresa norueguesa Hydro, afetando rios e moradias. Casos de contaminação das águas dessa região não são recentes, desde 2009 há denúncias contra as empresas mineradoras e aplicação de multas por crimes ambientais, totalizando R$17,1 milhões que nunca foram pagos. Por outro lado, o Governo do Estado do Pará, sob o comando de Simão Jatene (PSDB), que deveria cobrar das multinacionais responsabilidade ecológica e social segue na contramão dessas cobranças que poderiam minimizar o sofrimento dos moradores da cidade de Barcarena – haja vista que fornece incentivos fiscais a essas empresas quando deveria exigir que cumprissem com o pagamento das multas milionárias.

Enquanto isso, o povo padece por causa de doenças dermatológicas, gástricas e respiratórias devido o contato e ingestão de substâncias tóxicas como alumínio, soda cáustica e chumbo.

A Hydro segue com isenção de ICMS da energia elétrica que corresponderá a 7,5 bilhões no período de 2015 a 2030, isso representa cerca de 500 milhões de reais a menos nos cofres públicos em um ano.

Nesse contexto, a população local não se calou perante os danos ambientais advindos das mais de vinte bacias de rejeitos químicos. Em 2017, várias denúncias e manifestações ocorreram, as notificações mais graves dizem respeito a localização de um depósito de resíduos em área de proteção ambiental (APA) e de comunidade quilombola. Em declaração a imprensa, a Hydro afirma que tem licença ambiental da Secretaria do Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS) e não sabe da existência de território quilombola na área. Claro que ela desconhece essa comunidade, pois para o capitalismo as vidas negras não importam.

A mesma secretaria (SEMAS) que supostamente liberou licença para uso da Área de Proteção Ambiental não cumpre o papel fiscalizador. Mas seria um caso de incompetência ou de conivência?

Afinal, antes da divulgação do laudo do Instituto Evandro Chagas, a SEMAS afirmava que não havia ocorrido vazamento da bacia e a Hydro negava todas as acusações.

No dia 22 de fevereiro foi comprovada a contaminação por transbordamento da bacia de rejeitos e existência de um tubo clandestino lançando substâncias tóxicas para Igarapés e nascentes de rios. Então não teve saída: a culpa foi assumida pela empresa e firmado um acordo de distribuição de água potável para a comunidade de Bom Jesus e Vila Nova. Mas nada foi feito quanto a saúde física, mental e social dos indivíduos que tiverem os corpos expostos a substâncias que predispõem comorbidades como o câncer.

Na tentativa de intervir nesse cenário, uma comitiva de deputados federais e outras autoridades visitaram a planta industrial e logo em seguida realizaram uma audiência pública que contou com excelente demarcação política das lideranças comunitárias exigindo soluções, notificando sobre as perseguições que sofrem e o descaso das autoridades em tomar providências imediatas. “Enquanto vocês bebem água mineral. Nós estamos tomando veneno da Hydro” foram as palavras indignadas da representante da Associação indígena e quilombola da Amazônia (Caiqama).

Em entrevista, o governador tucano atribui a culpa do desastre às intensas chuvas. Provavelmente, o governador do Pará desconhece que o inverno amazônico é caracterizado por constantes chuvas ou ele não tem o mínimo interesse em apontar os verdadeiros culpados.

Nós sabemos quem deve pagar por isso! A Hydro e o Poder executivo devem respostas e soluções ao povo!

A população pobre não pode mais padecer enquanto os poderosos lucram!

Colaborou Heliane Abreu, professora da rede privada de ensino de Belém/PA.


Nota

Segundo a Classificação Brasileira de Desastres (COBRADE) desastre tecnológico refere-se a contaminação por substâncias radioativas ou produtos tóxicos.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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